Torne-se perito Crítica

Porto novo

Três novas edições da Porta-Jazz confirmam a vitalidade do novo jazz portuense e destacam um saxofonista omnipresente, João Mortágua.

João Mortágua parece possuir o dom da ubiquidade: o saxofonista confirma, nestes três registos, a sua grande intensidade
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João Mortágua parece possuir o dom da ubiquidade: o saxofonista confirma, nestes três registos, a sua grande intensidade

Da recente fornada de discos lançados pelo Carimbo Porta-Jazz, a vertente editorial da associação de músicos jazz do Porto, três deles têm um elemento em comum, o saxofonista João Mortágua, músico que confirma uma imensa criatividade e intensidade, parecendo possuir o dom da ubiquidade.

O contrabaixista Filipe Teixeira já não deverá ser um completo desconhecido, pois tem tocado e gravado com projectos como Baba Mongol, Low Budget Research Kitchen e Diogo Vida Quarteto. Páginas é o disco de estreia do seu trio, onde este surge com João Mortágua no saxofone alto e Acácio “Salero” Cardoso na bateria. Como acontece com a generalidade das edições Porta-Jazz, também aqui as composições são originais: dos 11 temas que enchem o disco, nove são assinados por Teixeira (um é de Mortágua, o outro de Salero). Filipe Teixeira domina o contrabaixo com segurança, indo ao coração de cada composição; Salero não cumpre apenas a função rítmica, tem um papel activo; e Mortágua acaba por ser o elemento mais vibrante, com vários solos dignos de nota. O trio conta ainda com a participação pontual do pianista Hugo Raro, em três temas, que pouco acrescenta à dinâmica sólida do grupo. Quem queira descobrir este trio poderá começar pela penúltima faixa do disco, Bebop, embalada pela animada vertigem colectiva.

Estreando-se com este Estereograma, o grupo pLoo reúne Paulo Costa (bateria), António Augusto Aguiar (baixo eléctrico), Eurico Costa (guitarra eléctrica) e Daniel Dias (trombone), para além de João Mortágua (saxofone). O quinteto trabalha composições originais do baterista Paulo Costa, orientados para um jazz eléctrico de fusão. O trabalho de percussão é inventivo, o baixo preciso, a guitarra muito presente. O trabalho do trombone de Daniel Dias é complementado com o saxofone de Mortágua, num diálogo interessante de sopros. A música do grupo não se fixa num único registo, atravessa diversos ambientes, revelando a sua diversidade e amplitude estética. Como sugestão de entrada fica o quarto tema, Oba, com os seus uníssonos a abrirem espaço para as intervenções da guitarra, primeiro, e depois do saxofone, fechando com todos os instrumentos em perfeita união.

Também eléctrica é a estreia do guitarrista Mané Fernandes, que lançou BounceLab no final do ano passado. O guitarrista apresenta a sua música como “groove experimental”, arriscando uma fusão de jazz e electrónica. Tal como os parceiros de editora, também Fernandes interpreta quase exclusivamente composições originais — com uma única excepção, o tema Cyclic episode, de Sam Rivers. Além da guitarra eléctrica de Fernandes e do saxofone de Mortágua, o grupo completa-se com o piano (e Fender Rhodes) de Gonçalo Moreira, o contrabaixo de Filipe Louro e a bateria de Pedro Vasconcelos. Electro-jazz com uma vertente electrónica subtil, sendo o elemento principal a estrutura jazz, aqui trabalhada de forma muito estável. A sugestão de aperitivo poderá ser a segunda faixa, W, com uma base rítmica arrastada sobre a qual a guitarra viaja assertivamente (deixando o saxofone ao fundo, quase imperceptível).

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