Opinião

Chover no molhado

Na falta de outros recursos, os governos continuam a acreditar numa via mágica para a prosperidade.

O programa do presuntivo governo de António Costa não vai, coitado, muito longe. Em grosso, tem duas partes principais. A primeira é uma pequena redistribuição (ou reposição) de rendimentos, que não fará grande diferença aos beneficiários. A segunda é a eliminação das leis laborais que limitavam a força e a liberdade de manobra da CGTP. Nada disto ajudará, como espera Centeno e espera Costa, o consumo a crescer ou a produção doméstica a aumentar. Para não falar do investimento interno e externo. As pessoas têm de pagar dívidas, não sabem se a bonança não acaba amanhã e desconfiam de aventuras. O camponês que vendia a vaca e abria um café morreu anteontem. Os tempos não estão para brincadeiras. E hoje a concorrência aperta muito mais.

Ficam as miragens. Sobretudo, a velha miragem da “educação”. Numa entrevista à RTP, Centeno tornou a dizer, repetindo Costa, que “o investimento na educação é o melhor investimento que um país pode fazer em si próprio”. Já ouvi esta frase milhares de vezes na boca de toda a gente e até, se bem se lembram, o PS já dedicou um governo a este santo princípio. Mas, para informação da nossa esquerda de hoje (que não se distingue da esquerda de ontem), essa ideia nasceu no século XVIII, foi adoptada e acarinhada pela “intelectualidade” portuguesa inteira, desde Verney ao pobre António Sérgio – e abortou sempre. Nunca ocorreu a ninguém, como Centeno e Costa brilhantemente demonstram, que a economia desenvolve a educação, a educação não desenvolve a economia.

Por isso os portugueses que o Estado educa, ou pretende educar, abandonam a escola, ficam no desemprego ou rapidamente emigram. Antigamente, os pais que precisavam das crianças no campo faziam manifestações contra o ensino obrigatório. Hoje os “diplomados” abandonam a escola ou a universidade, vivem na miséria ou fogem para o estrangeiro, onde têm emprego e lhes pagam bem. Costa e Centeno não perceberam uma verdade simples: como as mercadorias, as pessoas também circulam na Europa e os ricos compram o melhor. Mas, na falta de outros recursos, os governos continuam a acreditar numa via mágica para a prosperidade, sobretudo quando os senhores ministros são célebres doutores e julgam que se promoveram à custa das suas privilegiadas cabecinhas. Erro deles. Seis meses na Gomes Teixeira bastarão com certeza para os devolver à sobriedade.

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