A política saiu à rua, mas a vida e a solidão continuam

Nas conversas que se ouve nos passeios, nos cafés, há expectativa, mas também muitas interrogações sobre o acordo e o Governo de esquerda. Porém, mesmo os mais indiferentes admitem: o que está a acontecer é diferente e fez as pessoas olharem para a política e para o voto de outra forma.

Fotogaleria

De sacos de compras nas mãos, duas senhoras na casa dos 50 anos caminham calmamente na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. “O que acha de Jerónimo de Sousa?”, pergunta uma delas. A amiga nem sabe o que pensa do líder do PCP que, a par do Bloco de Esquerda, chegou a acordo para apoiar um Governo do PS.

A verdade faz-nos mais fortes

Das guerras aos desastres ambientais, da economia às ameaças epidémicas, quando os dias são de incerteza, o jornalismo do Público torna-se o porto de abrigo para os portugueses que querem pensar melhor. Juntos vemos melhor. Dê força à informação responsável que o ajuda entender o mundo, a pensar e decidir.

De sacos de compras nas mãos, duas senhoras na casa dos 50 anos caminham calmamente na Avenida Almirante Reis, em Lisboa. “O que acha de Jerónimo de Sousa?”, pergunta uma delas. A amiga nem sabe o que pensa do líder do PCP que, a par do Bloco de Esquerda, chegou a acordo para apoiar um Governo do PS.

“Sei lá”, responde-lhe, enquanto pára diante de uma montra cheia de tachos, panelas e talheres. A amiga insiste: “Mas acha que vão fazer as coisas de forma diferente? Será que são iguais?” Aí, a resposta já é menos animada: “Eu acho que quem governa são os de lá de fora, não é quem está cá a dar a cara.”

Embora não haja, em cada esquina, uma conversa sobre o acordo inédito entre a esquerda, a política saiu de certa forma à rua. Na pastelaria Versailles, o empregado conta: “Todos os dias se fala disto aqui. Está tudo à espera do dia 11 [o dia a seguir às moções de rejeição serem votadas]. Costuma estar aí um grupo ao qual chamámos tertúlia sempre a falar disto. Não acho que vá mudar nada, mas, pronto, a esperança é a última a morrer, pode ser que façam melhor.”

No domingo à noite, na Avenida Almirante Reis, depois de se saber que o PS tinha aprovado por larga maioria o programa de Governo apoiado pelos comunistas e bloquistas, um senhor já bastante embriagado abre os braços e grita: “Quarta-feira, camaradas, um Governo comunista!”

Nesta segunda-feira, quando se começou a discutir o programa de Governo e na véspera de serem votadas as moções de rejeição, fomos novamente para a rua. Andámos de eléctrico, metro, autocarro. Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, dois alunos debatem a sua visão sobre como deve ser a sociedade.

Um deles explica que é de direita e que o dinheiro cumpre uma função: “Existe para diferenciar as pessoas que se esforçam mais e menos. É por isso que apoio uma política de direita.” O colega discorda e tem mesmo um sonho: construir uma cidade sem dinheiro, fundada na “abundância e na tecnologia”. Apesar de duvidar do sucesso da empreitada, o amigo garante-lhe que se, um dia, concorrer a eleições, vota nele.

No Campo Mártires de Pátria, há várias paredes pintadas com a frase: “Fartos do PSD/CDS a roubar velhos e emigrantes, Governo das esquerdas”. Ao passar em frente da inscrição, um senhor mostra-se entusiasmado: “Já devia ter sido há 40 anos.” Não diz o nome, só que tem mais de 70 anos, que trabalhou 42, que perdeu namoradas por causa da guerra, que lhe cortaram na reforma.

Não é o único com expectativas. José Coelho, 53 anos, tem uma oficina de restauro, também no Campo Mártires da Pátria e diante daquela inscrição. Trabalha de portas abertas, entre os candeeiros velhos que arranja. Já teve mais clientes, sofreu com a austeridade, com a crise. A mulher era secretária, ficou desempregada. Tem três filhos e o que o preocupa é o futuro deles. Por isso, diz: “Espero que haja uma mudança.” Mais: o que está a acontecer pode, pelo menos, alterar isto – a abstenção. Porquê? Porque mostrou às pessoas que não é sempre tudo igual, argumenta. “Mesmo que não seja uma grande mudança, se melhorar só um bocado já é uma grande diferença.”

Hélder Meireles está com o táxi estacionado no Rossio. Na rádio, dá o debate na Assembleia na República. O taxista, que votou PAN, admite que nunca ligou muito à política, mas agora está “mais interessado”. Neste caso não é por querer mudanças, pelo contrário: queria que o executivo de direita continuasse a governar. “Passos Coelho exagerou, mas fez o que tinha de ser feito.”

Ao final da tarde, depois de mais um dia de trabalho, várias pessoas entram no barco no Cais do Sodré. A maioria viaja sozinha, sem conhecidos para conversar. Na melhor das hipóteses, olham para o telemóvel, há um ou outro viajante de jornal na mão. Espreitam as notícias, é certo. Mas o barco segue em silêncio. De Lisboa para Cacilhas. E novamente em silêncio, de Cacilhas para Lisboa.