Duas “ilhas” do Porto preparam-se para receber universitários

Enquanto na ilha do Bairro Amarelo serão feitos 50 estúdios para estudantes, na ilha 874 surgirão residências para investigadores e professores visitantes do Instituto Politécnico do Porto

Na ilha do Bairro Amarelo, as casas estão em adiantado estado de degradação
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Na ilha do Bairro Amarelo, as casas estão em adiantado estado de degradação Renato Cruz Santos

Duas “ilhas” privadas do Porto estão em vias de se transformar em residências para estudantes. Situadas no centro da cidade, os dois espaços pertencem, respectivamente, à Santa Casa da Misericórdia de Lamego e ao Instituto Politécnico do Porto (IPP). No primeiro caso, o da Ilha do Bairro Amarelo, está previsto um projecto que se irá articular com um outro, da Câmara do Porto, de reabilitação de uma ilha municipal instalada nas proximidades.

A ilha do Bairro Amarelo chegou, pela última vez, aos jornais em Abril do ano passado, depois de uma vistoria ao local ter confirmado o avançado estado de degradação das casas exíguas, ainda que não fosse identificado um “perigo iminente” para os três moradores que, na altura, ainda ali residiam. António Tavares, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto – que, dada a sua proximidade com a ilha, assumiu a gestão do processo em nome da sua congénere de Lamego – chegou a indicar, nessa altura, que o futuro da ilha passaria pela instalação no local de um parque de estacionamento, mas o projecto mudou.

Marques Luís, provedor da Santa Casa de Lamego, disse ao PÚBLICO que já está a ser desenhado um projecto para que a ilha seja transformada num espaço de acolhimento de estudantes universitários. A maior parte das construções devem ser arrasadas, para darem lugar a cerca de 50 estúdios T0, sendo ainda criada uma zona de uso comum, com uma lavandaria, uma cafetaria e uma área de estudo. “O projecto será desenvolvido em parceria com a Santa Casa da Misericórdia do Porto, que está instalada na cidade, e contamos tê-lo aprovado no ano que vem, uma vez que já existe um parecer positivo, do departamento do Urbanismo da Câmara do Porto. Esperamos lançar a obra ainda durante o próximo ano”, afirmou.

O investimento previsto ronda 1,5 milhões de euros e a Misericórdia deverá candidatar o projecto a instrumentos de financiamento nacionais. Marques Luís explica que a nova vida para a ilha do Bairro Amarelo foi sugerida pelo vereador da Habitação da Câmara do Porto, Manuel Pizarro, com o objectivo de poder articular este projecto com um outro que a autarquia está a preparar para uma ilha camarária junto à que pertence à Santa Casa da Misericórdia de Lamego.

Ao PÚBLICO, Pizarro confirma que o processo da ilha camarária da Rua do Bonjardim, completamente desabitada, está já em andamento. “A câmara está a preparar um programa global de intervenção nas ilhas, mas há projectos pontuais que queremos desenvolver de forma mais rápida e que são muito importantes porque exemplificam o que pretendemos, junto dos proprietários das ilhas privadas”, explica, confirmando que este é um deles.

O vereador diz esperar que a reabilitação desta pequena ilha, com menos de dez habitações, possa avançar “ainda em 2017”, destinando-se ao mercado da “renda apoiada”. O objectivo da câmara e da Santa Casa é que haja uma ligação efectiva e física entre as duas ilhas, com uma ligação pedonal entre ambas e a possibilidade de acesso, aos dois espaços, tanto pela Rua do Bonjardim (entrada da ilha camarária) como pela Rua do Dr. João das Regras (morada da ilha do Bairro Amarelo). “É uma combinação virtuosa, que permitirá a ligação dos universitários com as famílias que venham a residir no espaço municipal. É um bom exemplo da cidade que almejamos, com mais pontes”, defende Manuel Pizarro.

Em paralelo a estas intervenções, que ainda não saíram do papel, o IPP está também a desenvolver um projecto que prevê o aproveitamento de uma ilha em ruínas para acolhimento de estudantes estrangeiros ou investigadores. A ilha 874, como é designada pelo instituto, foi encontrada nas traseiras de três edifícios na Rua de D. João IV, também propriedade do IPP, e que estão já a ser reconvertidos em residência destinada a acolher, sobretudo, investigadores e professores visitantes do IPP, bem como estudantes “não regulares” que frequentem temporariamente o estabelecimento de ensino superior.

A 10 de Julho, o IPP já celebrou a escritura de compra e venda da ilha e o projecto está agora ser desenvolvido, explicou ao PÚBLICO fonte a presidente do IPP, Rosário Gambôa. “O programa preliminar está feito e estamos agora a desenvolver o projecto”, explica a responsável. A vontade do IPP é preservar parte da estrutura da antiga ilha, adaptando-a a construções novas. O projecto deverá estar pronto “em Janeiro de 2017” e o investimento previsto é de 1,2 milhões de euros, acrescenta.

Rosário Gambôa diz que esta antiga ilha que agora pertence ao IPP é “uma coisa muito preciosa e muito bonita” e garante que a nova postura da Câmara do Porto, voltada para a preservação das ilhas, influenciou a vontade do instituto em avançar por aqui. “Encontramos na câmara algum acolhimento e quando há uma movimentação conjunta, de diferentes actores a remarem para o mesmo lado é sempre um estímulo”, diz.

Morador ainda vive na ilha sem condições
Um dos três últimos moradores da ilha do Bairro Amarelo ainda lá reside, confirmou ao PÚBLICO o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lamego. Apesar de reconhecer que a ilha está “extremamente degradada” e “não reúne condições” para acolher moradores, Marques Luís explica que ainda há uma pessoa a habitar no local. O realojamento deverá ser assegurado pela Câmara do Porto, diz, no âmbito do processo de reabilitação que deverá avançar no próximo ano.