Entrevista

“A única forma de combater a pirataria é dar às pessoas melhores opções”

Ted Sarandos está em Portugal para o lançamento do Netflix. Responsável pelos conteúdos, o norte-americano admite que o catálogo português ainda é limitado. “Daqui a um ano será duas vezes maior”, diz, sem descartar produções portuguesas.

Ted Sarandos no call center do Netflix em Lisboa
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Ted Sarandos no call center do Netflix em Lisboa Daniel Rocha

Uma arma contra a pirataria, uma espécie de balão de oxigénio na indústria do entretenimento. O Netflix chega a Portugal numa altura em que aposta cada vez mais em produções próprias. Começou pelas séries televisivas e agora dirige-se também ao cinema. Os Óscares estão na mira, diz Ted Sarandos, director de conteúdos do Netflix. É do norte-americano, braço direito do CEO Reed Hastings, a responsabilidade de compor a programação do serviço de streaming de séries e filmes. É ele que escolhe que títulos comprar e em que projectos apostar.

Dia um para a Netflix em Portugal. Quais são as expectativas?
O primeiro dia num novo país é sempre muito entusiasmante. As pessoas estão a acordar e a descobrir coisas a que até aí não tinham acesso. É interessante para nós também, porque passamos cerca de um ano a estudar cada um dos mercados – as receitas de bilheteiras, audiências, pirataria –, para percebermos o que as pessoas querem ver em cada país. O que lançamos é uma amostra do que teremos nos próximos anos – a partir daqui vamos acrescentando conteúdo todos os dias. É uma coisa estranha que a pior altura para o conteúdo seja o primeiro dia do negócio. Mas, todos os dias, literalmente, vamos acrescentando programação, para ficarmos sintonizados com aquilo que a audiência local vê. Se forem mais filmes do que séries de televisão, então compraremos mais filmes. Se for mais local do que internacional, então compraremos mais conteúdos locais. Tentamos que a programação vá ao encontro dos gostos individuais dos países. Dito isto, o que tem acontecido na maioria dos países, em termos de consumo, é 80% de conteúdos internacionais e cerca de 20% de local. Isso acontece, porque as pessoas procuram no Netflix o que não conseguiram ver no seu país, incluindo as nossas séries originais.

De que conteúdos locais falamos?
Estando em tantos países actualmente, é interessante verificar que há público para conteúdos em português em todo o mundo. O Brasil é um mercado interessante, mas há uma imensidão de pessoas que falam português em todo o mundo. Além disso, hoje, com a tecnologia na legendagem e dobragem, o conteúdo viaja em qualquer língua.

Mas já há algum projecto português em cima da mesa?
Ainda não. Hoje é só o primeiro dia, mas estamos certamente atentos.

Como é que funciona? Recebem propostas, fazem propostas?
Temos uma equipa em contacto com produções locais à procura de projectos. É também muito activa em festivais de cinema e televisão. Não existe propriamente um processo de submissão.

Há alguma meta definida para o mercado português?
A nossa presença internacional está a crescer e esperamos dentro de um ano existir a uma escala global. Nos Estados Unidos, levou-nos sete anos a conseguir um terço das casas com banda larga. Por isso, gostaríamos de ter nos próximos sete anos um terço de todas as casas, incluindo as de Portugal.

Em Portugal o catálogo será menor do que nos Estados Unidos. O que podemos esperar?
Isso é porque somos novos cá. Daqui a um ano será duas vezes maior e será mais bem construído, de forma mais inteligente, porque será baseado naquilo que as pessoas viram em Portugal. É preciso ter em conta que o catálogo nos Estados Unidos é resultado de oito anos de crescimento. A partir de agora, teremos novos programas todos os dias. 

Há quem defenda que o streaming é a melhor forma de combater a pirataria. Concorda?
A 100%. Acho que a única forma de combater a pirataria é dar às pessoas melhores opções e o Netflix é uma grande opção – 7,99 euros é um bom preço para uma série de bons conteúdos que nunca foram distribuídos aqui. De outra forma, a única maneira de os ver seria pirateando. Por isso, o que queremos é oferecer opções legítimas para que as pessoas possam ver conteúdos com grande qualidade sem o risco de vírus e outras coisas. É a melhor escolha para a maioria das pessoas. Na Austrália, que tem um grande problema com a pirataria, estamos lá há sete meses e a pirataria caiu 25%. Temos assistido a isso vezes sem conta em mercados com altas taxas de pirataria (Noruega, Suécia, Canadá), onde sites como o BitTorrent têm sofrido uma queda no tráfego.

Mas mesmo assim, a indústria olha para o Netflix como uma ameaça…
O que se passa é que todo o negócio dos media está numa espécie de um boom. O comportamento do consumidor é diferente, não tem horários para seguir. É uma mudança tremenda na forma como as pessoas se comportam. As gerações mais novas do que a minha não querem saber as horas a que as coisas passam na televisão. Eles encontram-nas, carregam play e vêem. Às vezes nos telemóveis, outras vezes na televisão. A indústria está a tentar ajustar-se a esse comportamento. E nós temos sido em grande parte responsáveis. Talvez seja por isso que nos olhem de lado. Mas a coisa boa é que criámos uma tonelada de oportunidades. Eles fazem, produzem e distribuem programação e nós compramo-la. Isso é bom. No próximo ano, por exemplo, vamos gastar cerca de cinco mil milhões de dólares [4,4 mil milhões de euros] em programação.

E como é que se escolhem os conteúdos para o Netflix?
Antes de mais, é um trabalho de equipa. No que diz respeito às séries originais, como acontece num canal tradicional, temos as apresentações dos criadores das histórias e lemos argumentos. O que tentamos programar são séries que de outra forma seriam muito difíceis de serem feitas. O que distingue a Netflix é o conteúdo único como Orange Is The New Black. Um canal tradicional nunca tocaria numa série como esta, em particular nos Estados Unidos. Na altura, não tínhamos grandes estrelas, o elenco é principalmente feminino, os mais diversos tipos, cores, orientações sexuais. É uma série que toca em todas as fronteiras da diversidade que se possam imaginar.

A Netlix arrisca fazer o que os canais não arriscam?
Sim, tanto a nível criativo como no compromisso com as histórias. Não fazemos episódios- piloto para as séries. Se dizemos que sim a uma série, fazemos logo a temporada toda. É um risco para o negócio também, mas acredito na capacidade dos argumentistas, acredito que a liberdade de criação para mais do que um episódio faz uma melhor série. Até agora tem corrido muito bem. Já conseguimos nomeações para os Emmy, dois dos nossos filmes [documentários] foram nomeados para os Óscares nos últimos dois anos. E temos agora 22 programas em produção.

A Netflix começou a apostar em filmes. Beasts of no Nation foi o primeiro filme. Em 2016 haverá mais do que isso?
Sim, temos seis filmes quase prontos para serem lançados no próximo ano.

Qual é o core business da empresa? Séries ou filmes?
Historicamente tem sido a televisão. Cerca de 70% de todo o conteúdo que é visto no Netflix em todo o mundo são séries de televisão e 30% são filmes. A razão por que estamos a fazer filmes originais é porque a forma como os filmes são distribuídos está muito longe do modo como as pessoas os vêem. Se um filme vai para o cinema, é preciso esperar meses, às vezes até um ano, para o vermos em serviços como o Netflix. E a verdade é que as pessoas esquecem-se. Quanto mais fazes a tua vida on-demand, menos sentido faz ter de esperar um ano para ver um filme. É por isso que a pirataria cresce. Outra coisa que está a acontecer é que os filmes são cada vez mais feitos para funcionar nos Estados Unidos e na China – e para isso é preciso reduzir os diálogos, o número de personagens e ter muita acção. Filmes como Beasts of no Nation são muito difíceis de se fazer hoje. Estamos a tentar dizer que os nossos filmes não têm de funcionar nos Estados Unidos e na China, mas em todo o mundo. Não são grandes espectáculos de efeitos especiais, mas na semana em que Beasts of no Nation chegou ao Netflix foi o filme mais visto em todos os países onde temos o serviço. Nunca tinha acontecido.

O que é que aconteceu agora com o filme nos Estados Unidos?
Lançámos Beasts of no Nation para as salas e só chegou a um par de cinemas, porque a maioria preferiu boicotar o filme. Mas tudo bem, considerando que 42 milhões de pessoas podem vê-lo em casa. É bom que qualquer pessoa possa ver o filme.

Depois dos Emmy e dos Globos de Ouro teremos o Netflix nas categorias principais dos Óscares?
Espero que sim. Idris Elba é apontado como um dos candidatos para melhor actor secundário, o que seria maravilhoso, se acontecesse. Abraham Attah, o jovem actor que faz de Agu no filme, recebeu o prémio revelação no Festival de Veneza, o que é muito prestigiante. Acho que Cary Joji Fukunaga é actualmente um dos melhores realizadores a trabalhar, tem uma visão singular. Neste filme, ele não só realizou como escreveu o argumento e assinou a fotografia. Espero que seja reconhecido dessa forma. É um grande filme e já pode ser visto em Portugal.

Mas é assim tão fácil mudar mentalidades? Quando falamos dos Óscares, falamos de uma organização com uma longa história, bastante conservadora…
Espero bem. Nos últimos dois anos, tivemos dois filmes nomeados, dois documentários (The Square e Virunga). Este ano temos What Happened, Miss Simone? e Winter on Fire, que esperamos que também se destaquem. Acho que o significado de cinema, o que é cinema, vai ser o debate para os próximos anos. São os espaços onde vemos os filmes que fazem o cinema ou é este a arte das imagens em movimento e a forma como contamos a história? A maioria vê filmes em casa. Mesmo a maioria dos membros da Academia que vota nos Óscares vê os filmes em DVD. Já o público vê em casa na televisão. Há uma fracção da população que vai ao cinema e isso é uma forma óptima e legítima – é uma coisa boa as pessoas juntarem-se e irem ao cinema, mas é uma experiência diferente daquela que a maioria tem. Adoro ir ao cinema, mas a verdade é que vejo a maioria dos filmes em casa. Atenção, uma coisa não elimina a outra. Não é por cozinharmos em casa que não vamos a restaurantes. A questão aqui é a discussão. Dizerem-nos que a melhor forma de vermos isto é esta ou aquela. A melhor forma de ver arte é numa bonita instalação numa galeria, mas fico feliz por essa não ser a única forma de olhar para a arte.

Porque é que hoje há mais adaptações do que conteúdo original? É uma questão de dinheiro?
Há muito risco agora. Os filmes para poderem ser internacionais têm de ser grandes e, por isso, são mais caros. O nível de risco é muito alto e então as pessoas não seguem novas ideias, procuram antes o que vai funcionar porque já funcionou no passado. Beasts of no Nation é uma adaptação de um livro, mas é um filme completamente original.

Uma das apostas do Netflix é em séries da Marvel, já tem cinco. Porquê?
Daredevil é um bom exemplo de uma forma muito diferente de se contar uma história de um super-herói, tal como Jessica Jones, que tem uma personagem muito complicada, muito sombria. Não são personagens unidimensionais, com capas e coisas do género. São personagens tridimensionais, muito complicados e feridos de várias formas, é uma espécie de apresentação negra de um herói e um anti-herói. Não são as histórias habituais que vemos. Além disso, as pessoas adoram a Marvel.

Isso dá responsabilidade à Netflix, tendo em conta a legião de fãs da Marvel?
Posso dizer, por exemplo, que os Defenders são um compromisso de mil milhões de dólares (880 mil euros). Estamos comprometidos a fazer cinco temporadas sem sequer termos feito um episódio-piloto.

Por que é que não revelam números?
As audiências foram feitas só para uma coisa: justificar a venda de publicidade. E nós não vendemos publicidade e, por isso, não há razão nenhuma para isso. Qualquer motivo para lá disso é trivial. Mas sim, os media gostam de referir números; os números, todavia, não afectam o nosso negócio, de todo. Se todos vissem Daredevil ou Orange is the New Black não mudaria dramaticamente o nosso negócio. Por isso, se querem julgar como é que a nossa programação funciona, olhem para o nosso número de subscritores. Se os nossos subscritores estão contentes com a programação que temos, vamos mantê-los e procurar novos. Se não estão a gostar, então estamos a gastar dinheiro mal gasto. Nós não temos publicidade e por isso quem paga os conteúdos são os subscritores, que decidem todos os dias. Nós somos pagos pelo consumidor, que, se não estiver contente, pode desistir, basta um clique e deixa o Netflix. Isso põe a fasquia muito alta.