A empresa que está a construir a sua sede com pneus e latas usadas

O projecto Utopia levou à construção de um edifício ecológico num meio rural.

DR
Foto
DR

O projecto Utopia é o sonho da Plako, uma empresa de desenvolvimento de software que decidiu criar o seu próprio local de trabalho através de técnicas sustentáveis e amigas do ambiente. Foram reutilizados cerca de dois mil pneus para fazer as paredes e estão agora a ser aplicadas 11 mil latas como caixa-de-ar, por entre os espaços dos pneus. “O principal objectivo é mostrar que não é preciso ser-se uma grande empresa para optar por um projecto destes”, refere o gerente da Plako, Moisés Campos, acrescentando que a obra deverá estar concluída no final do primeiro trimestre de 2016.

A ideia surgiu em 2010: na altura, a Plako estava sediada no centro da cidade de Braga. O gerente conta que, num dia de calor, decidiram abrir a janela e só conseguiam sentir o cheiro a escape, o som de carros e de buzinas. Fecharam a janela e ligaram o ar condicionado. Foi aí que se aperceberam da necessidade de mudarem de sítio e de procurar uma solução mais viável. Enquanto o projecto Utopia não se encontrava finalizado, mudaram-se para uma incubadora de empresas em Ferreiros – uma aldeia com pouco mais de 300 habitantes – e sentiram logo a diferença. “Nota-se uma mentalidade diferente, vê-se gente a ler livros à sombra de árvores e os trabalhadores estão mais calmos”, confidencia Moisés Campos, seguro de que “o contacto com o meio ambiente é positivo para a empresa”.

“No fundo, o objectivo foi encontrar um sítio para a empresa com o menor impacte ambiental possível”, explica o gerente da Plako. E encontraram-no. Um terreno com um hectare, na Póvoa de Lanhoso, circundado por um ribeiro e localizado a 300 metros do Rio Cávado, onde já começaram a construir o edifício de 250 metros quadrados.

O primeiro pneu foi lançado em Maio de 2014 e o investimento para este projecto ronda os 230 mil euros, sendo que o financiamento é feito pela banca e só o processo de licenciamento durou quase 2 anos. “O facto de ser construído com materiais reutilizados não fica mais barato pois o custo maior é o de mão-de-obra e cada pneu demora 15 minutos a ser colocado”, explica ao PÚBLICO Moisés Campos. Para recolher as latas, fizeram uma campanha de angariação junto da comunidade e de 40 restaurantes e cafés do município de Póvoa de Lanhoso e os pneus foram conseguidos junto da Valorpneu e da Braval. A mesma fonte refere que existe grande sensibilização para a reciclagem mas, muitas vezes, esquece-se o valor do processo de reutilização, preferível por não consumir energia.

A reutilização de pneus traduz-se numa redução de 70% das emissões de carbono e o conceito de “nave terrestre”, isto é, uma casa ecológica construída a partir de materiais reutilizados, foi cunhado por Michael Reynolds, um eco-arquitecto norte-americano. No entanto, este projecto traz algumas novidades: já existe no local uma estufa onde estão a ser criados legumes para consumo na cantina da empresa e haverá um coberto vegetal no topo do edifício. Para se adaptar melhor ao clima húmido do norte do país, o edifício ficará suspenso através de 34 pilares que facilitam a circulação do ar e melhoram a eficiência energética das instalações.

A empresa pretende mostrar que uma companhia de cariz tecnológico pode mudar-se do centro urbano para o meio rural sem que isso a impossibilite de crescer, aliando o “conceito de impacto zero para o ambiente”. “É claro que não conseguimos que seja um projecto 100% sustentável mas lutamos por isso”, conclui Moisés Campos. 

Texto editado por Ana Fernandes