Marisa Matias: já tem uma aldeia e o mundo dentro dela, agora quer Belém

Aos 39 anos, já fez tudo, de limpezas a investigação. Apesar de viajar muito, a eurodeputada Marisa Matias, que acaba de entrar na corrida à Presidência com o apoio do BE, tem as raízes em Alcouce, uma pequena aldeia no distrito de Coimbra. Foi a primeira da família a licenciar-se.

"m resgate que é preciso fazer é o da democracia e o da política."
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"m resgate que é preciso fazer é o da democracia e o da política." João Cordeiro

Teve uma “infância feliz”, mesmo caminhando cerca de cinco quilómetros para ir e vir da escola, mesmo sem televisão em casa, mesmo tendo de ir buscar água para cozinhar ou tomar banho. No fim das aulas, perdia-se em leituras e perdia também algumas das cabras que tinha de guardar. A mãe e a avó iam procurá-las à noite. Nessa aldeia, vivia um comunista, chamava-se Álvaro Febra, e aquelas narrativas sobre a clandestinidade foram as primeiras lições de política que teve.  

As histórias foram recordadas pela eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias, numa conversa com o líder do Podemos, Pablo Iglesias. Nessa altura, em Abril – quando ainda não se sabia que seria candidata a Belém e apoiada pelo BE –, contou ainda que foi por causa do livro Pela mão de Alice, do sociólogo Boaventura de Sousa Santos, que acabou por estudar sociologia.

Aquele académico, de quem é amiga, foi uma das pessoas que mais a influenciou. Assim como João Arriscado Nunes, que a orientou no doutoramento, e com quem trabalhou durante 10 anos de investigação. Também conhece bem, de “muitas lutas e praças”, Alexis Tsipras, ainda antes de ser primeiro-ministro grego. Uma “boa pessoa”, garantiu nessa conversa com Pablo Iglesias.

Marisa Matias, 39 anos, foi a primeira da família a licenciar-se. Os pais, que vivem em Alcouce, a tal pequena aldeia de Condeixa-a-Nova, no distrito de Coimbra, têm apenas a quarta classe. Com um orçamento familiar curto, começou a trabalhar aos 16 anos para pagar os estudos e, até ao fim, foi sempre trabalhadora-estudante.

Fez limpezas, serviu em bares, cafés, foi secretária da Revista Crítica de Ciências Sociais, ligada ao Centro de Estudos Sociais (dirigido e fundado por Boaventura de Sousa Santos), onde acabaria por ser investigadora. Deu aulas nas áreas da sociologia e da cidadania no ensino profissional. Hoje a investigação está suspensa – Marisa Matias está em exclusividade no cargo de eurodeputada, que ocupa desde 2009.

Nasceu em Coimbra a 20 de Fevereiro de 1976. Até aos 22 anos, quando acabou a licenciatura em Sociologia na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (UC), viveu em Alcouce com a família. Do 5.º ao 9.º ano estudou em Condeixa-a-Nova; a partir de 10.º e até ao doutoramento, os estudos foram em Coimbra.

Durante a licenciatura, participou na refundação do núcleo de estudantes, do qual chegou a ser vice-presidente. Também se empenhou nas lutas contra as propinas, já antes no liceu tinha feito greves de zelo por causa da Prova Geral de Acesso.

O doutoramento, em saúde ambiental e movimentos ambientalistas, também foi na Faculdade de Economia da UC. Como investigadora, as suas áreas de interesse incluíam as relações entre ambiente e saúde pública, democracia e cidadania, entre outras.

Actualmente, além de vice-presidente da Esquerda Europeia, é presidente da Delegação para as Relações com os Países do Maxereque; vice-presidente da Comissão Especial sobre as Decisões Fiscais Antecipadas e Outras Medidas de Natureza ou Efeitos Similares; entre outras funções que desempenha enquanto eurodeputada.

Anda por toda a Europa. O trabalho leva-a ainda várias vezes até ao Líbano, à Síria, à Jordânia, ao Egipto. Antes, enquanto investigadora, já tinha andado pelos Estados Unidos, pelo Brasil, pela África do Sul. Mas, neste momento, as cidades centrais da vida de Marisa Matias são Bruxelas, Estrasburgo, Lisboa e, claro, Coimbra, onde vive o marido e onde chegou a concorrer à Câmara Municipal, em 2005.

Em 2011, Marisa Matias foi eleita por voto secreto eurodeputada do ano na área da saúde pelo trabalho que fez na directiva do combate aos medicamentos falsificados, como relatora da estratégia europeia de combate ao Alzheimer e ainda por ter fundado o Intergrupo da diabetes.

Antes deste percurso e de se juntar ao BE em 2004, foi dirigente e vice-presidente da Pró-Urbe, Associação Cívica de Coimbra e esteve envolvida em vários movimentos, como o Juntos pela Cultura, o de luta contra a co-incineração ou a Não Te Prives. Ou seja, cultura, ambiente, direitos sexuais. Feminista, Marisa Matias tem-se destacado ainda, já como eurodeputada, pela defesa dos direitos dos refugiados e também dos activistas presos em Angola.