Com o Inverno à porta, milhares desesperam nas fronteiras dos Balcãs

Eslovénia anunciou limites ao número de entradas diárias de refugiados. Na Alemanha, a falta de alojamentos obriga autoridades a erguer acampamentos

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Cerca de cinco mil pessoas continuam a atravessar todos os dias a fronteira para a Macedónia ROBERT ATANASOVSKI/AFP

O Inverno aproxima-se a passos largos e, das águas agora frias do Egeu às cidades da Alemanha com que quase todos sonham, torna-se mais difícil a vida dos refugiados e mais complexa a tarefa de encontrar abrigos quentes e secos para todos. Nas fronteiras dos Balcãs, milhares esperam e desesperam por autorização para passar à etapa seguinte da viagem.

Berkasovo, na fronteira entre a Sérvia e a Croácia, era na manhã deste domingo a imagem do congestionamento temido pelas agências humanitárias. Centenas de pessoas tinham passado a noite dentro de 40 autocarros estacionados a um quilómetro da vedação, esperando autorização para entrar em território croata. “Estamos aqui há 20 horas, precisamos de água, comida. Há aqui mulheres e bebés”, indignava-se o condutor de um dos autocarros ouvido pela Reuters.

A Hungria fechou as suas portas aos refugiados, obrigados agora a contornar o país e a atravessar ainda mais fronteiras para chegar à Alemanha, o destino ambicionado pela maioria. E, como num dominó, cada limitação ou obstáculo logístico imposto por um dos países desta rota cria inevitavelmente dificuldades a montante.

A Eslovénia abriu a sua fronteira aos refugiados no sábado, mas depois de ter recebido três mil pessoas em apenas 24 horas anunciou que não está em condições de receber mais do que 2500 por dia e recusou a entrada no país de um comboio vindo da Croácia com 1800 pessoas, adianta a AFP. “Não podemos receber um número ilimitado se sabemos que eles não podem continuar a viagem”, disse o ministro do Interior esloveno, Bostjan Sefic, ao explicar que a Áustria comunicou que só vai receber 1500 pessoas por dia.

O problema é que o ritmo de chegadas por mar à Grécia não dá sinais de abrandar apesar das condições meteorológicas cada vez mais difíceis – ainda neste domingo, dois naufrágios no mar Egeu provocaram a morte de cinco pessoas, três das quais crianças. E cerca de cinco mil pessoas continuam a atravessar todos os dias a fronteira para a Macedónia, um número semelhante às que depois se apresentam depois nas entradas da Sérvia e da Croácia.

O primeiro-ministro croata, Zoran Milanovic, garantiu que tem “a situação sob controlo” e encara o encerramento da sua fronteira com a Sérvia como “a última das últimas opções”. Mas a imprensa local noticiou que o ritmo de entradas no país abrandou significativamente em relação ao dia anterior.

E não é só nos Balcãs que o Inverno paira como uma ameaça. O jornal alemão Die Welt noticiou que há 42 mil refugiados que estão a viver em tendas no país, sendo cada vez maiores as dificuldades das autoridades locais para encontrar alojamento para todos os recém-chegados.

Pavilhões desportivos, antigos quartéis e escolas foram transformados em centros de acolhimento, mas em várias cidades mesmo essa solução de emergência está esgotada e foi preciso montar acampamentos, como o de Celle, uma pequena cidade no Norte do país que a Reuters visitou. A autarquia está a gastar quatro mil euros por dia em aquecimento, mas as tendas são finas demais para as baixas temperaturas e os refugiados queixam-se do frio.

O Governo insiste que a crise é gerível, repetindo vezes sem conta o mantra “conseguimos fazer isto”, mas a pressão da opinião pública acumula-se. Uma nova sondagem indica que os democratas-cristãos da chanceler Angela Merkel caíram mais um ponto percentual na última semana, para os 37%. Neste ambiente, as atenções viram-se de novo para o PEGIDA, o movimento islamofóbico que voltou a ganhar fôlego com a crise dos refugiados. Nesta segunda-feira planeia assinalar o seu primeiro aniversário com uma grande concentração em Dresden.

Merkel esteve neste domingo na Turquia e, numa nova tentativa para convencer Ancara a aceitar o “plano de acção” conjunta para controlar o fluxo migratório, disse estar disposta a apoiar o início, ainda este ano, de um novo capítulo das negociações de adesão do país à UE, actualmente bloqueadas. Propôs também acelerar as discussões para facilitar a concessão de vistos a cidadãos turcos, na condição de que Ancara se comprometa a assinar os acordos para o rápido repatriamento de quem não conseguir asilo na Europa. O primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, afirmou que foram feitos progressos em relação à cimeira da semana passada, mas insistiu que “há ainda questões por resolver”.

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