Torne-se perito Entrevista

"Só podemos fotografar aquilo que amamos ou odiamos muito"

Paulo Nozolino passou o arquivo de uma ponta a outra à procura de imagens de mulheres. O resultado é Make do, 20 fotografias de mulheres que podem ser vistas na Galeria Quadrado Azul, em Lisboa, até 24 de Dezembro.

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M., Lisboa, 1978 Paulo Nozolino
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C., Estoril, 1974 Paulo Nozolino
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S., Londres, 1977 Paulo Nozolino
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P., Tânger, 1983 Paulo Nozolino
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Y., Londres, 1977 Paulo Nozolino
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A., Berlim, 2013 Paulo Nozolino
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A., Nápoles, 2013 Paulo Nozolino

Volta e meia, Paulo Nozolino tira um fotograma do bolso da camisa. Manuseia-o sem excessivo cuidado. Ergue-o no ar e fala dele como se fosse a coisa mais importante do mundo. Depois de vermos as fotografias que escolheu para Make do, a exposição que acaba de ser inaugurada na Galeria Quadrado Azul, em Lisboa, percebemos porquê. O formato das provas positivas é exactamente igual ao negativo, à matriz. E para chegar ao seu conteúdo é preciso concentração e tempo. É preciso fixar o olhar a um palmo do vidro da moldura para se conseguir ver efectivamente o que lá se mostra: mulheres.

O formato das imagens é novo no percurso expositivo de Nozolino e a forma como chegou até às 20 fotografias de Make do (expressão inglesa quer dizer algo como “faz alguma coisa com aquilo que tens”) também – durante meses percorreu todo o seu arquivo exclusivamente à procura do corpo feminino, tarefa a que nunca se tinha dedicado, pelo menos com um propósito tão definido. Mas o que mais surpreende nesta exposição é a guinada que quis dar em relação aos últimos trabalhos que tem apresentado, quer em livros, quer em exposições (de enorme carga emotiva, mais sombrios). Mais do que um gesto repentino para se desviar de um obstáculo, esta guinada parece nascer de uma vontade muito genuína de simplesmente percorrer outros caminhos, de procurar o belo, o sensual e o delicado, em vez da ruína, o fim ou a desintegração. As imagens que dão forma a Make do (até 24 de Dezembro) parecem funcionar como oxigénio para alguém que está a nadar há muito tempo em direcção à tona.

Nas quatro paredes pintadas num tom avermelhado estão fotografias de mulheres, mas está também o amadurecimento do olhar de um fotógrafo que se situa entre a inocência dos primeiros anos, no princípio da década de 1970, e a robustez incisiva que veio depois.

Para se encontrar algo parecido com as provas únicas que Paulo Nozolino escolheu para Make do, é preciso recuar até 1989, quando a galeria Ether – Vale Tudo menos Tirar Olhos (Lisboa) mostrou Kuan, 15 imagens que revelam a gravidez da mulher de então, o nascimento e o crescimento do filho. Não são fotografias nem mais nem menos íntimas (tudo é pessoal e íntimo em Nozolino), mas também procuravam mostrar algo que se aproximasse da alegria, do prazer e do belo. Conversa depois de um almoço inesquecível e do escadote andar às voltas na galeria para os últimos acertos na iluminação.

Porque é que decidiu olhar agora para o seu arquivo à procura da mulher?
A minha mulher tem estado doente. Comecei a pensar nela, no que tem passado. Decidi olhar para as mulheres na minha obra. Tudo o que está a acontecer à nossa volta, a merda em que estamos metidos, faz com que me apeteça tirar a cabeça das porcarias do mundo, de olhar para a beleza. Percebi que as mulheres sempre fizeram parte da minha fotografia, têm estado presentes na minha vida. Nunca fui sujeito das minhas fotografias, mas fotografei as mulheres com quem me relacionei. Pareceu-me uma boa altura para mostrar estas imagens. Especialmente depois da última exposição, que se chamava Gloom [melancolia], muito pesada, sobre algo que parecia sem saída, apeteceu-me fazer uma coisa mais alegre.

Foi uma procura purificadora?
Foi. E foi extraordinário perceber como o meu olhar evoluiu. Fiquei espantado como a inocência dos primeiros tempos se foi perdendo.

Na exposição nota-se essa divisão entre fotografias mais antigas e mais recentes, apesar de não estarem identificadas cronologicamente.
Sim, mas essa mudança de olhar acontece num tempo relativamente curto. A partir dos anos 1990, o meu olhar começa a ficar mais duro.

Esta selecção acaba por nos mostrar o amadurecimento de um fotógrafo.
Sim, começa com fotografias tiradas aos 20 anos e acaba com imagens tiradas na casa dos 50.

As primeiras fotografias parecem muito mais imediatas, enquanto as mais recentes dão a ideia de terem sido mais pensadas. É mesmo assim?
No início nem tinha um estilo, ou um olhar definido. Era muito à flor da pele.

Eram mais intuitivas?
Eram. Mas acho que as [fotografias] mais recentes também continuam a ter essa marca de intuição. Há uma fotografia de uma mulher com uma caveira que tem um lado menos imediato, mas todas as outras foram tiradas ao sabor dos amores e dos encontros.

Olha muito para o seu arquivo?
Ultimamente, sim. Com a idade, vamos fotografando menos, já vimos muitas coisas. Voltar ao arquivo significa descobrir como se via, sem saber que se via. E há surpresas agradáveis. Tudo isto traz também uma dose enorme de dor, porque revisitar provas de contacto é revisitar o passado. Relações que acabaram, pessoas que morreram, filhos que se abandonaram. É terrível. Só conseguia ver um ano por dia. Nestas provas há de tudo. Mas para esta exposição procurei fotografias íntimas de mulheres.

Sente hoje alguma saturação ao fotografar?
Não me sinto nada saturado. O que se vai tornando difícil é saber o que se quer dizer com as fotografias que se fazem. Nunca fui de fazer fotografia só para carregar no botão. Tem de significar alguma coisa, e, quando tenho alguma coisa para dizer, faço uma exposição e um livro. Ou faço só um livro. Às vezes, os dois coincidem, mas isso tem sido cada vez mais raro.

Está numa fase produtiva, com mais dois livros na calha.
Sim. Um deles tem só imagens minhas. É o terceiro tomo de uma trilogia que começa com Bone Lonely (2009), passa por Makulatur (2011) e que acabará com Loaded Shine. É o que resta de como comecei a ver o mundo depois da morte dos meus pais. Podíamos voltar às ruínas, ao que resta… andei a olhar mais para o chão, para o que está à altura dos joelhos, um pouco como os pobres, sempre à procura de moedas e de beatas. Essas coisas agora interessam-me mais. Antes interessava-me o recorte de um prédio no céu, uma nuvem, a linha do horizonte. Agora, interessa-me mais a sarjeta, o passeio e a parede que está cheia de humidade. É a patine que me interessa. E nestas imagens [de mulheres] também há essa patine. Não sei é se as pessoas a vão notar. Não é a mesma patine que está nas fotografias que faço habitualmente. Esta exposição é quase como se fosse um trabalho paralelo, uma lufada de ar fresco de que estava a precisar.

Há uma grande dose de sensualidade também.
Nitidamente. É uma homenagem à mulher e às mulheres que conheci, que mudaram a minha vida, que me deram filhos e grandes momentos de alegria. Aquelas que me despedaçaram o coração não fazem parte desta exposição.

Esta exposição revela momentos de intimidade. Inquieta-o que estas imagens possam ser vendidas a pessoas que desconhece?
Pois, esse lado comercial inquieta-me um pouco. Mas é natural, são as regras do jogo. O que é importante é que as mulheres destas fotografias estão contentíssimas por se verem nas paredes da galeria. A cumplicidade continua, a confiança que depositaram em mim quando se despiram e se deixaram fotografar também. O lado da venda é um pouco desconfortável. Até porque só existirá uma cópia de cada imagem no formato em que estão expostas. Não querendo ser arrogante, quase me apetecia escolher o comprador, gostava que esse comprador merecesse a imagem, mas isso não se controla.

É como se uma parte da sua vida ficasse no poder de outros?
É um bocado isso também. Já tive essa experiência quando fiz [a exposição e o livro] Kuan, onde mostro fotografias íntimas do meu filho. O problema não se colocou tanto na altura. Depois, quando fiz Makulatur, que mostra os meus pais antes de morrerem, também.

As provas de Make do são do tamanho do negativo. Nunca houve nada semelhante no seu passado expositivo. Quer explicar esta opção?
Estas impressões são como provas de contacto dos fotogramas. Estão à escala 1:1. Achei que era interessante voltar a mostrar às pessoas o que é a matriz da fotografia.

Mas acha que se perdeu a noção do tamanho de um negativo?  
Acho que as pessoas estão embriagadas com as fotografias grandes, coloridas. Esta exposição é uma maneira de contrariar isso e dizer: “Vamos voltar a olhar para o tamanho original das coisas.”

Fez o retoque destas impressões. Esse lado artesanal dá-lhe prazer?
Adoro. A câmara escura é parte mais importante do meu trabalho. A tomada de vistas é importante, mas o laboratório é o líquido amniótico, é como voltar à barriga da mãe, ao escuro, ao barulho dos líquidos, ver a imagem a aparecer no revelador. Significa também ouvir a música que queremos, com o telefone desligado, alheados do mundo, totalmente concentrados numa matriz, que é o negativo, e numa prova, à qual vamos poder dar variantes de tonalidades imensas. Para mim, a fotografia existe quando tem uma prova em papel. É por isso que tenho tanto horror ao digital. É tão imediato que não me desperta o mínimo interesse.

Mas isso não será nostalgia de uma maneira de estar na fotografia?
Não, de maneira nenhuma. Eu acho o digital fantástico para imensas coisas. E fez com que pudéssemos comprar todas aquelas câmaras analógicas que antigamente não era possível comprar e que agora estão a ser vendidas ao preço da chuva. É caso para dizer: “Deus abençoe o digital!”
   
Da primeira escolha para Make do ficaram 50 fotografias que depois foram reduzidas a 20. Quem olha para os seus livros e exposições percebe que não gosta da quantidade e que é minimal.
Tenho horror da repetição. As formas e os propósitos repetem-se. Já estamos massacrados por milhões de imagens por dia. O que me interessa é dar o essencial, o osso.

Acha que haverá surpresa com esta exposição?
Estou curioso para perceber o que as pessoas vão achar. Esta exposição é um bocado fora do baralho. Mas era mesmo isto que queria fazer.

Passou o arquivo todo de uma ponta à outra?   
Sim, desde 1973 até 2015. Mas, como disse, só aguentava ver um ano por dia e às vezes meio ano. Era doloroso e cansativo. Entretanto, fui descobrindo outras coisas. Há imagens que abrem caminhos novos para outras coisas, são coisas que fiz inconscientemente e que dão a ideia de que nessa altura ainda não tinha idade para as saber ver. E hoje já tenho.

Idade para saber ver?
É uma ideia do [Alexandre] O’Neill. Tem um poema muito bonito onde dizia: “E as ruas as ruas onde vi/O que ainda não sei ver.” Este bocado de poema ficou-me sempre na cabeça. Vemos e fotografamos coisas hoje que não nos dizem nada, mas daqui a 20 anos percebemos que está ali tudo. A passagem do tempo é necessária para compreender.

É organizado no arquivo?
Muito. Neuroticamente organizado.

E isso é importante para decidir o que vai fazer a seguir ou para saber em que pé está?
É. Se quiser um negativo específico no meu arquivo, encontro-o muito rapidamente. [Esse conhecimento] dá-me a certeza de que a estrada que escolhi está lá desde o princípio, uma coisa fundamental para a auto-estima. Quando revisito o arquivo, noto que as minhas preocupações iniciais são as exactamente as mesmas das de hoje. Isso faz com que não nos afastemos do caminho. O caminho está traçado. O que é preciso é percorrê-lo até ao fim.

Há pouca noção do tempo nestas fotografias. Tirando um ou outro pormenor, qualquer uma podia ser em qualquer altura.
Creio que a intemporalidade é uma das coisas que identificam a boa fotografia. Estas imagens têm apenas um tempo paras as pessoas que estão retratadas nelas, mas, se forem boas, tornam-se intemporais.

Gosta de fotografar mulheres?
É muito agradável. São seres maravilhosos e têm corpos maravilhosos. Estou numa idade em que acho todas as mulheres bonitas. Mas era incapaz de fotografar só mulheres. Ou ter a obrigação de as fotografar sempre belas.

E essa procura do belo na mulher pode tornar-se um problema? Isso condicionou-o de alguma maneira?
Não, porque sou um homem verdadeiramente livre. Não tenho obrigações para com ninguém. Estas fotografias foram feitas para o meu prazer, de uma forma muito egoísta. Sem a obrigação de agradar a um editor de uma revista. Não são encomendas, por isso não sinto esse peso.

É difícil fotografar mulheres?   
Tudo é difícil de fotografar. O mar, o céu, as árvores… Só podemos fotografar aquilo que amamos muito, o que compreendemos muito ou aquilo que odiamos muito. Tem de haver um sentimento muito forte. Não se pode fotografar de uma forma desabusada, blasé, diletante. Tem de haver uma motivação verdadeira. E estas fotografias foram feitas com um sentimento muito forte, porque sei que um dia vou perder estas mulheres. Fazer retrato ou fotografia de nu é muito cansativo, mais do que fotografia de rua.

Será por causa de jogar muito com a expectativa do outro?  
Em geral, as mulheres adoram ser fotografadas. Não sinto muito essa expectativa. Há sessões que duram dois minutos e outras duas horas. Mas à medida que as vou fotografando apercebo-me de que a pressão está mais em mim, porque a certa altura começo a perceber qual é a essência dessa pessoa. E eu quero chegar à essência, reduzir tudo ao mínimo.

Lembra-se de todas as fotografias?
Lembro-me muito bem. Mas essa pergunta não tem uma resposta simples. É difícil. E já não sei se me lembro do momento ou da fotografia do momento. Começa a ficar tudo misturado. É um pouco como quando olhamos para as fotografias de infância, quando tínhamos dois anos – já as vimos tantas vezes que parece que começamos a lembrar-nos de quem nos tirou a fotografia. Mas, na verdade, não podemos lembrar-nos.

Isso quer dizer que se lembra mais da fotografia do momento do que do momento.
Não é bem assim. Não vejo a realidade separada em momentos. Vejo-a como um contínuo. A vida não está dividida em fotogramas. O que se passa é que temos a possibilidade de apanhar alguns momentos desse contínuo.

Alguma destas sessões correu mal?
Nunca. Todas as fotografias desta exposição foram aprovadas pelas pessoas que estão nelas.

Voltemos ao arquivo. Esta foi a pesquisa mais longa que já fez à sua obra com o objectivo de isolar um tema?
Sim, nunca tinha feito uma pesquisa assim.

Há pouco falava em “descobertas” no arquivo. O que encontrou em concreto?
São fotografias avulsas que mostram exactamente aquilo que estou a sentir neste momento. É terrível descobrir como têm um lado premonitório. Ainda bem que descobri estas duas fotografias.

Mas essas “descobertas” são duas fotografias?
São! [risos] Às vezes, quando digo no plural, quero dizer no singular. Quem me conhece sabe disso. [risos]

As suas fotografias parecem lutar contra a geografia, contra as fronteiras, ou a noção de estar num sítio. Parece haver uma “transterritorialidade”. É uma interpretação certa?
É. Essas características estão relacionadas com uma preocupação de nómada, de viajante. E é muito anterior ao espaço Schengen. Estamos a viver [na Europa] uma situação alucinante erguendo fronteiras para não deixar passar refugiados. Estamos numa situação lamentável. Essa antipatia que sinto em relação à geografia está relacionada com a maneira como sinto o planeta, como um mundo onde as pessoas são iguais, todas amam e sofrem, todas têm dias bons e maus. Isto é um mundo, não são países, nem cidades, nem ruas, nem casas. Tive a sorte de percorrer o mundo, apercebi-me disto. Tenho um bocado horror àquela fotografia que segue protocolos do tipo longitudes e latitudes, que é feita para definir um local muito preciso. Tento trazer imagens evocativas dos lugares e não imagens que simplesmente documentem esses lugares. Quando me pediam imagens muito concisas sobre um tema, tentava sempre fugir desse lado para imagens mais subjectivas. A minha natureza é assim.

Livre?
Sim. E a fotografia ainda é um dos grandes espaços de liberdade que há. É muito maleável, mas lamentavelmente estão a tentar condicioná-la muito. Temos uma tecnologia tão avançada que nos esquecemos da criatividade e do critério. São tão bons os acidentes e as aquelas [fotografias] de que não se estava à espera. O poder descobrir coisas no negativo é maravilhoso. É a matriz de tudo. O negativo é o que podemos trazer da realidade num momento preciso – é este bocadinho de filme que estava dentro da máquina [tira um fotograma do bolso], este negativo de 24 por 36 milímetros. Isto é que é a realidade, algo de concreto. E foi sempre a isto que me agarrei. Sobretudo nos maus tempos de toxicomania e alcoolismo. [O negativo] foi a minha tábua de salvação, a minha jangada. Através dele via uma realidade que sabia que existia, que era palpável.

Lembra-se da última fotografia que tirou?
Lembro, mas não tem o mínimo interesse. É um cinzeiro, no Aeroporto de Orly, que acaba por ser uma metáfora perfeita do que é a Europa neste momento, que são aquelas jaulas que arranjam para fumadores. Fui fumar o último cigarro antes de apanhar o avião de Paris para Lisboa e acabei o rolo a fazer uma fotografia de um cinzeiro cheio de beatas.

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