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A Guerrilha da Agulha bordou as frases que nos indignaram

Exposição na Casa da Esquina, em Coimbra, mostra 30 frases que marcaram a vida política e social dos últimos quatro anos em Portugal. Foram bordadas em ponto cruz e mostram a indignação perante o que foi dito por políticos — mas não só

Estávamos em Fevereiro de 2012 quando Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro há sete meses, disse a frase “Os portugueses devem ser menos piegas”. No mesmo discurso, apelou ainda aos portugueses para serem “mais exigentes” e “menos complacentes”. As palavras não passaram despercebidas e as críticas não tardaram. A frase ficou marcada e é uma das 30 que compõem a exposição “À espera que chova”, patente na Casa da Esquina, em Coimbra.

Mas esta exposição não se limita a reunir frases que, ao longo dos últimos quatro anos, marcaram a vida social e política de Portugal. Foram bordadas em ponto cruz por elementos da Guerrilha da Agulha, em bastidores de madeira com cerca de 30 centímetros de diâmetro. “Os trabalhos reflectem a indignação e o espanto que o colectivo mostrou perante as frases”, explicou ao P3 Sandra Jorge, uma das fundadoras da Guerrilha. O “timing” da exposição — inaugurada duas semanas antes das eleições legislativas de 4 de Outubro próximo — não foi, certamente, coincidência.

Da lista de 30 frases fazem ainda parte mais duas de Pedro Passos Coelho. “Os portugueses andam a viver acima das suas possibilidades. É preciso empobrecer” e “O desemprego é uma oportunidade” estão, também, bordadas e penduradas na parede, a desafiar a memória (e a indignação) de quem visita a exposição. Há outras excertos mais insólitos de discursos do Presidente da República. “Ontem, reparava no sorriso das vacas que estavam satisfeitíssima, olhando para o pasto e verificando aquele que começa a ficar mais verdejante”, disse Cavaco Silva em 2011 em visita à ilha da Graciosa, nos Açores. Dois anos depois, numa outra visita a outras ilhas — as Selvagens —, Cavaco Silva comentou: “Abri a janela e a primeira coisa que vi foi uma osga pequenina, foi o primeiro animal que eu vi”.

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O convite para “À espera que chova” foi lançado aos membros do colectivo de artes manuais, que remotamente trabalharam nos bordados e os foram enviando para a Casa da Esquina. “A convocatória foi feita pela Internet, as frases foram sendo partilhadas num documento comum e depois bordadas”, contou Sandra, de 43 anos. Os cerca de 15 homens e mulheres que participaram são de todo o país, não se limitando a acção do colectivo à cidade onde foi criado. Assunção Esteves, José Sócrates ou Vítor Gaspar são outros dos nomes que figuram nos bordados.

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A Guerrilha da Agulha é um colectivo que promove artes manuais como o tricot, o crochet e a costura, criado em 2011. O objectivo é “tentar tirar as artes manuais do interior do espaço doméstico e levá-las para o espaço público, como forma de intervir na cidade, usando esta linguagem”. Vive na Casa da Esquina, em Coimbra, uma associação cultural “que vive do cruzamento de projectos e linguagens artísticas”.

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Em 2014, aquando do 40.º aniversário do 25 de Abril, o colectivo criou vários painéis gigantes em ponto cruz com frases icónicas da revolução. Já este ano, em Abril, os membros da Guerrilha transformaram pneus velhos em sofás, que circularam por vários espaços públicos de Coimbra.

A exposição “À espera que chova” pode ser visitada até 31 de Outubro, entre as 14h e as 19h, de terça a sexta-feira, na Casa da Esquina. A entrada é gratuita.

Artigo actualizado às 19h06 de 29 de Setembro de 2015