Quando Suzy foi Kelly

Durante um ano, Suzy Favor-Hamilton, uma das melhores fundistas norte-americanas, viveu a vida de uma acompanhante de luxo em Las Vegas, uma vida dupla provocada pela mistura de medicamentos para a depressão e a doença bipolar. A história já era conhecida e está agora contada em livro.

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Nos Mundiais de Edmonton em 2001, Suzy Hamilton não chegou ao fim da sua eliminatória Gary Hershorn/Reuters
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Numa corrida nos EUA em 2001 John GRESS/AFP
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A queda de Suzy Hamilton na final dos 1500m nos Jogos de Sydney 2000 Reuters
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Uma das imagens de Suzy/Kelly na agência de acompanhantes de luxo DR
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Suzy Hamilton na actualidade, à porta da sua casa DR

Disponível de dia e de noite, cabelo loiro e liso ao nível dos ombros, constituição atlética, sem tatuagens, piercing no umbigo, 600 dólares por 60 minutos, 1400 por três horas. Era este o anúncio de Kelly Lundy na Haley Heston’s Private Collection, uma agência de acompanhantes de luxo de Las Vegas. “Sou uma fanática por exercício físico, adoro fazer esqui, correr maratonas, andar de bicicleta, fazer caminhadas”, dizia Kelly no seu perfil, entre muitas outras coisas, um perfil ilustrado por fotos sensuais mas de rosto tapado. O que Kelly, a acompanhante de luxo, não revelava no seu perfil era a sua identidade “civil”: Kelly era Suzy Favor-Hamilton, que fora uma das melhores atletas dos EUA durante os anos 1990 e o princípio do século XXI.

A história de Suzy Favor-Hamilton foi tornada pública em 2012, mas só três anos depois é que a antiga atleta se sentiu à vontade para a contar com mais detalhe no livro Fast Girl: A Life Spent Running from Madness, lançado esta semana. Claro que o que chama é a parte em que uma atleta de alta competição se tornou em acompanhante de luxo, que não chegaram a ser vidas paralelas, porque uma aconteceu a seguir à outra. Eram duas personas, Suzy, a ex-atleta mediadora imobiliária e mãe de família, e Kelly, a prostituta, manifestação de uma desordem mental tardiamente diagnosticada e controlada. Suzy era bipolar.

Suzy Favor-Hamilton foi atleta de classe mundial no meio-fundo curto (800m e 1500m) e esteve presente em três edições dos Jogos Olímpicos (Barcelona 1992, Atlanta 1996 e Sydney 2000), mas nunca teve uma projecção internacional que correspondesse ao seu talento atlético. Foi quatro vezes campeã dos EUA, mas não conquistou qualquer medalha olímpica, nem em Mundiais de atletismo e tem apenas um segundo lugar nas Universíadas como principal resultado internacional. A verdade é que Suzy Favor-Hamilton não se sentia à vontade para competir. Mas ainda não sabia porquê.

Suzy chegou ao atletismo por influência de Dan, o irmão seis anos mais velho, que corria porque “adorava a velocidade e as descargas de adrenalina”. “Gostava da corrida porque era uma coisa pura, apenas eu e o meu corpo”. Mas esta actividade rapidamente se transformou numa fonte de ansiedade porque Suzy era muito melhor do que as outras raparigas que corriam com ela na escola, tanto que os treinadores a punham a trabalhar com os rapazes. “Ganhei a minha primeira prova a nível estatal no meu primeiro ano de liceu e fiquei de rastos. Agora tinha de ganhar todas. Se perdesse, sentia que estava a desiludir toda a gente.”

O contexto familiar de Suzy contribuía muito para a ansiedade. O irmão havia sido diagnosticado como bipolar após a morte da sua namorada, e tornou-se alcoólico. Suzy desenvolveu bulimia porque sentia que a (falta de) comida era a única coisa que podia controlar. Mas foi neste período que Suzy conheceu aquele que ainda hoje é o seu marido, Mark Hamilton, e a sua projecção atlética não parou de crescer. Já entre as melhores meio-fundistas dos EUA, Suzy garantiu uma vaga na equipa norte-americana para os Jogos de Barcelona.

A sua primeira participação olímpica seria um desastre, como as outras duas que se seguiram. Ficou-se pela primeira eliminatória dos 1500m, com um anónimo 11.º lugar. Suzy preferia não estar lá. “Não sentia que merecesse estar entre estas atletas de elite. Com uma volta e meia para o fim [de uma prova com pouco menos de quatro voltas], estava tensa e a viver o pesadelo de muitos atletas: sentia que estava a arrastar-me em areias movediças.” Quatro anos depois, em Atlanta, também não passou das eliminatórias dos 800m.

Mas em Sydney, já uma corredora experiente de 32 anos, era a grande favorita. Menos de um mês antes dos Jogos, tinha feito em Oslo a melhor marca do ano e aquele que iria ficar como seu recorde pessoal dos 1500m – 3m57,40s, um tempo ainda hoje de nível mundial que seria o sexto melhor já este ano, 2015, e que daria para ganhar sete das últimas dez finais olímpicas dos 1500m. Mas algo mais ocupava a sua cabeça nos Jogos australianos, o suicídio do irmão um ano antes.

A ansiedade tomou conta dela na final, onde também estava a portuguesa Carla Sacramento. Lançou-se para a frente da corrida assim que ouviu o tiro de partida e ficou na dianteira quase até ao fim o que, numa prova tão táctica e imprevisível como os 1500m nem sempre é boa ideia. Um pouco antes de entrar na recta da meta da última volta, a norte-americana começa a perder posições e, sem ninguém ao seu lado, cai. Suzy ainda se levantou e terminou a prova em último.

Mais tarde, confessou que tinha caído de propósito. “A respiração das outras atletas que vinham atrás de mim faziam-me sentir como se estivesse a ser caçada, como um animal. As minhas pernas ficaram mais pesadas e fui ultrapassada. Ia ficar em último na minha última corrida olímpica. Não ia haver ouro para o Mark, nem para o meu treinador, nem para os meus pais, nem pela memória do meu irmão. De coração partido, disse a mim própria para cair, e, então, caí.”

A carreira olímpica de Suzy acabou aqui, a carreira atlética ainda iria até 2004. Depois, retirou-se das pistas, tornou-se mediadora imobiliária e oradora motivacional. Em 2005, nasceu a sua filha, e Suzy sofreu de depressão pós-parto, que incluiu uma tentativa de suicídio e que tentou equilibrar com a ajuda de antidepressivos. Já não faltaria muito para se transformar em Kelly, a acompanhante de luxo.

Tudo começou numa viagem a Las Vegas com o marido, em 2011, para celebrar o 20.º aniversário de casamento. Suzy sugeriu, primeiro, que fizessem paraquedismo, depois que contratassem uma prostituta para uma noite a três. Ao contrário do que acontecia na pista, Suzy não se sentiu nervosa. “Ela deu-me a certeza que eu podia agradar a clientes mais do que ela me tinha agradado a mim […]. Disse ao Mark que tinha de fazer isto para ser feliz. E ele, de alguma forma, concordou.”

Aquilo que mais tarde seria entendido como uma manifestação de bipolaridade era, para já, relacionado com a depressão. “À medida que as coisas iam avançado em Las Vegas, assumi que o que a Suzy fazia era para fugir à depressão, que fora diagnosticada anos antes. Estava familiarizado com os sintomas e nunca me passou pela cabeça que fosse doença bipolar, apesar do que aconteceu ao irmão dela”, conta o marido Mark num artigo publicado no site Yahoo.

“Kelly” atendeu o seu primeiro cliente em Dezembro de 2011 e Suzy gostou. “Posso descrever a sensação como a de tomar ecstasy, mas ainda maior. Adorava sentir-me assim. Um alcoólico escolhe o álcool. Um toxicodependente escolhe drogas. O meu escape era o sexo. E, ainda por cima, sentia uma euforia que me fazia desligar de toda a minha vida. Era incrivelmente feliz. E tinha todo o dinheiro que queria”, conta a antiga atleta numa entrevista à Sports Illustrated. A carreira de “Kelly” não se limitava a algumas escapadas ocasionais a Las Vegas. Suzy procurava adaptar as duas vidas e, sempre que tinha algum compromisso fora de Madison, no estado de Wiscosin (onde vivia), “Kelly” também ia.

Claro que não demorou muito tempo até começar a ser reconhecida pelos seus clientes e isso também começou a fazer parte do jogo. A sua natureza competitiva reemergiu. “Como acompanhante, também queria ser a n.º 1. Fiquei obcecada com as minhas classificações no ‘Escort Review’”, conta Suzy, para quem esta era uma vida sem riscos, apenas de pura libertação e felicidade, em que as inibições iam sendo cada vez menores. “Comecei a expandir o tipo de coisas que estava disposta a fazer com os clientes, mas, quando forçar as fronteiras sexuais deixou de funcionar, comecei a dizer quem era. Adorava vê-los a ficarem excitados quando sabiam que eu era uma atleta olímpica famosa. Para mim não era nada arriscado. Tinha a certeza que nenhum deles me ia trair.”

Esta vida dupla durou cerca de um ano. No final de 2012, o site The Smoking Gun contou tudo, apresentando as fotos sem rosto que estavam nos anúncios e as avaliações dos clientes, todas, sem excepção, de satisfação total. Com a exposição pública, mas contra a sua vontade, Suzy “matou” “Kelly”, e procurou ajuda médica. Um mês depois, foi diagnosticada como bipolar e tudo começou a fazer sentido. “Quando foi feito o diagnóstico, deram-me uma lista de sintomas comuns e nenhum me soou tão familiar como este: maior apetite sexual. Não apenas este, mas também uma tendência para comportamentos sexuais de risco.”

A doença e os medicamentos para a depressão haviam transformado uma antiga atleta de elite numa prostituta de luxo. Agora, usa a sua notoriedade para tentar quebrar tabus que envolvem esta doença. Se não tivesse sido descoberta, Suzy Favor-Hamilton é a primeira a dizer que teria continuado a ser “Kelly”, a acompanhante de 600 dólares à hora, mas com um fim previsível para uma actividade que entendia não ter qualquer risco: “Não veria qualquer razão para abandonar aquele mundo. Alimentava-me. Tinha tudo o que andava à procura. Não teria sido medicada. Não teria sido diagnosticada com a doença. Provavelmente, estaria morta.”