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Estas crianças são educadas "à moda antiga"

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As fotografias cuidadosamente encenadas de Julie Blackmon retratam um quotidiano familiar tenso e periclitante. Bebés na berma da piscina sem vigilância, crianças com sacos plásticos na cabeça, atravessando sozinhas a rua ao estilo 'Abbey Road', brincando com o fogo sem supervisão são alguns exemplos de cenários subtis mas atrevidos que Julie criou utilizando como modelos os seus três filhos. "Sou a mais velha de nove irmãos e agora sou mãe de três. As imagens que produzo são ao mesmo tempo ficcionais e auto-biográficas: por um lado reflectem a nossa vida e o crescimento das crianças numa família numerosa, por outro o cariz documental é ultrapassado quando adiciono elementos fantásticos às imgens." Crescer numa família numerosa em Springfield, Missouri, vincou profundamente a sua abordagem fotográfica: os seus três filhos figuram em todos os seus projectos e os temas que aborda estão relacionados com a parentalidade na sociedade moderna. "Hoje em dia esperam-se mães e pais-helicóptero que cobrem todas as necessidades dos filhos pacientemente e sem levantar o tom de voz. Não foi assim que cresci e creio que sou um pouco resistente a este tipo de mudança cultural" afirma na descrição do projecto "Homegrown" no seu site. "Vivemos numa cultura em que somos centrados no bem estar da criança e ao mesmo tempo obcecados connosco próprios", uma dicotomia que considera incompatível. As fotografias de Blackmon retratam uma América suburbana de cores saturadas onde a sátira e as referências cinematográficas e históricas estão bem patentes; a pintura holandesa do século XVII é apontada pela autora como referência, ao mesmo tempo que aponta nomes como os de Tim Burton e Federico Fellini como inspiração. "O stress, o caos e a necessidade de simultaneamente escapar e ligar-me a essa realidade são assuntos que investigo neste corpo de trabalho. Como mãe e artista, acredito que os momentos mais pungentes advêm da capacidade de fundir a fantasia com a realidade, de conseguir separar o que é mítico em pleno caos." O livro "Homegrown" contém 40 fotografias realizadas entre 2009 e 2014. O percurso artístico e fotográfico de Julie Blackmon está longe da sombra desde 2004, momento em que ganhou uma menção honrosa numa competição do Centro de Fotografia de Santa Fe com o seu primeiro projecto 'Mind Games' - cujas fotografias remetem para as de Sally Mann ou de Emmett Gowin. Posteriormente, em 2008, foi também distinguida pela American Photo, que lhe atribuiu naquele ano o prémio de Fotógrafo Emergente. O seu trabalho figurou em publicações como o The New York Times Magazine, The New Yorker e Vanity Fair, e pode ser encontrado nas colecções de vários museus dos Estados Unidos. Ana Maia

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