Um anti-parque de diversões criado por Banksy & C.ª

Durante meses, sob a camulflagem da suposta rodagem de um filme, Banksy transformou um antigo complexo recreativo perto de Bristol num assustador parque de diversões com obras suas e de artistas convidados, como Damien Hirst ou a portuguesa Wasted Rita. Chama-se Dismaland e pode visitá-lo a partir de sábado, a menos que seja advogado e trabalhe para a Disney.

REUTERS/Toby Melville
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Chama-se Dismaland, um jogo de palavras que envolve a Disney e o adjectivo dismal (sombrio), apresenta-se como um “parque de estupefacções” (bemusement), vai estar a funcionar até 27 de Setembro num abandonado complexo recreativo em Weston-super-Mare, junto ao Canal de Bristol, e é talvez o mais ambicioso projecto até hoje desenvolvido pelo célebre e enigmático artista britânico que usa o pseudónimo Banksy.

Este anti-parque de diversões

, onde a morte, figurada na grande ceifeira, dança ao som de

Staying Alive

dos Bee Gees num castelo ao estilo Disneyland, e cujas atracções incluem um barco a abarrotar de refugiados, uma carruagem da Cinderella envolvida num acidente de viação, ou uma mulher a ser atacada por gaivotas, foi hoje revelado aos meios de comunicação social e abre oficialmente no sábado, após uma pré-inauguração, na sexta-feira, exclusivamente dedicada à população local.

Uma dezena de atracções foi providenciada pelo próprio Banksy, mas a maioria foi realizada pelos mais de cinquenta artistas que aceitaram o seu desafio para colaborar no projecto, de Damien Hirst, Bill Barminski, Caitlin Cherry, Polly Morgan, Josh Keyes, Mike Ross ou David Shrigley à portuguesa Wasted Rita, que já colocou uma mensagem na sua página de Facebook a manifestar o seu entusiasmo e orgulho por participar no projecto.

A prenunciar o que espera o visitante, a entrada faz-se através da reconstituição da zona de segurança de um aeroporto, onde agentes fardados e mal-encarados desenganam os que pensavam que era só comprar bilhete e entrar. O regulamento do parque mostra bem, de resto, que os seus promotores têm experiência em lidar com grafitters e vândalos afins: é estritamente proibido entrar com latas de spray. Numa alínea de legalidade um pouco mais controversa, é igualmente vedado o acesso a quaisquer advogados que representem o grupo empresarial Walt Disney.

O local onde o parque foi montado, conhecido como Tropicana, estava abandonado há década e meia, mas chegou a ser uma das grandes atracções turísticas da frente marítima de Weston-super-Mare, com o seu edifício Art Deco, erguido em 1937, e a sua piscina ao ar livre, que chegou a ser a maior da Europa. “Adorava a Tropicana quando era miúdo, de modo que abrir outra vez aquelas portas é mesmo uma grande honra”, disse Banksy à imprensa inglesa.

A transformação de um terreno ao abandono num parque recheado com obras de meia centena de artistas dos mais diversos países não se faz de um dia para o outro, e é notável que tenha sido possível manter o segredo eficazmente guardado durante tanto tempo. Uma discrição que só foi possível com a cumplicidade das autoridades municipais, que alinharam no plano de Banksy e criaram uma manobra de diversão, convencendo a população de que o local estava a ser usado para rodar um filme.

Banksy descreve esta obra colectiva como “um parque de diversões inadequado para crianças”. Além de uma Pequena Sereia desfigurada, de um muito útil poço de fogo para queimar romances de Jeffrey Archer, ou de uma versão de Punch and Judy – um tradicional (e deveras violento) espectáculo de marionetas britânico – com alusões a Jimmy Saville (famoso apresentador de televisão acusado, após a sua morte, de ter sido um abusador sexual em série) e ao best-seller de temática sado-masoquista As Cinquenta Sombras de Grey, o Dismaland oferece-lhe, por exemplo, uma curiosa variante do minigolfe assumidamente inspirada no gosto do auto-intitulado Estado Islâmico pelas decapitações.

A atracção principal, o castelo de fadas, foi idealizado pelo próprio Banksy e inclui um sangrento acidente de carruagem, abrilhantado com o cadáver de Cinderella no chão, junto aos cavalos mortos. E como em qualquer parque de diversões que se preze, os visitantes podem levar para casa uma recordação, deixando-se fotografar no meio da carnificina.

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"Aí foi o histerismo total"

A única artista artista portuguesa representada em Dismaland, Wasted Rita, contou à agência Lusa que o convite para participar "numa exposição normal, mas na rua", foi feito em Junho. "Pediram-me quatro dos meus cartazes, e eu aceitei, mas nunca me deram muitas informações sobre o festival – nem sítio, nem data, nem nomes –, por isso fui perdendo o interesse", recorda a artista.

Cerca de um mês depois, Wasted Rita, como a própria prefere ser chamada, foi informada de que Banksy queria colar os quatro trabalhos na parede de um castelo. "Fiquei uma hora a achar que era alguém a gozar comigo", confessa.Só nessa altura ficou a saber que se tratava de uma exposição com a curadoria de Banksy, e o que o mítico graffiter pretendia ao certo. “Ele não queria só expor esses quatro cartazes, mas também fazer um 'remake' da instalação que eu tinha realizado na semana anterior num festival de música e ter algumas das edições de 't-shirts' minhas à venda na loja da exposição". E "aí foi o histerismo total", conclui.

Wasted Rita faz desenhos, ilustrações e escreve teorias sobre o que a rodeia. Para Dismaland, Banksy escolheu alguns dos seus cartazes antigos, que dizem: "You're giving me massive diarrhea" ("Estás a dar-me uma diarreia maciça"), "Bankrupt is the new awesome" ("Bancarrota é a nova cena"), "I have no fucking idea what I am doing in this world" ("Não faço a mínina ideia do que ando a fazer neste mundo") e "The more I know people the more I love snakes" ("Quanto mais conheço as pessoas mais gosto de cobras").

Além disso, Rita irá replicar na Dismaland a parede Love Letters que criou no Parque das Nações durante o festival Super Bock Super Rock.

 

Notícia actualizada às 19h15 para acrescentar declarações da artista portuguesa Rita Wasted.