Fados de homens para homem

Tributo ao fado no masculino, homenagem a fadistas homens mas também a compositores, o quarto disco de Marco Rodrigues revela um assinalável bom gosto e elegância nas escolhas e na entrega da voz.

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Lionel Balteiro / Mínima Ideia

Chega finalmente a disco o anunciado tributo de Marco Rodrigues aos homens no fado. Não que as mulheres fadistas não sejam importantes para ele, hoje como no passado, mas porque acha necessário ultrapassar um injusto obscurecimento. Na imaginação de muitos, fado é uma mulher cantar e músicos, homens, a acompanhá-la. A história diz-nos, e nós sabemos, que não é bem assim, que há fadistas extraordinários independentemente de serem mulheres ou homens, mas como vencer tal cliché?

Marco Rodrigues, fadista jovem (nasceu em Amarante, a 19 de Setembro de 1982, e começou a cantar em Arcos de Valdevez muito novo), quis dedicar um disco só a cantores e compositores no fado, fados de homens para homem, para repor algum equilíbrio. Com três discos (Fados da Tristeza Alegre, 2006; Tantas Lisboas, 2011 e EntreTanto, 2013) e muitos originais em carteira, Marco Rodrigues concebeu Fados do Fado, que agora chega às lojas, já numa fase de maturidade. No canto, provara já o que vale e até onde será capaz de ir nos próximos anos; na escolha de repertório (ele acompanha-se à viola, com frequência), mostrara também bom gosto na conjugação de clássicos e originais.

Incentivar descobertas
Mas Fados do Fado é assumidamente um disco de versões, como diz Marco Rodrigues. “Mais do que homenagear algum cantor é homenagear o legado que os homens deixaram ao fado e à música portuguesa. Porque estamos a falar de homens que foram também grandes cantores e fadistas. E autores, e compositores.” Escolheu, para isso, temas que viveram com ele, todos estes anos, nas casas de fado mas sem que ele os cantasse. Ouvia-os nas vozes de outros. “Colegas meus, até pessoas que eu não estava à espera que os cantassem. Inclusive mulheres. Para mim é quase um fenómeno como é que há mulheres que interpretam a Rosinha dos limões, porque é uma letra masculina.”

Marco diz que a “conotação do fado à mulher” é uma coisa antiga. “Quando o fado renasceu com uma nova geração, há uns treze anos, foi notável o trabalho que as mulheres voltaram a fazer no estrangeiro, estrangeiro que já por si tinha o ícone Amália Rodrigues na cabeça. O fado-mulher. Depois vieram Ana Moura, Mariza, Mísia, Katia Guerreiro… Foi quase um apagar de memória em relação aos homens no fado.”

Voltando atrás: ele escolheu, para este disco, só fados que nunca tinha cantado, com excepção de Acho inúteis as palavras, que já gravara no disco de estreia. “Quando fomos fechar o disco, comecei a perceber que houve temas que escolhi porque os identifiquei das primeiras vezes que ouvi. Por exemplo: a Trigueirinha, fado que está ligado directamente ao Jorge Fernando, que o escreveu e cantou, as primeiras duas vezes que o ouvi foi na voz do Fernando Maurício. E adorei. Desde essa altura nunca essa interpretação me saiu da cabeça, e já ouvi vários fadistas cantá-la depois.”

Há outro tema de Jorge Fernando no disco, Guitarra, guitarra, que Camané  “também cantou, brilhantemente”. Tal como há temas de João Ferreira-Rosa, Max, Carlos do Carmo ou Tony de Matos. Títulos como Rosinha dos limões, Noite, Arraial, Ai se os meus olhos falassem, Nem às paredes confesso, Bairro Alto, É só por causa dela ou Vendaval. Além dos já anteriormente citados. “Uma das curiosidades deste disco é levar as novas gerações a ouvir vozes que desconhecem. Há pessoas da minha geração que nunca ouviram a Rosinha dos limões. Quando souberem que foi o Max que a cantou, no mínimo vão ter curiosidade de saber quem era ou que outro tipo de coisas é que ele cantava.” De Max, além de Rosinha dos Limões (música e letra de Artur Ribeiro), o disco inclui Noite (a música é de Max, sobre poema de Vasco de Lima Couto) e até Trigueirinha, tema que ele também cantou.

E de um nome que fez carreira internacional, Max, passamos para outro. “Há aqui uma fase muito importante, os temas que o Francisco José levou para o Brasil, como Nem às paredes confesso ou Ai se os meus olhos falassem. É importante saber que para além da Amália Rodrigues houve um cantor português, naquela mesma época, que fez grande sucesso no Brasil. Ainda hoje há pessoas que chegam às casas de fado e pedem os Olhos castanhos ou o Nem às paredes confesso. Ainda se lembram!”

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E há Arraial, de um fadista histórico e felizmente vivo: João Ferreira-Rosa. “Ele é fado em tudo aquilo que canta, na maneira como escreve, como compõe. Se não me engano, ouvi esse tema pela primeira vez cantado pelo João Braga. Foi numas tertúlias de fado, com o António Zambujo, o Paulo Parreira, o Ricardo Rocha e outros. Saíamos das casas de fado onde estávamos e íamos todos para aquele que é agora o Bacalhau de Molho. Nessa altura eu não conhecia ainda o João Ferreira-Rosa. Mas depois fui ouvir a versão original e fiquei apaixonado pelo timbre de voz dele.”

Sem medo do risco
Guitarra, guitarra foi um dos temas que Marco mais ouviu interpretado por Camané. “É do Jorge Fernando, um nome incontornável na composição para fado.” Mas há outro tema que lhe chegou pela mesma via, É só por causa dela (música de Thilo Krassman e letra de Rosa Lobato Faria, a única mulher deste lote): “Foi dos primeiros temas, senão o primeiro, que o Camané gravou, quando tinha 9 ou 10 anos. Quem me mostrou esse tema foi o José Manuel Neto, numa viagem.” Vendaval, com letra de Joaquim Tavares Pimentel e música de António Rodrigues Ribeiro, chegou-lhe por via do cantor que o celebrizou. “É um tema onde o Tony de Matos arrasa completamente!” Já o célebre Bairro Alto (música de Francisco Carvalhinho e letra de Carlos Simões Neves) faz uma dupla: “Consigo chamar aqui dois nomes: o do primeiro a cantá-lo, Nuno de Aguiar; e o de Carlos do Carmo, que o celebrizou.”

Acho inúteis as palavras é, neste alinhamento, a excepção. “Num disco onde só tenho temas clássicos, este, não sendo inédito, é uma criação minha. É um poema do António Sousa Freitas que a Amália cantou no Fado Menor e que eu adaptei ao Fado Menor do Porto.”

Desta vez, ao contrário do habitual, Marco Rodrigues não se acompanhou à viola. “Queria concentrar-me na voz. São temas muito bons, que foram muito bem cantados e que ficaram colados de uma forma muito forte às interpretações que deles foram feitas. Mas só são reconhecidos no meio fadista. Cantá-los, agora, pode ser um grande risco mas é sobretudo um enorme desafio. E eu não tenho medo do risco. Porque conheço muito bem a música que canto, as características do fado, vários tipos de intérpretes, e isso faz-me ter uma grande tranquilidade para pegar nestes temas e dar algo meu.”