PS-Madeira acusa António Costa de "violar a democracia"

Líder do PS anunciou na sexta-feira Bernardo Trindade como cabeça de lista pela Madeira à revelia do PS local, que fala em desrespeito pela autonomia estatutária do partido.

Bernardo Trindade, antigo secretário de Estado do Turismo de José Sócrates, está no centro da polémica entre os socialistas madeirenses e António Costa, que o escolheu para encabeçar a lista pela Madeira.
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Bernardo Trindade, antigo secretário de Estado do Turismo de José Sócrates, está no centro da polémica entre os socialistas madeirenses e António Costa, que o escolheu para encabeçar a lista pela Madeira. Pedro Cunha (arquivo)

A escolha de Bernardo Trindade, por parte da Direcção Nacional do PS, para encabeçar a lista dos socialistas madeirenses às legislativas de Outubro, foi recebida com revolta no Funchal.

Trindade, ex-secretário de Estado do Turismo de José Sócrates e actual presidente do congresso do PS-Madeira, foi uma escolha pessoal de António Costa, à revelia da direcção regional que, em comunicado, diz que não a reconhece.

“A seu tempo o PS-Madeira apresentará ao secretário-geral do Partido Socialista, dr. António Costa, a lista completa dos candidatos de acordo com o que vier a ser determinado nos seus órgãos próprios”, lê-se no comunicado emitido este sábado à tarde, em que os socialistas madeirenses acusam Costa de violar “os mais elementares valores da democracia e da autonomia”.

No documento, a que o PÚBLICO teve acesso, a direcção do PS madeirense estranha que não tenha havido o “imprescindível respeito pela autonomia estatuária do PS-Madeira”, e fala de um timing “anormal, precipitado e incompreensível”, já que a Comissão Política Nacional ainda não definiu os perfis dos candidatos. Tudo isto acontece, acrescenta o PS-Madeira, ao arrepio da longa praxis política interna do partido.

“O sucedido viola os mais elementares valores da democracia e da autonomia pelos quais o PS-Madeira se pauta”, continua o documento, sublinhando que António Costa terá de informar o eleitorado madeirense dos motivos pelos quais colocou o “respeito institucional e a autonomia” dos socialistas madeirenses na “gaveta”.

Para o PS-Madeira, este comportamento de Costa, reafirma o “centralismo do Largo do Rato”, em detrimento de uma estratégia - “que foi atempadamente comunicada” – que “valorize” o partido na Madeira.

O nome de Bernardo Trindade foi revelado sexta-feira à noite, após a reunião do secretariado nacional, em conjunto com outros cabeças de lista de outros círculos eleitorais. O nome, sabe o PÚBLICO, já tinha sido falado entre António Costa e o presidente dos socialistas madeirenses, Carlos Pereira. Mas este recusou sempre comprometer-se, justificando que caberia aos órgãos regionais fazer essa escolha.

“Não seria elegante da minha parte falar de nomes, quando cabe à comissão política regional e ao conselho regional decidir sobre essa matéria, e esses órgãos ainda não estão constituídos”, explicou Carlos Pereira, garantindo que as escolhas do PS-Madeira serão conhecidas no dia 17 de Julho.

Os nomes podem não coincidir com os da direcção nacional. A tradição na Madeira, que tem sido seguida por PS, CDS e PSD, dita que seja o líder regional a encabeçar a lista a São Bento e, ao contrário de Miguel Albuquerque pela parte do PSD, Carlos Pereira não afasta essa possibilidade.

Assim, o PS corre o risco de no dia 17 ter duas listas para a Madeira: uma imposta pelo Largo do Rato, e outra escolhida no Funchal.

Em causa, garante o PS-Madeira, não está o nome de Bernardo Trindade, que é um dos históricos dos socialistas madeirenses que Carlos Pereira, nas recentes eleições internas, chamou para a presidência do congresso, mas sim a forma como a direcção nacional decidiu “interferir” num processo que tem sido sempre tratado a nível regional.

Carlos Pereira chegou no final de Maio à presidência do PS-Madeira sucedendo a Victor Freitas depois da pesada derrota nas regionais de Março. Apoiante de António Costa desde a primeira hora durante as eleições internas do partido, o líder dos socialistas madeirenses convidou-o para encerrar o congresso regional, em Junho, que serviu para legitimar a nova estratégia do partido para a Madeira.

Costa acabou por não estar presente devido ao falecimento de Ferraz de Abreu, antigo presidente do PS, e internamento de Maria Barroso, mulher do ex-Presidente da República Mário Soares.