Portugal "perde" 200 mil pessoas em cinco anos e isso é preocupante

Estimativas do INE mostram que, em 2014, o número de emigrantes temporários ultrapassou os 85 mil. É o maior número desde que há registos.

No último ano houve mais 22.423 mortes do que nascimentos
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No último ano houve mais 22.423 mortes do que nascimentos REUTERS/Rick Wilking

Em apenas cinco anos, Portugal "perdeu" perto de 200 mil habitantes, um número que surpreende e preocupa especialistas em demografia pela rapidez do fenómeno. Iniciada em 2010, a tendência para o decréscimo populacional é imparável e 2014 não foi excepção: no ano passado, o país passou a ter menos 52.479 pessoas, revelam as estimativas sobre a população residente divulgadas nesta terça-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). No final de Dezembro, viviam no país 10.374.822 pessoas, menos 198 mil do que em 2009.

“São valores muito significativos numa população de 10 milhões de pessoas. É muitíssimo, num período tão curto e para uma população tão pequena”, considera Maria Filomena Mendes, presidente da Associação Portuguesa de Demografia (APD), que se confessa preocupada com a “rapidez” do declínio populacional observado nos últimos anos em Portugal.

É certo que as projecções já efectuadas pelo INE e por especialistas em demografia como a presidente da APD apontam desde há anos para uma diminuição progressiva da população e para um envelhecimento crescente. Mas Filomena Mendes acredita que “a crise económica e financeira acelerou” este fenómeno, por causa da quebra da natalidade, “que desde 2010 foi muito acentuada”, e pela “incapacidade de Portugal captar mais imigrantes” e estancar a sangria da emigração. "Não tínhamos projectado uma redução tão grande”, admite.

Os números agora revelados pelo INE apontam para decréscimo populacional de 0,5%, em 2014, que é resultado de um saldo natural negativo (mais 22.423 mortes do que nascimentos) e um saldo migratório igualmente negativo (mais 30.056 emigrantes do que imigrantes). Duas realidades que, apesar de se terem atenuado no ano passado face a 2013, continuam a evoluir no mesmo sentido.

Este é o quarto ano consecutivo em que o saldo migratório se apresenta negativo. A agravar, aos 49.572 emigrantes permanentes juntam-se os 85.052 emigrantes temporários (os que tencionam sair por menos de um ano) e que não entram neste cálculo. Este último número representa um aumento da ordem dos 14% em comparação com o valor estimado para 2013 (74.322) e é o maior valor desde que o INE disponibiliza este tipo de registos (2011).

“Enquanto não conseguirmos recuperar da crise económica e financeira, continuaremos a ser penalizados pela emigração, porque estamos a perder população jovem, em idade activa e em idade fértil”, enfatiza a demógrafa.

O INE sublinha que, por definição, as pessoas que saem para ocupações temporárias (menos de um ano) no estrangeiro fazem parte da população residente, pelo que não integram o saldo migratório. “Estes emigrantes são temporários, mas, se tiverem melhores condições de vida no estrangeiro, acabam por permanecer lá. Muitas vezes são jovens qualificados que arranjam um emprego com melhor remuneração. Depois, vai o marido, vai a mulher, vai o companheiro, vai a namorada”, sintetiza Filomena Mendes. Resultado? “Aquilo que, à partida, poderia não ser uma perda, acaba por funcionar como tal. A penalização é grande, tanto para a demografia como para a economia nacional e para a sociedade”, defende.

O “envelhecimento demográfico” que afecta o país resulta não só da descida da natalidade e do impacto da emigração, mas também do aumento da longevidade, sintetiza o INE. A agravar este quadro, o envelhecimento demográfico é "duplo": entre 2004 e 2014, enquanto a base da pirâmide etária foi estreitando, o topo foi alargando. Neste período, aumentou substancialmente o número de idosos (com 65 ou mais anos) e diminuiu o de jovens (menos de 15 anos), enquanto foi encolhendo o número de pessoas em idade activa.

Maria Filomena Mendes recorda as projecções que fez para a Fundação Francisco Manuel dos Santos e que apontam para um declínio populacional crescente: “Qualquer que seja o cenário,mesmo que as mulheres comecem a ter mais filhos, já não vamos travar este envelhecimento. Não podemos reverter esta realidade nos próximos anos”.

O índice de envelhecimento está, de facto, a aumentar inexoravelmente: se em 2004 por cada 100 jovens residiam em Portugal 108 idosos, este valor subiu para 141 no ano passado, revela agora o INE. Também o índice de dependência de idosos continua a crescer: em 2004, por cada 100 pessoas em idade activa residiam em Portugal 26 idosos, valor que passou para 31 no ano passado.

Projecções divulgadas pelo INE em 2013 apontavam já para uma redução drástica da população em 2060. Se Portugal não conseguir aumentar a natalidade e os saldos migratórios continuarem negativos, dentro de 45 anos a população nacional poderá ficar reduzida a 6,3 milhões de habitantes e o índice de idosos por 100 jovens passará para 464. Este é o mais pessimista dos três cenários traçados pelo INE. O mais optimista aponta para 8,6 milhões de residentes em 2060, mas para que isso aconteça será necessária uma recuperação da natalidade e o crescimento da imigração. 

Notícia actualizada com declarações da presidente da Associação Portuguesa de Demografia