Crónica

O velho e bom hábito de escrever à mão

Tenho cãibras nas mãos e o esforço é inconsequente.

Isto não vai ser fácil, eu sei. Vocês não imaginam quantas vezes já comecei e apaguei estas linhas. A caneta treme e a minha caligrafia, que é péssima, está pior. Estou a escrever à mão, num autocarro.

Vou a caminho do aeroporto, contribuir para o aquecimento global. Decidi não levar o computador nesta viagem. Não vou precisar dele.

E é uma bênção não o ter na bagagem. Há uns anos, era o mais portátil do mercado. Agora, é um trambolho anacrónico. Cada vez que o ponho na mala de mão, doe-me antecipadamente a ala direita do lombo. A simples renúncia a carregá-lo equivale a cinco horas de ioga.

Redigir à mão é que é o cabo dos trabalhos. O autocarro pára e arranca, é impossível manter a escrita direita, como nos impingiram na primária. Aí vem uma rotunda. Não dá, a caneta escorrega para o lado errado. O arroz de peixe também. Estou um bocado agoniado.

Cheguei na hora, mas meu voo foi cancelado. Fui ao balcão 10 da zona E, passei pelo raio-X e dirigi-me ao guichê P, o dos problemas, junto da porta A10. Estou numa lista de espera. “Volte daqui a uns 20 minutos”.

O aeroporto fervilha de expectantes. A aviação nunca vai ser verde, por mais campanhas de relações públicas que se façam.

Se vissem os rabiscos e rasuras nesta folha de caderno, teriam uma noção da dificuldade em que se transformou escrever do próprio punho. Os músculos já não respondem. A lembrança da última carta que compus à mão está soterrada por outras camadas de memória.

A tecnologia prevaleceu sobre o organismo. Uni-me umbilicalmente à minha Olivetti Lettera 32 desde que a ganhei de presente, no Natal de 1975. Com ela pratiquei anos de halterofilismo digital, tonificando os dedos nas suas teclas. Depois vieram as IBM eléctricas, com as letras ao redor de uma epiléptica esfera. E finalmente os computadores e os seus sucedâneos.

Estou à frente de um hambúrguer e uma dose industrial de batatas fritas. Tenho de comer, só há voo daqui a quatro horas. A caligrafia piorou, agravada pela maionese que transitou da sandes para o papel. Certamente há melhores formas de se combinar comida e literatura.

Há muita gente sozinha no restaurante. Mas ninguém lê nada, a não ser o menu. As caras estão coladas nos smartphones ou tablets. E eu a rabiscar no meu caderno, um lunático com certeza.

Que barafunda nestas folhas. Não vou mesmo conseguir ler isso. Acontece com alguma frequência. Uma caneta, um bloco e a capacidade de perguntar “por quê” são os instrumentos básicos de um jornalista. Às vezes, porém, tenho de telefonar aos entrevistados para confirmar: “Desculpe estar a chateá-lo, mas quis dizer ‘concatenações mentais’ ou ‘contra-ordenações ambientais’?”

Acabo de enviar um sms a um amigo que está à minha espera do outro lado da viagem. Mencionei que estava a tentar escrever uma crónica à mão. “Dizem que desenhar as letras ajuda a formar caminhos entre os neurónios”, respondeu ele. Se assim é, vai uma grande confusão na minha cabeça.

Já preenchi cinco páginas. Uma fatia de uma árvore, mas nenhuma electricidade. Preciso parar. Tenho cãibras nas mãos e o esforço é inconsequente. O “a” e o “z” já são uma coisa só. Sinto saudades do computador.

Aqui está um, do próprio aeroporto. Tenho 20 minutos grátis de Internet. Na verdade não preciso, mas eis-me a ver emails. Acabo de tentar ler também as notícias. Fui ao site do Público, mas surgiu a imagem de um bulldog a toda a largura do ecrã. A net foi abaixo. Incompatibilizou-se com o meu próprio jornal. E ainda tenho três horas e meia de espera. Da próxima vez vou trazer a edição em papel.