Darren Staples/ Reuters
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Megafone

Exame final

A empresa já tinha despedido vários funcionários. Tu já tinhas dispensados três colaboradores da tua equipa. Respiras fundo, tentas acalmar-te, mas temes a reacção dos teus superiores.

Sentado, dás por ti a olhar em redor. Agora, já só tens que esperar. Talvez pudesses ter estudado mais, não ter faltado tanto às aulas. Talvez devesses ter relido a matéria. Agora sabes que não sabes tudo. Por isso, dependes mais da sorte (o que terá o professor decidido pôr no teste?). Ficaste na parte de cima do anfiteatro. Daqui, vês os teus colegas sentados nas outras cadeiras (enchendo a sala) e o professor ao fundo, lá em baixo, a começar a distribuir os testes. É o teu primeiro exame na faculdade. Dormiste pouco e mal. Nunca te sentiste tão ansioso na vida.

Já tinhas passado por toda aquela parafernália de provas das empresas de recrutamento:testes psicotécnicos, dinâmicas de grupo, entrevistas da treta. Agora, estás sentado e, frente a ti, o director do departamento, o director-geral e o dono da empresa. Era a entrevista final do emprego que tu muito desejavas. Não sabias o que te iam perguntar. Não sabias se ias conseguir impressioná-los o suficiente (eras o primeiro, entre os vinte candidatos seleccionados para esta fase final, a ser entrevistado) e sentias uma tensão nunca antes experimentada. Pensavas no passado e concluías: agora é a valer! Afinal, já não se tratava de passar ou não a uma cadeira da faculdade. Tratava-se de saber se conseguias ter emprego.

O conselho de administração está sentado. Tu levantas-te e começas a apresentar os resultados do semestre. És responsável pela tua equipa e pelos resultados. Sabes disso e sabes que fizeste o melhor que podias. Mas é o conselho de administração que vai, ou não, ficar satisfeito. Estás de pé e as mãos tremem-te (quem vê de fora não nota, tu sentes). O semestre tinha corrido mal (o anterior também). A empresa já tinha despedido vários funcionários. Tu já tinhas dispensado três colaboradores da tua equipa. Respiras fundo, tentas acalmar-te, mas temes a reacção dos teus superiores. De repente, vem-te à memória o teu primeiro emprego, de como estavas nervoso na entrevista final. Mas nunca tinhas sentido nada como o que agora estavas a sentir. Agora é diferente. Agora tens vidas a sustentar. Não és só tu quem está em causa. Tens filhos, uma mulher, uma família. Tens um futuro a garantir. Não podes ser despedido.

Depois das análises ao sangue, da colonoscopia e da ressonância magnética, hoje era o dia em que o médico te ia revelar os resultados. Estás sentado no consultório, com a tua mulher ao lado, e vês, do outro lado da secretária, em frente a ti, o médico também já sentado, com os relatórios dos exames nas mãos. Ele fita-te e começa a falar. Antes de começares a ouvi-lo, lembras-te do teu primeiro teste na faculdade, da entrevista final do teu primeiro emprego, ou daquela apresentação de resultados negativos na empresa, quando quase foste despedido. E sentes algo inusitado: percebes que, pela primeira vez na vida, vais saber os resultados de um exame a sério.