Convento de Jesus reabre ao público 20 anos depois

Monumento nacional e principal referência patrimonial de Setúbal abre portas após obras de 3,6 milhões de euros.

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O Convento de Jesus, em Setúbal, monumento nacional e um dos primeiros exemplos de arquitectura manuelina, reabre ao público, parcialmente recuperado, ainda este mês, após 23 anos de encerramento, disse ao PÚBLICO fonte do município sadino.

A inauguração das obras de recuperação e valorização do mosteiro, promovidas pela Câmara de Setúbal sob autorização da Direcção-Geral do Património Cultural, depois de o antigo IGESPAR ter cedido à autarquia a sua posição na candidatura do projecto a fundos comunitários, está marcada para o próximo dia 20.

A empreitada de requalificação do Convento de Jesus, que começou em Dezembro de 2012, incluiu trabalhos de beneficiação geral do imóvel, mas beneficiou, sobretudo, a ala poente do edifício que foi recuperada para acolher e reabrir ao público o Museu de Setúbal, também encerrado desde 1991.

As obras na ala poente do antigo mosteiro passaram pelo reforço de todas as infraestruturas, substituição integral de pavimentos e revestimentos de paredes, remodelação do sistema eléctrico e instalação de ar-condicionado.

Uma intervenção que o arquitecto responsável pelo restauro do monumento, Carrilho da Graça, considera muito boa. “Estou bastante satisfeito com o resultado, a obra, feita com todo o cuidado, transforma o edifício que estava em ruinas num edifício sólido, utilizável em todas as suas componentes”, disse Carrilho da Graça, ontem, ao PÚBLICO.

O arquitecto destaca ainda a forma “exemplar” como o processo foi conduzido “por todos os intervenientes e principalmente pelo dono da obra, a Câmara de Setúbal”.

De acordo com Carrilho da Graça, as obras já concluídas permitem ver os aspectos “mais interessentes da arquitectura do convento”, designadamente o claustro que foi parcialmente reabilitado e que está entre as zonas do monumento que vão agora reabrir ao público.

“Quase terminada” está também a reabilitação da Sala do Capítulo. Uma sala atribuída a António Rodrigues, arquitecto do alto renascimento português, que não é o arquitecto original do convento, e que Carrilho da Graça considera “extraordinária”.

À espera de uma futura fase das obras, que não está ainda anunciada, está a Igreja de Jesus, que integra o conjunto conventual. Um edifício “absolutamente excepcional”, no dizer de Carrilho da Graça, que foi uma espécie de protótipo da igreja dos jerónimos, obra-prima, posterior, do mesmo arquitecto do Convento de Jesus, Diogo Boitaca.

Os principais objectivos da intervenção agora concluída foram, segundo a Câmara de Setúbal, criar um local com as características adequadas a que “o espólio museológico possa ser visitado pela população de forma condigna” e “proporcionar as condições técnicas que permitam uma maior preservação do património”.

Nesta reabilitada zona do monumento nacional fica já instalada parte do acervo do Museu de Setúbal, que se encontra guardado e disperso por vários locais há mais de 23 anos, e entre as peças em exposição vão estar duas obras de especial valor.

O quadro do pintor sadino Fernando dos Santos, ‘Bocage e as Musas’ (1929), que não é exposto publicamente há mais de 23 anos, e o conjunto escultório do barroco português ‘Calvário - Cristo cruxificado, Nossa Senhora, São João e Santa Madalena’, doado à autarquia setubalense, no ano passado, pela Fundação Buehler-Brockhaus, que o adquiriu por 52 mil euros.

A peça, da primeira metade do século XVIII, é composta por esculturas em madeira policromada, cruz naturalista em madeira com aplicações em prata de origem espanhola. As esculturas reproduzem um Cristo, com 57 centímetros, de uma Nossa Senhora, com 50, de um São João, com 61, e de uma Santa Madalena, com 31.

Fora do convento vai continuar a jóia principal do Museu de Setúbal, o retábulo do altar-mor da Igreja de Jesus, que foi retirado do local em 1940, para a Exposição do Mundo Português, e que nunca mais voltou ao seu local de origem.

A peça, da primeira metade do século XVI, da autoria de mestre Jorge Afonso, é composta por 14 quadros pintados a óleo, sobre madeira, e considerada um tesouro nacional, de valor incalculável.

O retábulo pode ser visto actualmente na Galeria Municipal de Setúbal, no edifício do antigo Banco de Portugal, à espera da conclusão das obras no convento.

“Quando o restauro estiver totalmente concluído, o retábulo voltará para o edifício onde terá uma sala especial”, disse ao PÚBLICO o responsável pelos museus e bibliotecas do município de Setúbal, José Luís Catalão.

Do Tratado de Tordesilhas à ameaça de ruína

O Convento de Jesus, fundado em 1490 e classificado como Monumento Nacional em 1910, situa-se entre as muralhas quatrocentistas e seiscentistas de Setúbal e, além de principal património monumental da cidade é também uma das obras iniciais da arquitectura manuelina.

Um dos episódios mais marcantes da história nacional teve lugar entre as paredes, na altura ainda novas, do então mosteiro, concluído apenas há cerca de quatro anos; a ratificação da assinatura do Tratado de Tordesilhas, em 1494.

Na década de 60 do século XX, o edifício passou a albergar o Museu de Setúbal, acervo com diversas colecções artísticas, arqueológicas, históricas e documentais de elevado valor, nalguns casos com dimensão internacional, mas, devido ao mau-estado do imóvel, o monumento e o museu encerraram ao público em 1991.

Durante o longo período de encerramento, o acentuar da degradação das condições do imóvel levou à criação, há dez anos, de um movimento público de defesa do edifício, que promoveu várias acções de protesto.

Em 2007 o Governo português desbloqueou 500 mil euros para uma intervenção de emergência, com o objectivo de travar a degradação do monumento. Na altura, o então presidente do Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico (IPPAR), Elísio Summavielle,, disse ter ficado “chocado” com o estado em que viu o edifício, no entanto, o investimento feito nessa intervenção e desde então foi somente uma pequena parte do necessário para a recuperação do imóvel.

O custo de reabilitação total do Convento de Jesus estava estimado, em 2007, em quase 5 milhões de euros e mais 10 milhões para o novo edifício do Museu de Setúbal que a autarquia também projectava para o local.

O dinheiro não apareceu e, em 2013, o Convento de Jesus foi considerado, pela federação pan-europeia Europa Nostra, um dos sete monumentos em risco no continente europeu, ao lado do anfiteatro romano de Durrës, na Albânia, a zona de separação do Chipre no centro histórico de Nicósia, as fortificações setecentistas de Briançon (França), o mosteiro renascentista de San Benedetto Po (Itália), a paisagem histórica mineira de Rosia Montana (Roménia) e da igreja de São Jorge em Mardin (Turquia).

A federação Europa Nostra, que reúne 250 organizações e mais de cinco milhões de associados pela defesa e promoção do património cultural, descreve o antigo mosteiro setubalense como um “testemunho tangível da história partilhada da Europa”, uma “jóia da nossa herança comum”, cujo restauro pode ter o efeito “catalisador para a revitalização” do centro histórico da cidade sadina.