Crítica

Uma escultura de fronteira

Entre a pintura e a escultura, a obra de Ana Santos interroga as disciplinas artísticas

Ana Santos pede-nos para definir o que na escultura existe de pintura, e aquilo que a pintura tem de escultura
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Ana Santos pede-nos para definir o que na escultura existe de pintura, e aquilo que a pintura tem de escultura DR

Se algo fica da visita a esta exposição de Ana Santos é o sentimento de estarmos perante um limite formal e conceptual, uma fronteira entre aquilo que é escultura e aquilo que definitivamente já não o é. Trata-se de uma série de trabalhos em pequeno formato onde a artista utilizou placas irregulares de pedras ornamentais – mármore, travertino, granito e calcário, entre outras – e as inseriu numa forma rectangular de parafina feita, muito provavelmente, num molde em forma de caixa. Findo o processo, pendurou-as na parede, pedindo-nos a nós implicitamente, e também silenciosamente, para definir o que na escultura existe de pintura, e aquilo que a pintura tem de escultura.

O conceito não é novo. Donald Judd e os seus colegas minimalistas foram os primeiros a tentar trabalhar esta ambiguidade, de outra forma, é certo, e também com objectivos muito diferentes daquilo que aqui vemos. Na altura, tratava-se de distinguir autoritariamente a arte norte-americana da europeia, através da definição de uma “tradição” que remontaria à Grécia e da negação de tudo o que se pudesse relacionar com ela. A perspectiva, a representação, o significado iconológico e categorias tão diversas como a ideia de monumento, de “material nobre” e por aí fora foram rejeitadas. Daqui resultou uma arte transparente em relação aos valores da sociedade norte-americana. Impositiva, geometrizante, masculina, até, como foi então acusada, e obviamente destruidora das fronteiras académicas entre as diferentes disciplinas artísticas, deixou e deixa ainda larguíssima descendência dos dois lados do oceano, e isto apesar dos 50 ou 60 anos que distam da sua criação.

Mas voltemos à obra de Ana Santos. A relação com o Minimalismo fica-se nesta colocação numa fronteira formal e lexical entre duas tradições tão fortes como a que a pintura e a da escultura formaram. De resto, na sua obra, que tem vindo regularmente a ser mostrada em Portugal e pontualmente no estrangeiro, caracteriza-se habitualmente por esta valorização de materiais pobres, humildes, que provavelmente passaram por um processo de invisibilidade pública em algum momento da sua vida. Aqui, é quase impossível não pensar nos restos de pedras ornamentais utilizadas na decoração de interiores mais ou menos pretensiosa da classe média urbana. Noutras ocasiões, como na exposição que antecedeu o Prémio Novos Artistas Fundação EDP que ganhou em 2013, lembramo-nos de pequenas hastes de madeira encostadas à parede, ou outras peças que pareciam submeter-se a uma vontade de intervenção mínima no espaço. E, por aqui, mesmo que não fosse por nenhum outro meio, já se compreende como a obra de Ana Santos se distancia, e muito, da assertividade dos objectos de Judd ou Morris.

Em Lisboa, no espaço da galeria onde agora se mostra o seu trabalho, esta tentativa de apresentar uma intervenção reduzida à mínima existência permanece. As dimensões das peças não ultrapassam nunca as poucas dezenas de centímetros. Obrigam-nos a um olhar muito próximo da parede, o mesmo olhar que concederíamos, por exemplo, a uma miniatura. Este é também o único olhar que permite distinguir veios e matérias minúsculas na pedra, aqui disposta como se de uma pintura se tratasse, ou pelo menos como se estivessemos perante um suporte para a projecção fantasmática de imagens. Neste sentido, e porque a artista foge incessantemente à definição da sua obra, pensamos no trabalho de um coleccionador de objectos invulgares para uma hipotética wundercamera do nosso tempo histórico. Ou ainda, nos percursos de uma respigadora, procurando na humildade dos detritos a forma significante que poderá ser arte. No fundo, a pesquisa de Ana Santos é esta: um processo sem fim de definição da arte.