A “igreja-foguetão” de Miraflores vai finalmente levantar voo

Construção do templo desenhado pelo arquitecto Troufa Real esteve parada durante quatro anos, após desentendimentos entre o autor e a paróquia. Dedicação da igreja à Santíssima Trindade acontece este sábado

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Mara Carvalho
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As paredes exteriores eram para ser azulejadas mas ficaram, afinal, caiadas de branco. A cruz em ferro, prevista para o cimo da torre, foi posta à entrada do templo – talvez para que não seja preciso olhar para o céu para ver que o que ali está não é uma “torre de controlo” ou um “foguetão”, como muitos lhe chamaram, mas sim um local de culto. Polémicas à parte, a igreja de Miraflores, em Algés, abre as portas este sábado.

“É um bocadinho esquisita mas até está bem”, comenta Isumena de Jesus, referindo-se à enorme torre sineira em forma de cilindro, ligeiramente mais largo na base, que se ergue ao cimo de dois lanços de escadas, à beira da estrada. “Escusava era de ser tão branca”, diz esta moradora de 85 anos. Isumena vive em Algés de Cima mas a igreja de Miraflores fica-lhe mais perto. “Fazia aqui falta.”

A população daquele bairro inserido na União das Freguesias de Algés, Linda-a-Velha e Cruz Quebrada-Dafundo esperou 13 anos por este sábado. A primeira pedra do templo, que será dedicado à Santíssima Trindade, foi lançada a 1 de Junho de 2002. Os trabalhos demoraram a arrancar, primeiro construiu-se o centro pastoral (em funcionamento desde 2008) e a igreja foi ganhando forma mas as obras pararam em 2010, com a torre em esqueleto, e só foram retomadas há seis meses.

A Fábrica da Igreja Paroquial do Cristo Rei de Algés, dona da obra, e o autor do projecto, o arquitecto Troufa Real, desentenderam-se. Em 2011, o projectista queixou-se das alterações ao projecto, feitas alegadamente sem o seu consentimento. “É uma vergonha”, afirmou ao PÚBLICO, considerando que as mudanças à versão inicial iriam transformar o edifício “num paliteiro sem segurança estrutural”. Agora, não foi possível obter um comentário do arquitecto sobre o resultado final.  

A Câmara de Oeiras, que cedeu o terreno de 2600 metros quadrados situado junto ao Dolce Vita de Miraflores e pagou um terço da obra (no total foram gastos 3,1 milhões de euros), remete explicações sobre a suspensão dos trabalhos para a paróquia. Esta, por seu lado, fecha-se em copas. “Não fazemos comentários”, afirmou o responsável pelos contactos com a imprensa.

Em 2011, o pároco Daniel Henriques admitiu ao PÚBLICO que quis tornar a obra mais leve e mais barata mas negou que isso tenha comprometido a segurança do imóvel.

Segundo a autarquia, as alterações “traduzem-se essencialmente na ampliação do corpo do centro pastoral dedicado à biblioteca, por iniciativa do promotor”. Mas não é só. O exterior da igreja era para ser revestido a azulejos, em vários tons de branco, executados por Querubim Lapa. Também isto caiu por terra.

“A paróquia quis forrar aquilo tudo com placas de cimento pré-fabricadas, mas eu disse que não havia possibilidade de colocar aí os azulejos” porque iriam “perder elasticidade”, explica o mestre. Depois disso, “o arquitecto zangou-se com o padre e abalou para Angola e eu nunca mais pensei na igreja de Miraflores”, afirma, adivinhando que o resultado final “não terá nada a ver com o Troufa Real”.

A polémica gerada em torno do projecto da igreja de Miraflores – no início houve até quem a comparasse a um “supositório” – foi menor do que a que rodeou a "igreja-caravela" do Restelo, do mesmo autor. Para o arquitecto Jorge Figueira, o templo dedicado à Santíssima Trindade “parece mais prudente e contido” do que o outro, cujo orago é S. Francisco Xavier. No entanto, “mesmo com as alterações que a paróquia introduziu é extraordinário que se continue a construir igrejas com este carácter ‘escandaloso’ no nosso actual contexto”, acrescenta Figueira.

Segundo a descrição de Troufa Real, a “igreja-foguetão” baseia-se no "infinito como horizonte do Homem”. Daí que a torre sineira (ainda sem o sino instalado) atinja os 30 metros de altura. A cobertura em vidro transparente permite a entrada de luz natural na nave, um espaço em circunferência, de paredes curvas, com capacidade para 400 pessoas.

Na parede atrás do altar, todo ele em mármore branco imaculado, existe um vitral em vários tons de azul. São vidros lisos e simples, sem os tradicionais desenhos que evocam cenas da Bíblia. Entre o altar e o vitral foi colocado um painel inspirado na obra do pintor russo Andrei Rublev, que representa as três personagens divinas - Pai, Filho e Espírito Santo - às quais o templo será dedicado esta tarde. A cerimónia vai ser conduzida pelo Cardeal Patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente. O arquitecto Troufa Real está na lista de convidados.