Torne-se perito

Detenção de sete responsáveis da FIFA tem como alvo futebol na América Latina

Justiça norte-americana acusa 14 pessoas de corrupção, entre elas nove altos responsáveis da FIFA. América Latina está no centro das atenções, mas investigações atingem Mundiais na Rússia e Qatar.

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Eugenio Figueredo é vice-presidente da FIFA e presidente interino da Conmebol Jorge Adorno/Reuters
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Jeffrey Webb é vice-presidente da FIFA, membro do conselho executivo e ainda presidente da Concacaf Joe Klamar/AFP
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Eduardo Li é presidente da Federação de Futebol da Costa Rica, membro eleito do conselho executivo da FIFA e ainda membro do comité da Concacaf Juan Carlos Ulate/Reuters
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Rafael Esquivel é o presidente da Federação Venezuelana de Futebol e membro do comité executivo da Conmebol Jorge Silva/Reuters
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Nicolás Leoz, à direita de Blatter, é o presidente da Conmebol e antigo membro do comité executivo da FIFA Juan Mabromata/AFP
A FIFA disse estar a esclarecer o sucedido e não fez mais comentários
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A FIFA disse estar a esclarecer o sucedido e não fez mais comentários Michael Buholzer/AFP
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Jack Warner é ex-vice-presidente da FIFA e ex-presidente da Concacaf Luis Acosta/AFP
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José Maria Marin é ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol e faz parte do comité que, na FIFA, organiza torneios olímpicos de futebol Jorge Adorno/Reuters

Sete altos responsáveis da FIFA foram detidos na madrugada desta quarta-feira em Zurique, na Suíça, na sequência de uma investigação norte-americana que põe em causa as actividades do órgão máximo do futebol na América Latina. Esta operação coincidiu com uma segunda investigação distinta, mas lançada também nesta quarta-feira. Esta segunda operação tem em vista suspeitas de ingerência e lavagem de dinheiro nas organizações dos próximos Mundiais de futebol, em 2018, na Rússia, e em 2022, no Qatar.

Horas depois das detenções, o Departamento de Justiça norte-americano anunciou que o que está em causa é um alegado esquema de corrupção entre dirigentes da FIFA e empresas de marketing desportivo. Supõe-se que o esquema dure há cerca de 20 anos. Foram formalizadas acusações de burla e corrupção contra 14 pessoas, entre elas nove actuais e antigos dirigentes da FIFA e cinco executivos de empresas de promoção de eventos desportivos. 

As operações tiveram lugar na véspera da conferência anual da FIFA e a dois dias das eleições para o cargo de presidente do órgão. Joseph Blatter, que ocupa a presidência da FIFA desde 1998, candidata-se a um quinto mandato consecutivo na sexta-feira. E, como é habitual, é o grande favorito. Reagindo aos acontecimentos desta quarta-feira, o porta-voz da FIFA garantiu que as eleições decorrerão como o planeado e que os Mundiais de futebol na Rússia e Qatar não estão em causa.

Há grandes nomes do futebol internacional entre a lista dos acusados e a maioria está envolvida nas organizações Concacaf, a confederação de associações de futebol da América do Norte, Central e Caraíbas, e na Conmebol, da América do Sul. No início da tarde, a sede da Concacaf, nos Estados Unidos, foi alvo de buscas pela polícia norte-americana.

Um dos nomes maiores é o de Jeffrey Webb, natural das ilhas Caimão e um dos dois vice-presidentes da FIFA acusado de corrupção e burla. Webb é também o presidente da Concacaf.  A ele junta-se na lista dos acusados Jack Warner, o seu antecessor nesse cargo.

Entre os altos responsáveis da FIFA visados nesta operação estão também o uruguaio Eugenio Figueredo, vice-presidente da FIFA e membro da associação de futebol do Uruguai; Eduardo Li, presidente da Federação de Futebol da Costa Rica; José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol; e Rafael Esquivel, presidente da Federação de Futebol da Venezuela.

Quatro dos 14 visados pelo processo nos Estados Unidos já se declararam culpados. Estes indivíduos terão contribuído para as investigações das autoridades norte-americanas através de acordos de delação. O nome mais destacado é o de Chuck Blazer, ex-membro do comité executivo da FIFA, que já no passado denunciara irregularidades no interior do órgão e contribuiu para investigações que visaram, entre outros, Joseph Blatter. 

A procuradora-geral dos Estados Unidos, Loretta Lynch, disse nesta quarta-feira que a investigação norte-americana desvendou uma prática de "corrupção que é galopante, sistémica e enraizada". "Envolve pelo menos duas gerações de responsáveis futebolísticos, que, como é alegado, abusaram das suas posições de confiança para adquirirem milhões de dólares em subornos", disse ainda.

Na sequência do segundo processo criminal, que investiga alegadas redes de lavagem de dinheiro nas organizações dos campeonatos do mundo na Rússia e Qatar, as autoridades suíças fizeram buscas à sede da FIFA, também em Zurique. De acordo com as autoridades, foram retirados "dados electrónicos e documentos" do edifício. 

Blatter está calmo
Joseph Blatter, que desde 1998 ocupa a presidência da FIFA, organismo que há décadas vive sob suspeitas de corrupção, não está ainda totalmente ilibado. Apesar de não ter sido acusado em qualquer um dos dois processos, as investigações ainda não terminaram. 

Mas as operações policiais não parecem ter afectado Blatter. A FIFA diz que este reagiu aos acontecimentos desta quarta-feira com calma e que mantém a candidatura àquele que deverá ser o seu quinto mandato como presidente do órgão máximo do futebol.

As suspeitas de corrupção apontam para que representantes de empresas de desporto tenham estado envolvidos em esquemas de pagamento a responsáveis do futebol, que incluem delegados e outros funcionários da FIFA. Os montantes em causa ascendem a mais de 150 milhões de dólares. 

“Em troca, suspeitamos de que terão recebido direitos de media, marketing e patrocínios com ligação a campeonatos da América Latina”, indica o Ministério Público da Suíça num comunicado citado pela Reuters. “De acordo com o pedido americano [de extradição], estes crimes foram combinados e preparados nos EUA, e os pagamentos feitos através de bancos americanos.”

“Ficámos impressionados pela forma como isto decorreu durante tanto tempo e como toca quase tudo o que a FIFA fez”, disse um responsável pela investigação ao New York Times. “Parece permear todos os elementos da federação e ser simplesmente a sua maneira de fazer negócios. Parece que a corrupção era institucionalizada.”

Os detidos vão agora ser questionados pela polícia de Zurique e enfrentam pedidos de deportação para os Estados Unidos. As autoridades suíças podem decretar imediatamente a extradição dos suspeitos através de um processo simplificado, se estes concordarem com a extradição. Caso se oponham, os EUA terão de a pedir formalmente dentro de 40 dias.

A FIFA reúne-se nas vésperas da eleição do presidente da FIFA, marcada para na sexta-feira, e que deverá resultar numa reeleição confortável de Blatter contra o príncipe da Jordânia Ali bin Al Hussein. O ex-jogador português Luís Figo chegou a anunciar a sua candidatura, mas retirou-a na semana passada.

Figo justificou a decisão com episódios “que devem envergonhar quem deseja um futebol livre, limpo e democrático”. Descreveu a eleição como “um plebiscito de entrega do poder absoluto a um só homem”, numa referência a Blatter, que concorre a um quinto mandato consecutivo.

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