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O râguebi como desporto de massas e criação de líderes

Há que motivar todos os amantes da modalidade que têm influência nos meios políticos e empresariais para lhe garantir um maior apoio

O râguebi pratica-se em 94 países por 2,5 milhões de praticantes e determinadas competições do râguebi em alguns países ficam esgotados com grande antecedência e largas dezenas de milhar de adeptos fazem turismo para o país local da competição, seja na Nova Zelândia, na Austrália, no Reino Unido, na Irlanda, em França ou na África do Sul.

 

Os seus expoentes formaram-se na sua prática e internacionalmente jogaram râguebi o actor Richard Burton, que foi asa no País de Gales e disse que era “um ballet, ópera e bloody murder”. O dono da multinacional Heinz, Tony O’Reilly foi uma estrela da Irlanda nos anos 60 e 70, Ernest Rutheford, o Nobel da Física que separou o átomo, jogava como segunda linha num clube e na universidade, como jogaram o presidente francês Jacques Chirac e os antigos comissários europeus Neil Kinnock e Peter Sutherland. Na sua juventude, Che Guevara foi médio de formação e lançou na Argentina uma revista de râguebi: Tackle. Jacques Chaban-Delmas, primeiro ministro de França nos anos 60, foi internacional francês logo no pós II Guerra Mundial.

 

Em Portugal são vários os exemplos de antigos jogadores de râguebi que atingiram sucesso empresarial e, em alguns casos, presença política de relevo.

 

Segundo John McMillan no texto que se segue diz que os jogadores e treinadores de râguebi são teóricos do jogo dado que a sua essência é o pensamento estratégico de antecipar as reacções dos oponentes ao decidir as próprias actuações no campo de jogo segundo um primado do livro “The Complete Rugby Footballer”, de Dave Gallaher e Billy Stead de 1905. A estratégia mudará consoante a força do adversário procurando enganá-lo usando estratégias mistas e inovando com engenhosidade. A teoria do jogo evolui e existem textos com a sua história e filosofia de jogo, como livro de Peter Fitz Simons “The Rugby War”, publicado em 1996, ou o artigo de Dorian Owen e Clayton Weatherston, “Profissionalization and Competitive Balance in New Zealand Rugby Union” inserido no livro de R. Fort e J. Fizel “International Sports Economics Comparisons”.

 

Do ponto de vista organizativo, até 1995 o râguebi oficialmente é amador embora em alguns países (França e África do Sul) os jogadores recebiam já pagamentos extra-oficiais que as autoridades da modalidade não reconheciam. A hipótese de formação de uma liga profissional à margem das estruturas formais do râguebi levou à decisão, em Agosto de 1995, da Federação Internacional, a então designada Internacional Rugby Football Board (IRFB), de abrir a competição ao profissionalismo. As transmissões televisivas a partir dos anos 90 da televisão australiana, de Kerry Parker, e outra concorrente, de Rupert Murdock, forneceriam os recursos necessários à criação da liga rival. A IRFB tarde se apercebeu do movimento do Hemisfério Sul.

 

Os principais países do Hemisfério Norte, Inglaterra, França, Escócia, País de Gales e Irlanda não se entendiam quanto aos direitos televisivos e estavam em vias de destruir o Torneio das Cinco Nações. As transformações estenderam-se rapidamente ao interior dos campeonatos nacionais e das selecções dos países com melhor râguebi e o exemplo da Nova Zelândia surge em que os membros da New Zeland Rugby Union são eleitos pelas organizações provinciais e continua a organizar a selecção nacional e as competições nacionais. O foco é mantido no equilíbrio da procura da selecção nacional com as competições provinciais e as dos clubes em que a selecção nacional é prioritária. Com a profissionalização as receitas da federação neozelandesa de 1995 a 2000 cresceram mais de cinco vezes. Em 1995 eram pequenas, mas em 2000 representavam já 90% da receita total.

 

O râguebi português teve um desenvolvimento muito significativo na primeira década do século XXI com a performance das selecções nacionais de XV e sevens dirigidas por Tomaz Morais que, aproveitando a acumulação de valor dos anos anteriores, com o o surgimento de jogadores de um nível elevado aliada às condições de liderança e à concepção do jogo adequada às características nacionais, conseguiram resultados que poucos julgariam atingíveis e que as condições de que o râguebi dispunha não o justificariam.

 

Hoje, Portugal tem uma posição intermédia em XV e nos sevens. Apesar de se encontrar, nos sevens, no grupo das quinze melhores selecções mundiais, necessita de evoluir para aspirar a uma participação nos Jogos Olímpicos e manter sustentadamente performances no mundo do râguebi mais competitivo. A determinação e engenhosidade dos atletas portugueses já demonstrou ser capaz, especialmente nos sevens, de alcançar resultados de excelência. Para que isso seja possível precisa de ganhar peso e experiência, o que se poderá obter com uma melhor organização e uma resposta nacional mais alargada.

 

Para que isso seja possível há que motivar todos os amantes do râguebi que têm influência nos meios políticos e empresariais para lhe garantir um maior apoio, proporcionando os meios que possibilitem melhores condições de prática aos jogadores, quer apoiando-os financeiramente, quer facilitando as melhores condições para o treino e a prática. E por outro lado promover a imagem do râguebi como desporto de expansão mundial e dotado de valores que são essenciais para um desenvolvimento humano equilibrado.

 

Nota: A informação deste artigo sobre o rugby mundial foi retirado do artigo de John McMillan, Rugby:  Strategy and Structure, publicado em 2006 no livro de Wladimir Andreff e Stefan Szymanski chamado Handbook on the Economics of Sport publicado pela editora Edward Elgar.