Reportagem

O que se disse à saída do exame de Português? "Foi fácil!"

A secundária Vergílio Ferreira foi nesta segunda-feira de manhã "invadida" por mais de 200 alunos do 4.º ano que foram ali realizar a prova final de Português. Mas também houve aulas para os mais crescidos.

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Para os alunos do 4.º ano hoje foi dia de exame de Português; segue-se Matemática, na quarta-feira Mara Carvalho
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João Pedro enverga uma t-shirt com o emblema do Benfica. O “campeão” acompanhou-o na prova final de Português do 4.º ano, realizada nesta segunda-feira de manhã por 95358 alunos.O ministério tinha falado em cerca de 103 mil, mas o número de inscrições foi inferior: 95358. Faltaram à prova 476 alunos.

“Primeiro vi o jogo e depois fui estudar”, conta ao PÚBLICO sobre o dia de ontem. A avó, que o espera à porta da escola secundária Vergílio Ferreira, em Lisboa, rectifica: “Também estudou antes do Benfica. Teve de ser.” 

E a prova correu bem? A resposta de João Pedro é igual à de muitos outros dos seus colegas. “Sim! Foi fácil.” A secundária Vergílio Ferreira é a escola sede do terceiro maior agrupamento do país. Esta manhã, na escola dos crescidos, estavam também 253 alunos do 4.º ano para fazerem o seu primeiro exame.

Vieram das seis escolas do 1.º ciclo que integram o agrupamento, foram acompanhados pelos seus professores até às salas onde decorreu a prova. Lá dentro, a vigiar os exames estavam professores do 3.º ciclo e do secundário. É uma das regras dos exames nacionais: não podem ser vigiados por professores da disciplina avaliada. No 1.º ciclo isto significa que nenhum docente deste nível de escolaridade pode estar dentro das salas de exame.

“No início estavam muito tensos. Para eles isto representa uma carga emocional pesada, mas no intervalo já estavam com um ar mais solto. Diziam que a prova era mais simples do que esperavam”, descreve Vilma Eusébio, professora do 4.º ano na Escola Básica de Telheiras, uma das que integram o agrupamento Vergílio Ferreira, onde também é coordenadora do 1.º ciclo. Esta manhã teve 21 dos seus alunos na prova de Português. 

“Às vezes, quando dizem que correu muito bem, até trememos por dentro”, comenta, lembrando que para realizarem a prova os alunos têm também de “ter uma grande capacidade de concentração, o que é difícil nesta faixa etária”. Por não poder ter acesso às salas de exame, Vilma Eusébio só viu a prova de Português já depois de a maior parte dos alunos ter abandonado a escola.

“Pareceu-me uma prova acessível. Tinha um texto informativo e outro narrativo, com um excerto de O Rouxinol, de Hans Christian Anderson, uma das obras que trabalhamos”, diz antes de seguir a pé com dois dos seus alunos para a escola de Telheiras.

O exame de Matemática é já na quarta-feira e hoje, no agrupamento, todos vão ter aulas à tarde. Para a maior parte, o transporte entre escolas foi assegurado por pais ou avós. São dezenas os que esperam pelo fim da prova no hall de entrada da Vergílio Ferreira. O exame começou às 9h30, mas os alunos só saem ao meio-dia (houve um intervalo de 15 minutos e tolerância para acabar a prova de mais outros 30). De repente, é como se os mais novos estivessem a chegar de uma viagem, eles olhando para baixo à procura de quem veio buscá-los; os pais a perscrutar a galeria cimeira ao hall, pescoços esticados, mãos a acenar. Trocam-se abraços, beijos e uma mesma mensagem: “Correu bem!”

Megaoperação logística
Rafael também o diz, embora acrescente depois que havia na prova algum vocabulário que ainda não tinha aprendido. “Mas como estava lá explicado o que queria dizer, fiquei a saber hoje o que era”, remata. Pouco antes, Francisco informara que conhecia o texto da prova. Ontem esteve a fazer um teste parecido para treinar. “Para tirar teimas”, precisa a mãe, que desabafa depois: “Tudo isto acaba por ser uma grande complicação. Tive de tirar férias para poder vir trazê-lo e buscá-lo e o mesmo vai acontecer na quarta-feira. Foi a escola que pediu a colaboração dos pais.”

Vilma Eusébio confirma. Assegurar transportes entre escolas tornaria ainda mais difícil esta megaoperação logística em que os exames do 4.º ano se transformaram desde o seu início, em 2013, com a obrigação imposta pelo Ministério da Educação e Ciência de os alunos os realizarem nas escolas-sede dos agrupamentos. Segundo o MEC, só assim se asseguram as condições de segurança e equidade que devem presidir a este tipo de avaliação.

“Terem de ir a outra escola é uma mudança para eles, o que acaba por ser sempre perturbador. Tentamos reduzir este impacto, não dando grande relevância ao caso, mas quando chegam vê-se que estão apreensivos”, relata Vilma Eusébio. Ao intervalo, o estado de espírito já é outro: “São crianças, não resistem a começar a explorar o espaço e também se sentem apoiados porque todos os seus professores estão ali no recreio, com eles. Somo nós que temos de ajudar nas idas à casa de banho, nas distribuições do lanche da manhã.”

Devido a esta transferência dos alunos mais novos para as escolas-sede dos agrupamentos, em muitas destas as aulas são suspensas nos dias da prova. Não foi o que aconteceu na secundária Vergílio Ferreira. “Conseguimos manter as aulas das disciplinas que têm exames do 9.º, 11.º e 12.º ano”, esclareceu a directora, Gertrudes Coutinho. Afinal, o dia de hoje é só o primeiro de uma longa jornada de exames que só terminará em Julho.

Notícia corrigida às 19h45. Alterado número total de estudantes que realizou a prova.