Noam Chomsky, linguista, filósofo, activista político, fez casa cheia em Lisboa

O celebérrimo cientista norte-americano, “pai” da linguística moderna, participou num congresso sobre o papel das ciências sociais e humanas na sociedade e no conhecimento.

Noam Chomsky durante a sua palestra na Fundação Calouste Gulbenkian
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Noam Chomsky durante a sua palestra na Fundação Calouste Gulbenkian Pedro Elias

A fila começa no átrio e prolonga-se pela escadaria até ao andar de baixo. Dezenas de pessoas esperam para saber se vão conseguir entrar no auditório ou se terão de ficar a ver o conferencista que se segue num ecrã instalado cá fora.

O que levou tantos jovens e menos jovens, estudantes, cientistas e público em geral à Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, nesta sexta-feira à tarde? A perspectiva de ouvirem ao vivo e em directo um dos mais famosos cientistas do mundo, o linguista Noam Chomsky.

De pé perante uma sala à cunha, Chomsky, com 86 anos de idade, fez uma espécie de aula-relâmpago, recheada de referências a pensadores mais e menos conhecidos, sobre a evolução do pensamento científico, filosófico e político do Renascimento até à modernidade. E assim fazendo, falou também do seu envolvimento, ao longo de várias décadas, por estas três áreas do conhecimento.

Da linguística às ciências cognitivas, da física ao darwinismo, das lutas sociais às desigualdades crescentes na sociedade actual, Chomsky abordou uma série de temas, numa espécie de síntese – talvez não totalmente clara para uma parte do seu auditório – da evolução do seu próprio pensamento. E apesar de não ter apresentado nenhum PowerPoint e ter lido o seu texto – numa voz algo monótona e com aparente cansaço – do início ao fim, foi brindado com um aplauso entusiasta quando concluiu a sua intervenção.

A conferência de Chomsky estava inserida no congresso No coração do mundo – Ciências em rede no mundo global, organizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (UNL) e pelas faculdades de Letras das universidades de Lisboa, Coimbra e Porto. Intitulava-se Interpretar o mundo – Mudar o mundo.

Interpretar o mundo é “uma meta muito mais modesta do que conhecer e perceber o mundo”, começou por dizer Chomsky. Isto porque hoje temos de reconhecer que “a nossa compreensão do mundo nunca poderá estar à altura do que pretendiam os pais da ciência moderna" – Galileu, Descartes, Newton... “A natureza tem segredos que ficarão para sempre na escuridão”, acrescentou, dando como exemplo, entre outros, a incerteza inerente à física quântica, que “só serviu para revelar ainda mais os limites da nossa compreensão do mundo”.

Existem, isso sim, “ilhas de conhecimento”– e uma delas foi a redescoberta, nas últimas décadas, de que os estados mentais são fenómenos naturais, causados pela actividade de redes de neurónios no cérebro. Uma “redescoberta” e não uma descoberta, diz Chomsky, porque a ideia de que “o pensamento é uma propriedade da matéria organizada” remonta a finais do século XVIII. Mas apesar disso, a nossa “utilização criativa” da linguagem, essa capacidade exclusivamente humana de inventar um sem-fim de frases a partir de um número limitado de componentes, “permanece misteriosa”.

“Chomsky é considerado o ‘pai’ da linguística moderna porque foi ele que inseriu a linguística nas ciências cognitivas”, explicou ao PÚBLICO João Costa, do Centro de Linguística da UNL (que convidou Chomsky a participar no congresso), a seguir à conferência. “E ao dizer que a linguagem é uma componente biológica autónoma do nosso organismo, ele causou uma ruptura de paradigma que nos deu a capacidade de estudar a linguagem de forma pura.” Ou seja, de criar frases no laboratório para estudar o “comportamento” da língua como se de um organismo vivo se tratasse.

Na segunda parte da sua palestra, Chomsky passou sem transição para uma reflexão sobre como mudar o mundo para reduzir as desigualdades sociais, sobre “como organizar a sociedade para garantir o bem comum” – isto é, uma vida decente para todos e o respeito dos direitos humanos.

Primeiro, evocou pensadores do Século das Luzes como Adam Smith, que pensavam que os seres humanos eram intrinsecamente generosos e que, por isso, os mais ricos iriam distribuir a sua riqueza pelos mais necessitados – “algo que não correu exactamente como previsto”, ironizou.

Falou dos Estados Unidos, “o país mais poderoso e mais livre da história do mundo e ao mesmo tempo um dos mais retrógrados em termos do acesso à saúde, a par da Turquia e do México”; e ainda da “globalização neoliberal, que pretende limitar o desenvolvimento humano”. E terminou defendendo uma “forma razoável de aproximação ao bem comum”: as ideias libertárias. “Em meados do século XIX nos EUA, os trabalhadores não faziam greve apenas para ter pão, mas também pelos seus direitos enquanto homens e mulheres livres”, rematou.