Abate de árvores no Jardim Cesário Verde em Lisboa motiva protestos

Presidente da junta de Arroios garante que árvores "doentes" vão ser substituídas e lembra que só este ano já plantou 70 novas árvores na freguesia.

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No jardim foram sinalizados cinco lódãos para abate e mais 16 para poda Daniel Rocha

A junta presidida por Margarida Martins, eleita pelo PS, adjudicou por 25 mil euros (mais IVA) à empresa Sequóia Verde a prestação de serviços de arboricultura. A empresa ficou responsável pela análise do estado fitossanitário das árvores nas ruas e jardins da freguesia e, segundo a autarquia, num universo de 452 exemplares já inspeccionados foram detectados 43 com "defeitos considerados críticos", como podridão ou instabilidade das copas, apontando o abate como única solução.

Só no Jardim Cesário Verde, na Estefânia, foram identificados cinco lódãos para abate e mais 16 para poda e limpeza. As operações começaram na semana passada para surpresa de alguns moradores e de outros cidadãos indignados com o processo. “É obrigatório avisar a população 15 dias antes e explicar os motivos da intervenção, mas não foi colocado nenhum aviso sobre o abate”, garante Luís Marques da Silva, morador na zona e membro do Fórum Cidadania Lisboa.

“Os moradores acreditam que há interesses económicos por detrás”, acrescenta António Pinto Soares, da Associação Lisboa Verde, que pediu a suspensão dos trabalhos e esteve nesta segunda-feira no jardim a tentar parar os últimos dois abates programados. Os contestatários têm “dúvidas” sobre o rigor da avaliação feita pelos técnicos da Sequóia Verde, uma vez que esta é a mesma empresa encarregue do tratamento e abate das árvores.

"Não me choca que a mesma empresa seja incumbida de fazer o estudo das árvores e depois as intervenções, até para a responsabilizar", comenta António Fabião, professor do Departamento de Engenharia Florestal do Instituto Superior de Agronomia. Sobre o facto de as podas estarem a ser feitas na Primavera, outra crítica apontada pelos cidadãos, Fabião explica que "as podas pouco intensas podem ser feitas em qualquer altura do ano, nomeadamente nesta altura, porque as árvores respondem mais rápido". E lembra: "nem todas as doenças se podem tratar, e quando podem o tratamento sai muito caro, é preciso ser muito criterioso."

Luís Marques da Silva lembra ainda que no jardim existe uma árvore classificada, um cedro-de-atlas, para a qual está definido um perímetro de protecção de 50 metros. “Estive a medir e todas as árvores abatidas estão a menos do que 50 metros, estarão a ser cumpridos todos os procedimentos de segurança?”, questiona, lamentando a ausência de supervisão por parte do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), ao qual comunicou a situação.

A presidente da junta refuta todas as críticas. Margarida Martins garante que foram colocados cartazes antecipadamente e que a empresa contratada é “idónea”, foi recomendada pela Câmara de Lisboa e pelo ICNF e "não obtém qualquer rendimento da madeira resultante dos abates". “Já tivemos árvores a cair sobre carros, não estamos a fazer isto de ânimo leve”, argumenta, sublinhando que o relatório da inspecção ao arvoredo está acessível no site da junta e que mesmo as árvores com "copas frondosas e vigorosas" escondem por vezes "riscos de ruptura elevados".

A autarquia esclarece, num comunicado, que a empresa aplicou o “Protocolo VTA (Visual Tree Assessment)”, para avaliar o estado das árvores, e usou o “método Risk Rating System2” para determinar a “probabilidade e gravidade de um eventual acidente” causado pela queda total ou parcial.

Sublinhando que “nenhuma das árvores abatidas é centenária”, Margarida Martins garante que o objectivo é substituir os lódãos “doentes” por novos exemplares, uma operação a cargo da junta. “Plantámos 70 árvores novas nos primeiros três meses deste ano e temos estado a podar e a requalificar os jardins”, afirma, dando como exemplo o jardim da Praça José Fontana e o do Campo dos Mártires da Pátria, onde nos últimos meses caíram três árvores apodrecidas.

Para Teresa Sampaio, que brincou no jardim durante a infância, e para a Associação Lisboa Verde, o problema está a montante, na reorganização administrativa de Lisboa, que transferiu para as juntas de freguesia a manutenção da maioria dos espaços verdes. Esta tarefa "deve ser estruturante, ou seja, deve haver uma orientação única a decidir o que é melhor para a cidade", defende a associação. "Cada junta de freguesia tem uma visão própria dos espaços verdes, do seu quintal, e deixa de haver uma visão integrada e estrutural", critica Pinto Soares.