Se a obra não avançar, autarquias abandonam sociedade Metro Mondego

Presidentes dos municípios de Coimbra, Lousã e Miranda do Corvo vão “analisar a situação” e acusam secretário de Estado dos transportes de ter “desaparecido do processo”.

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Adriano Miranda

Os autarcas dos três municípios envolvidos no projecto do Metro Mondego admitiram ontem abandonar a sociedade da qual fazem parte desde 1996. Na que foi a primeira assembleia-geral (onde, para além dos municípios e do accionista maioritário Estado, têm também assento CP e Refer) desde que o Governo anunciou, em Dezembro, o abandono do projecto inicial não se encontraram soluções para desbloquear a situação.

Perante o que entende ser uma “delonga absolutamente injustificada da entrada em operação do Sistema de Mobilidade do Mondego”, o presidente da autarquia de Coimbra, Manuel Machado, tal como os homólogos da Lousã e de Miranda do Corvo, admitiu que, “no limite”, pode acontecer uma “ruptura com a sociedade”. Os três autarcas socialistas concordam que “esta situação de inactividade não é tolerável”.

Machado acusa o Governo de protelar a situação da empresa, ao “bloquear o [seu] funcionamento”. O autarca considera que o “Plano de Actividades e Orçamento é minimalista”, pois apenas “dá para manter a empresa a funcionar”, mas não de acordo com os seus estatutos. Após a primeira assembleia geral da empresa desde 29 de Maio de 2014, o autarca sublinhou, à entrada da sede da sociedade, em Coimbra, os “graves prejuízos” causados pelo adiar de uma solução. Manuel Machado quer mesmo ser ressarcido pela empresa devido aos “danos que está a causar, em resultado da demolição de edifícios em centro histórico, classificado como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO” e consequente desertificação daquela zona.

Já o autarca de Miranda do Corvo, António Baptista, demonstra preocupação pelo facto de o novo estudo que o Governo pretende fazer poder vir “a colocar em causa o financiamento da solução — que se pretende que seja ferroviária”. Com parte do financiamento comunitário, a obtenção dessas verbas está dependente do calendário. “O Governo consegue chegar ao fim da legislatura sem clarificar o que pretende fazer”, lamenta.

Também o presidente do município da Lousã, Luís Antunes, aponta o dedo ao poder central, recordando o papel do secretário de Estado dos Transportes, Sérgio Monteiro. “Importa realçar que a reconfiguração do projecto foi feita por iniciativa deste Governo, com o acompanhamento do senhor secretário de estado”, afirma estranhando o que diz ser “o desaparecimento e a quebra do compromisso” por parte do governante. Contactado pelo PÚBLICO, o Ministério da Economia, que tutela a pasta dos transportes públicos, optou por não comentar.

Na reunião que decorreu durante pouco menos de duas horas e que contou com a presença de todos os accionistas, o último ponto da ordem de trabalhos — a eleição dos novos órgãos sociais — não se realizou. Manuel Machado referiu ainda que todos os documentos, à excepção do Relatório Societário relativo ao exercício de 2014, foram aprovados. O autarca atribuiu a não aprovação desse documento a “falta de interesse ou de tempo” do acionista Estado, uma vez que “o Governo determinou que esse relatório deveria ser refeito, após parecer de uma unidade que funciona obscuramente algures”.

As obras no Metro Mondego, que ligariam os três municípios através de uma estrutura ferroviária, foram iniciadas em 2009, interrompendo assim a centenária ligação de comboio entre Coimbra e Lousã. Desde então, a alternativa apresentada pela Metro Mondego aos utentes daquele percurso tem sido o transporte rodoviário, com recurso a autocarros. Nos separadores de previsão cronológica do site da empresa surge uma nota que esclarece que, “dada a situação financeira do país, a nova calendarização do projecto está a ser reformulada”. A sociedade existe desde 1996. O site da Metro Mondego não é actualizado desde 2013.


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