Pais de criança que morreu nos atentados de Boston opõem-se à pena de morte

Casal defende que Djhokhar Tsarnaev deve ser condenado a prisão perpétua sem possibilidade de recurso, para "desaparecer dos jornais e dos ecrãs das televisões".

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As explosões fizeram três mortos e 264 feridos Adrees Latif/Reuters

O julgamento dos atentados na maratona de Boston está a poucos dias de entrar na fase final, faltando apenas saber se o homem que foi considerado culpado será condenado à morte ou a prisão perpétua. Até agora, a execução por injecção letal era dada como certa, mas o tema voltou a ficar em aberto após um apelo da família mais afectada – os pais de um menino de oito anos que morreu nos atentados e de uma menina de sete que ficou sem uma perna pedem que a acusação desista da pena de morte.

No texto, publicado na primeira página do jornal The Boston Globe, Bill e Denise Richard lamentam o constante sofrimento por que têm passado desde que as bombas improvisadas por Djhokhar Tsarnaev e pelo seu irmão, Tamerlan, explodiram junto à linha de chegada da maratona, em Abril de 2013.

"Os últimos dois anos têm sido os mais dolorosos das nossas vidas. Chorámos, enterrámos o nosso filho, e aguentámos inúmeras cirurgias – tudo isto enquanto tentávamos reconstruir vidas que nunca mais voltarão a ser as mesmas", lê-se no texto.

Os argumentos da acusação a favor da pena de morte assentam em grande parte na tragédia familiar dos Richard – foi junto a eles que Djhokhar Tsarnaev deixou uma das mochilas com o engenho explosivo.

Martin, de oito anos, morreu na explosão, mas o pesadelo dos Richard não ficou por aí: a sua irmã, Jane, então com sete anos, perdeu a perna esquerda; Henry, de nove, assistiu ao terror do primeiro ao último segundo; a mãe, Denise, ficou cega de um olho; e o pai, Bill, foi atingido por estilhaços numa perna e a violência da explosão perfurou-lhe os tímpanos.

Mesmo assim, Bill e Denise Richard querem que Djhokhar seja poupado à pena de morte – ou, mais concretamente, que ele passe o resto da vida na cadeia, sem possibilidade de recorrer da sentença.

Na base do apelo do casal não está qualquer posição ideológica contra a pena capital, mas sim o desejo de pôr uma pedra sobre o assunto, algo que muito dificilmente poderá acontecer se Tsarnaev for condenado à morte. Os recursos que vão ser apresentados pela sua defesa vão obrigar Bill, Denise e os seus dois filhos a reviverem a tragédia sempre que tiverem de voltar a um tribunal  nos EUA, os condenadas costumam esperar mais de uma década no chamado "corredor da morte" até serem executados.

"Nunca poderemos substituir o que nos foi tirado, mas podemos continuar a levantar-nos todas as manhãs e lutar mais um dia. Enquanto o acusado estiver no centro das atenções, são os termos dele, e não os nossos, que ditam a forma como vivemos a nossa vida. Só quando o acusado desaparecer dos jornais e dos ecrãs das televisões é que poderemos começar a reconstruir as nossas vidas e a nossa família."

Os argumentos de Bill e Denise Richard podem não demover a acusação, mas podem influenciar a decisão do júri, apesar de cada um dos elementos ter instruções para não ler notícias sobre o caso.

"Cria uma profunda questão moral para a acusação. A acusação não representa as vítimas, mas deve abster-se de se basear no terrível homicídio do filho da família Richard para pedir a pena de morte?", questiona Daniel S. Medwed, professor de Direito na Universidade Northeastern, ouvido pelo The New York Times.

Numa primeira reacção, a procuradora norte-americana no estado do Massachusetts, Carmen M. Ortiz, disse que compreende o sofrimento da família, mas não deu qualquer indicação de que iria desistir da pena de morte para Djhokhar Tsarnaev.

"À medida que o caso se aproxima do fim, continuaremos a fazer tudo para proteger e exigir justiça para os feridos e para os que perderam a vida", disse a responsável, numa referência às outras duas vítimas mortais e aos 264 feridos que resultaram da explosão das duas bombas – um polícia foi morto e outros 16 ficaram feridos na perseguição a Djhokhar e Tamerlan, que também morreu nessa ocasião.

Djokhar Tsarnaev foi considerado culpado pelos 30 crimes de que é acusado, 17 dos quais são puníveis com a pena de morte – apesar de o estado do Massachusetts não aplicar a pena capital, os atentados em Boston foram tratados como um crime federal; por essa razão, se for condenado à morte, Djhokhar será executado na prisão de alta segurança em Terre Haute, no estado do Indiana.

A maioria dos habitantes de Boston é contra a pena de morte, e essa tendência não se alterou após os atentados de 2013 – uma sondagem da estação de rádio WBUR, realizada no fim-de-semana passado, mostra que 61% dos inquiridos defendem que Djhokhar Tsarnaev deve ser condenado a prisão perpétua, contra 26% a favor da pena de morte.

Outros familiares de vítimas têm defendido publicamente que Djhokhar não deve ser condenado à morte. Jennifer Lemmerman, irmã do polícia morto durante a perseguição, Sean Collier, escreveu na sua página no Facebook que sempre foi contra a pena capital e não mudou de opinião.

"Quando alguém fala contra a pena de morte, geralmente pedem-lhe que diga o que sentiria se um dos seus entes queridos fosse morto. Eu passei por essa experiência terrível e posso dizer que a minha opinião apenas saiu fortalecida", escreveu Lemmerman, citada pelo The Boston Globe – o jornal avança que a mensagem já não está visível no Facebook.

Mas também há muitos que defendem a pena de morte, como Liz Norden, que viu os seus dois filhos ficarem sem uma das pernas. "Quero justiça para os meus filhos", disse Norden no dia 8 de Abril, pouco depois de Djokhar Tsarnaev ter sido considerado culpado.

A última fase do julgamento arranca na terça-feira e poderá demorar um mês. Durante esse tempo, o mesmo júri que culpou Tsarnaev irá decidir se a sentença mais adequada é a prisão perpétua ou a morte por injecção letal, que é o único método de execução para punir casos federais.