Cannes 2015: o regresso de Todd Haynes, Gus Van Sant e Nanni Moretti

Mais títulos vão ser anunciados, nos próximos dias, para as várias secções da Selecção Oficial. Portugueses? Até ao lavar dos cestos é vindima, diz ao PÚBLICO Luís Urbano, o produtor de As Mil e uma Noites, de Miguel Gomes.

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Pierre Lescure e Thierry Fremaux na apresentação da programação
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O cartaz deste ano
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Carol, de Toddy Haynes
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Nanni Moretti em La Mia Madre
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O encontro entre Matthew McConaughey e Ken Wanatabe na base do Monte Fuji: The Sea of Trees, de Gus Van Sant
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La giovinezza, de Paolo Sorrentino
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Dois dias na vida de um Sonderkommando, o grupo de prisioneiros judeus que eram obrigados a assistir os nazis na máquina de extermínio: Le fils de Saul, um dos acontecimentos da competição
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The Lobsters, de Yorgos Lanthimos, com Colin Farrell, Rachel Weisz, Ben Whishaw, Léa Seydoux,
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Catherine Deneuve em La Tête haute, de Emmanuelle Bercot, filme de abertura
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The assassin, de Hou Hsiao Hsien: artes marciais, produção que se estendeu no tempo, com várias interrupções devido a problemas orçamentais

Com “noventa por cento” do elenco da próxima edição de Cannes fixada, e ainda com títulos a negociar para as várias secções da selecção oficial, Thierry Frémaux, delegado-geral do festival, acaba de anunciar em Paris Jacques Audiard, Matteo Garrone, Todd Haynes, Hou Hsiao Hsien, Nanni Moretti ou Gus Van Sant para o concurso, Woody Allen e a nova animação da Pixar, Inside Out, fora de concurso, os romenos Corneliu Porumboiu e Radu Muntean na secção Un Certain Regard...

Faltam ainda títulos, que virão a público nos próximos dias. Por isso mesmo... e portugueses? “Até ao lavar dos cestos é vindima”, diz ao PÚBLICO Luís Urbano, produtor de As Mil e uma Noites, o filme de mais de seis horas e em três capítulos de Miguel Gomes.

A abertura, a 13 de Maio, será feita, como já anunciado, com La Tête haute, de Emmanuelle Bercot, filme que tem Catherine Deneuve e Benoît Magimel, mas a que faltam os condimentos habituais do “filme de abertura” para servirem o tapete vermelho (a propósito: a direcção do festival promete "desacelerar" a prática “ridícula”, no tapete, do selfie, essa “photo de lui même avec lui même”).

Segundo Frémaux foi uma decisão muito vincada começar com esse filme e não, por exemplo, com Mad Max: Fury Road, de George Miller, com Tom Hardy, ou Irrational Man, de Woody Allen, com Joaquin Phoenix (que estão fora de concurso): para mostrar que Cannes pode perfeitamente abrir com um título que tem os condimentos da competição, os seus códigos e temáticas – neste caso, a delinquência juvenil, a educação. É a segunda colaboração de Deneuve com a cineasta, depois de Elle s’en Va, em 2013.

“Belle année française”, segundo Frémaux, foi complicado escolher, houve títulos que ficaram de fora – o novo de Arnaud Desplechin, Trois Souvenirs de ma jeunesse, poderá ser repescado. Vai ser então o regresso de Jacques Audiard à competição (Un héros très discret, com Mathieu Kassovitz, Un Prophète, com Tahar Rahim, De Rouille et d’os, com Marion Cotillard, foram presenças anteriores), que desta vez traz um filme sem vedetas, Erran, a aventura de um guerrilheiro Tamil em França, onde trabalha como porteiro; ainda Maïwenn (Prémio do Júri em Cannes 2011, com Polisse), agora com Mon Roi, que tem como actriz principal Emmanuelle Bérco, a realizadora do filme de abertura, La Loi du Marché, de Stéphane Brizé, com Vincent Lindon, e Marguerite et Julien de Valerie Donzelli e Macbeth do australiano Justin Kurzel, com Michael Fassbender e Marion Cotillard.

A propósito de regressos, dois vendedores da Palma de Ouro poderão habilitar-se a entrar para o clube dos duplamente premiados com o galardão máximo: Nanni Moretti, com Mia Madre (ainda as dúvidas criativas de um cineasta em crise), Gus Vant Sant com The Sea of Trees, sobre o encontro entre um americano que se quer suicidar (Matthew McConaughey) e um, igualmente perdido, japonês (Ken Wanatabe), os dois na base do Monte Fuji.

E se se fala em regresso, ei-lo, Todd Haynes, prémio da melhor contribuição artística a Velvet Goldmine na já longínqua edição de Cannes 1998, compete com Carol, com Cate Blanchett e Rooney Mara. É história de amor entre duas mulheres na Nova Iorque dos anos 50.

Moretti não é o único italiano, a ofensiva é intimidante: Il racconto dei racconti, de Matteo Garrone, e La giovinezza, de Paolo Sorrentino, filme sobre a velhice (como A Grande Beleza era um filme sobre a fealdade) com Michael Caine, Jane Fonda, Harvey Keitel. E eis os asiáticos: The assassin do taiwanês Hou Hsiao-Hsien (filme de artes marciais - ou a forma como Hou interpreta o género, tal como Wong Kar-wai o interpretou em Ashes of Time, e tal como no caso do cineasta de Hong Kong a produção arrastou-se por vários anos, com interrupções por problemas orçamentais); Mountains May Depart de Jia Zhangke (a China contemporânea, de novo, depois de A Touch of Sin); Notre Petite Soeur de Hirokazu Kore-Eda.

The Lobsters de Yorgos Lanthimos, Le fils de Saul de Laszlo Nemes, Louder Than Bombs de Joachim Trier (Oslo, August 31st), com Isabelle Huppert, Sicario de Denis Villeneuve, completam a lista dos 16 títulos anunciados -  a selecção poderá chegar aos 20 nos próximos dias. Vão ser apreciados por um júri presidido pelos irmãos Joel e Ethan Coen e nos próximos dias serão também anunciados os restantes jurados. O grego Lanthimos, o realizador do intrigante Alpeis (2011), com o seu grupo de personagens profissionais em fazerem-se passar por quem já morreu para ajudar ao luto dos familiares, foi destacado por Frémaux: The Lobsters será um dos casos misteriosos do certame ("o género de filmes em que não se compreende tudo”); agora os humanos são transformados em animais.

E já deixou de ser um segredo dos seleccionadores que um dos acontecimentos da competição vai ser o filme do húngaro Laszlo Nemes, assistente de Béla Tarr. O seu filme conta dois dias na vida de um Sonderkommando, o grupo de prisioneiros judeus obrigados a assistir os nazis na máquina de extermínio.

Yorgos Lanthimos, Laszlo Nemes, Joachim Trier, Valerie Donzelli, Emmanuelle Bercot... é com eles, talvez, que Cannes 2015 quer "formular hipóteses", fazer nascer, com a selecção oficial, "uma esperança", palavras de Frémaux em jeito de editorial.

O cartaz desta edição, Ingrid Bergman, o seu sorriso, o branco e o azul, é uma criação de Hervé Chigioni, convidado de novo pela organização do Festival depois de ter trabalhado, na edição do ano passado, sobre a imagem de Marcello Mastroianni, os seus óculos escuros, a sua ironia, no 8 ½ . Isabella Rossellini, filha de Ingrid e de Roberto Rossellini, presidirá ao júri da secção Un Certain Regard, onder estão seleccionados os romenos The Tresaure, de Corneliu Porumboiu, e One Floor Below, de Radu Muntean. Participará numa sessão de homenagem à mãe que incluirá a exibição do documentário de Stig Björkman Ingrid Bergman — In Her Own Words.