Alessandro Bianchi/Reuters
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A Europa dos mortos-vivos

As 400 pessoas que morreram juntam-se às mais de 3.400 que morreram em 2014 à deriva para Lampedusa, transformando o Mediterrâneo na rota mais mortífera do mundo e num autêntico cemitério civilizacional

Mais 400 pessoas morreram no Mediterrâneo. Outra vez. Chamam-lhes imigrantes ilegais, mas nenhum ser humano é ilegal. Na verdade, eles são refugiados. Partem de muitos lados: Síria, República Centro-Africana, Mali, Líbia, Guiné-Bissau, Marrocos, Senegal, Sudão, Eritreia. Só podemos imaginar as tragédias que transportam dentro de si, ou talvez nem isso.

Muitos fazem centenas de quilómetros pelos perigos do deserto e saem sempre a salto dos seus países até chegarem aos portos de mar dos traficantes de carne humana, viva.

Fazem-no por desespero mas com uma imensa esperança porque a Europa é o único ponto de fuga à desgraça em que nasceram e que os rodeia: ditaduras, pobreza, Estados falhados.

As 400 pessoas que morreram – 400, o número normaliza e nunca iremos conhecer o seu rosto, o que deixaram para trás e o que deixam por cumprir – juntam-se às mais de 3.400 que morreram em 2014 à deriva para Lampedusa, transformando o Mediterrâneo, o mar de tantas civilizações, na rota mais mortífera do mundo e num autêntico cemitério civilizacional.

É que nós não os vemos, mas sabemos. Lançados em pequenos botes de borracha fina, quase de brincar, eles estão subitamente num espaço ínfimo e infecto, com mais 400 a 500 pessoas esmagadas com medo, com fome, com doenças, novos e velhos, mulheres grávidas, todos. Só têm a roupa do corpo e a certeza de que não regressam.

Outros tentam ainda passar pelos enclaves terrestres de Ceuta e Melilla. Se chegam a solo europeu são devolvidos a Marrocos para serem maltratados e deportados, sem hipótese de pedirem asilo.

E nós, europeus? Indiferentes. Deliberadamente ignorantes. Não queremos perturbar em demasia as nossas vidas, mas essa indiferença é o nosso verdadeiro naufrágio ético e moral.

Por isso, do lado de cá, sob a protecção das fronteiras do que foi outrora uma civilização que vira a cara aos corpos sepultados no Mediterrâneo, impõe-se uma questão: quando é que os europeus ficaram assim, mortos-vivos?