Entrevista

Regula, o "Toni do Rock" dos Olivais

Linguagem vernacular, batidas hip-hop, imaginário algures entre Los Angeles e os Olivais, e Tiago Lopes, o barbeiro, também conhecido como Regula, Don Gula, ou Toni do Rock, está aí para dar que falar. O seu novo álbum chama-se Casca Grossa e já se encontra à venda numa barbearia perto de si.

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Regula, aliás Tiago Lopes, acaba de abrir uma barbearia nos Olivais, o seu bairro de sempre: “Até posso dar um grande salto, mas nesse caso faço uma vivenda aqui” Rui Gaudêncio

Abriu há apenas uma semana mas o passa-a-palavra nos Olivais, um dos bairros de Lisboa, já começou. Tiago Lopes, mais conhecido por Regula, abriu uma nova barbearia na zona.

Chama-se Pente Fino e para além do corte-de-cabelo, proporcionado pelo próprio, também tem música à venda. Neste caso, trata-se do novo álbum de Regula, Casca Grossa. É isso. No seu espaço, Tiago Lopes, articula o dois-em-um, cortando cabelo e distribuindo a sua música. Dito assim pode parecer coisa de amadores. Puro engano.

Nos últimos anos, com a fragmentação da indústria da música, existem cada vez mais fenómenos que acontecem ao largo da visibilidade do grande público, operando de forma singular.

Ele é um desses casos. O seu nome foi-se cimentando nas avenidas digitais da Internet e nos espaços nocturnos mais cintilantes da cultura hip-hop e R&B. As letras de carácter erotizante, sempre com um toque de humor, e a atitude gingona em palco foram-no moldando. Hoje, onde quer que vá actuar, já se sabe que é um acontecimento.

Tem um público fiel que sabe as suas letras de cor e que se revê no seu posicionamento perante a vida e a arte, que diz serem a mesma coisa. A sua atitude acaba por ser qualquer coisa sincrética entre o imaginário mais artificioso do rap americano e a realidade mais quotidiana de um bairro como os Olivais. 

Ao contrário do que acontecia com a geração rap portuguesa dos anos 1990, muitas vezes acusada de importar modelos de comportamento americanizados que nada tinham a ver com o contexto local, em Regula isso não acontece. Pertence a uma geração que integrou todos esses formatos, sendo hoje impossível discernir o que pertence ao imaginário dos bairros de Los Angeles ou ao dos Olivais. Está tudo integrado naquilo que ele e as pessoas que o rodeiam são. Há adaptação e recriação – visível na linguagem maleável, nem português, nem inglês, mas tudo isso ao mesmo tempo – e não subordinação.

Foi aí, nos Olivais, à porta da sua nova barbearia, que fomos encontrar Tiago Lopes, recebendo amigos e clientes que ali estão pelo corte de cabelo e também porque são seus fãs e querem estar perto de "Don Gula", como também é conhecido, ou do "Toni do Rock", nome de uma das suas novas canções.

Nelas há imensas personagens, mas todas, na primeira ou na terceira pessoa, remetem para experiências vividas ou ouvidas da boca de quem o rodeia. Quando fala, repete com insistência que é tudo uma questão de honestidade. “Sou a mesma pessoa na música, na barbearia ou aqui no café. Sou honesto comigo e com os outros”, justifica.

Actualmente reside no Catujal, concelho de Loures, mas os Olivais são o seu lugar desde sempre. Foi ali que nasceu, é ali que os amigos vivem, é ali que quer ficar. Às tantas, provocamo-lo, dizendo que, seja no caso dos fadistas ou no dos rappers, existe sempre um discurso identitário ligado aos lugares onde cresceram, mas que tal como os fadistas não moram todos na Mouraria, também os rappers de sucesso vão deixando as zonas de origem. O imaginário fica. Eles partem.

Mas Regula não desarma: “Sou bairrista. Até posso dar um grande salto em termos de sucesso, mas nesse caso faço uma vivenda aqui nos Olivais”, ri-se ele. “Não é por acaso que a minha empresa se chama Stay Local. Isto tem a ver com a minha identidade. Quero manter-me aqui – quero saber o que se passa com o Zé Manel, como está o Xico, para onde vai o Ricardo. Cresci com estas pessoas e quero mantê-las comigo. É o meu dia-a-dia. Por muito sucesso que possa ter, não vou mudar.” 

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O concerto de lançamento de Casca Grossa, no Lux: Regula tem um público transversal em termos de idades e de signos visuais Made in Lx
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Não custa acreditar que com Casca Grossa se agigante ainda mais. Até agora tem sido acima de tudo um fenómeno da Internet. As rádios parecem ter pudor em passar a sua música e os circuitos dominantes ainda estão submetidos à cultura rock.

O lançamento do álbum, que decorreu na última quinta-feira, no esgotado Lux, em Lisboa, foi um bom indicador da sua popularidade. O disco tinha saído uns dias antes, mas já toda a gente parecia saber as letras, gritando-as em uníssono. “Foi uma noite espectacular!”, recorda ele. “Foi como estar em casa. Estava à espera daquela energia, mas surpreendeu-me, claro, que o público já tivesse um conhecimento tão grande das letras.”

A acompanhá-lo, em palco, estão dois agitadores-cantores (Bacar e Holly-Hood), o histórico DJ Kronic e também a cantora Vanessa, para além de alguns convidados como Valete, Sam The Kid ou Blaya (Buraka Som Sistema). Nos próximos tempos, em festivais, também contará com um baixista e um baterista.

O que mais surpreende na sua prestação é a fluidez e a precisão com que tudo decorre. Mesmo nos intervalos entre os temas são lançadas frases (“A chapa está quente” para introduzir Casca grossa ou o trocadilho “estás à nora Jones”, no caso de Langaife) que geram um efeito de reconhecimento na assistência. Esta manifesta-se de imediato. “Isso é trabalhado com os meus DJ”, explica ele, “porque falava pouco entre os temas – não sou de falar muito – e sou mais de mostrar serviço. Mas agora mudei e tento provocar uma ligação para as pessoas saberem o que se vai seguir e criar ambiente. A passagem das músicas são muito ensaiadas”.

O público, esse, é bem mais transversal, em termos de idades e de signos visuais, do que se poderia pensar numa primeira abordagem. Existe quem personifique a cena hip-hop de copo de champanhe na mão, mas há heterogeneidade. Há tantos homens como mulheres e esse facto é muitas vezes apontado como paradoxal, porque a linguagem vernacular, erotizante e maliciosa de algumas canções pode ser encarada por alguns como sendo sintoma de objectificação da mulher.

Nada que não se oiça em muitas canções rap americanas para consumo português, mas já se sabe que o efeito de reconhecimento da língua é diferente. As letras contêm metáforas simples, falam de líbido, conflitos ou sucesso, mas, mais do que o que é dito, é a forma recreativa como o português se alia ao inglês, ou as palavras se enleiam, criando rimas ou trocadilhos inesperados, que acaba por gerar entusiasmo.

É um jogo. Com algo de marialva, talvez. Mas um jogo de sedução, onde todos os envolvidos sabem as regras. E Regula tem consciência disso. “Gosto de chocar, mas com humor. Há pessoas que me chamam machista, mas é uma parvoíce.  Eu sei como sou e não sou como por vezes me catalogam e isso basta-me, embora tenha noção de que a minha música provavelmente poderia passar mais na rádio se as letras fossem de outro tipo.”

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O rap, em Regula, é acima de tudo um universo lúdico. Não existe reivindicação política ou afirmação identitária e ele sabe-o. “Cada rapper tem a sua autenticidade. O Chullage ou o Valete já fazem isso tão bem, porque haveria eu de fazer o mesmo? Não me vejo a fazê-lo. Existem coisas em que nos assemelhamos, ao nível da fluência ou da rima, mas a intencionalidade é outra. E está-se bem, porque cada um deve ter a sua própria autenticidade e desenhar o seu caminho.”

Há alguns anos, provavelmente, Regula teria mais dificuldades em impor-se.  A Internet, as redes sociais, a cultura visual ligada aos vídeoclipes tornou possível que uma nova geração de rappers se tenha imposto nos últimos anos em Portugal e ele tem noção disso. “Sim, há uns anos, sem passar na rádio e sem uma grande editora por trás, seria difícil. Se cheguei até aqui foi também graças à Internet e às redes sociais.” 

Dez minutos depois do concerto do Lux se ter iniciado, já a hashtag #Regula dominava o Instagram, com toda a gente de telemóvel na mão a tirar fotos. Mas na interpretação de Cabeças de cartaz a assistência saca dos isqueiros, como se estivéssemos num concerto de estádio dos anos 1990.

Quase todos os temas do novo disco se fazem ouvir, estando reservadas para o final algumas canções mais antigas. Sente-se nitidamente que o novo álbum, em termos sonoros, é diferente. O ritmo é dolente, o baixo mais pronunciado, existe mais espaço e as linhas sintéticas mais puxadas para cima.

Em Langaife, o clima é exótico, sublinhado pelo ritmo lento e pelo jogo vocal entre Regula e Sam The Kid, enquanto na balada Guilhotina, com Pacman, a batida torna-se ainda mais preguiçosa e sedosa. Em contraste, Mêmo a veres, com Blaya, bamboleia-se pelo dancehall, e em Toni do rock a electricidade de um acorde de guitarra insinua-se de forma repetida por entre uma batida metalizada.

Em relação ao passado recente, diz que existiu uma grande diferença. “Agora, graças a Deus, tenho o meu próprio estúdio, o que me dá outra liberdade. Dantes ia para estúdio já com o trabalho feito. Agora se estiver em estúdio com o Holly-Hood, e ele tiver um beat novo, mostra-mo. Ou então posso estar à noite e ter uma ideia qualquer e telefonar ao Holly-Hood ou ao Johnny para eles trabalharem logo.”

A construção sónica dos seus temas é deixada nas mãos de produtores em quem confia. Contribui com as suas ideias, mas sabe que cada um deles (Holly-Hood, Groove Punch, Here’s Johnny ou Last Hope) possui o seu próprio vocabulário. “Independentemente do que lhes transmito, gosto que mantenham a sua linha, afinal é por isso que os chamo”, diz.

Percebe-se que está a passar um bom momento. Às tantas, no Lux, evoca nomes que o marcaram, como os Da Weasel. Foi ouvindo-os, e à geração da compilação Rapública, que começou a escrever as primeiras rimas na segunda metade dos anos 1990. Em 2002 foi convidado por Sam The Kid para entrar no álbum Sobre(tudo) e nesse mesmo ano acaba por lançar o seu álbum de estreia, 1ª Jornada, seguindo-se, em 2005, Tira Teimas, e mixtapes como Kara Davis (2007) e Kara Davis vol. 2: Lisa Chu (2009), ambas misturadas por DJ Kronic.

No ano passado deu-se o lançamento do álbum Gancho e a concretização do projecto 5-30, ao lado de Pacman e Fred Ferreira (Orelha Negra, Banda do Mar), que lhe deu outro tipo de exposição. Teve um contacto mais próximo com a indústria tradicional, mas este ano voltou à sua forma própria de operar. “Já trabalhei com pequenas editoras, e tenho de agradecer ao Cruzfader e ao Valete por esse facto, mas a partir de determinada altura percebi que tinha de ser eu a investir em mim. Perseguia o sonho de viver da música e comecei a fazer as coisas à minha maneira”, conta ele. “Tive alguma sorte e estive bem rodeado, mas não me arrependo das minhas opções.”

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Por sua opção, o novo álbum não está à venda nas lojas FNAC e ele explica porquê. “São uma empresa grande, trabalham à consignação, querem comprar 500 cópias e não me parece justo para a margem que ganham. Prefiro colocar o disco à venda nas barbearias ou nas lojas de tatuagens de Lisboa de quem sou amigo (Fama, Cortes de Lisboa, Vasques, Didi ou Zé Algarvio) e pagar uma comissão a pessoas que conheço.”

Para além dos discos à venda nas barbearias, ou em estruturas da Internet, como a SoHipHop, aquilo que mais o move hoje em dia são os videoclipes. É através deles que os códigos, os localismos e a representação visual da música são transmitidos. “Os discos representam a minha vida e o meu quotidiano. É como se fossem um filme. Talvez por isso os vídeos são a coisa mais importante hoje em dia”, justifica. “Neste novo álbum já investi mais de dez mil euros, só em vídeos, sem ajuda. É muito importante ter um contacto visual imediato com a música.”

Entre os rappers americanos que o impressionam na actualidade refere nomes como Dom Kennedy, Rick Ross, Jim Jones e, particularmente, Action Bronson. E não é por acaso. Tal como ele, também Action Bronson, tem uma outra actividade. É cozinheiro. “Tem um programa na TV e é incrível como consegue ligar a música com a cozinha”, refere. “Sinto afinidades porque ser barbeiro ou cozinheiro acabam por ser também actividades criativas como a música.”

À sua barbearia chegam clientes que já vão com uma ideia precisa do que querem, embora ele as possa fazer mudar de planos, ou quem esteja disposto a ser surpreendido. “Esses acabam por ser os mais interessantes”, sorri ele, “embora exista um pouco de tudo, é sempre uma negociação”, aponta.

De um outro cantor-barbeiro que ficou na história da cultura pop portuguesa, António Variações, diz não conhecer muito. “Só conheço duas ou três canções porque oiço acima de tudo música americana”, afirma, embora reconheça que o seu cosmos é ilustrativo de uma certa forma de ser português.

E isso leva-nos a "Toni do Rock". Afinal quem é esse personagem que atravessa a canção do mesmo nome? “Bem, esse gajo é bem português”, diz. “É ‘aquele’ artista. O verdadeiro artista português. Aquele tipo de quem se diz: ‘Eh! Lá! ganda artista!’ Ou então sou eu. O verdadeiro Toni do Rock.”