Reportagem

Protesto histórico no Brasil deixa Dilma frágil como nunca

O Brasil saiu à rua em peso. Só em São Paulo, estima a Polícia Militar, um milhão de pessoas vestidas de verde, azul e amarelo fizeram deste um “dia histórico”. Mas os cálculos do instituto de pesquisa Datafolha apontam para um número muito menor: 210 mil.

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São Paulo na tarde deste domingo Reuters

Classe alta, média, burguesia, elite? Dificilmente: os brasileiros saíram em massa às ruas, deixando bem claro o descontentamento alargado com a classe política, fustigada pelos casos de corrupção, e em particular com o Partido dos Trabalhadores (PT). Só em São Paulo, um milhão de pessoas afluíram à Avenida Paulista, no que será muito provavelmente o maior protesto de sempre na cidade.

O número é da Polícia Militar (PM), uma estimativa publicitada pouco mais de hora e meia após o início oficial do protesto. O instituto de pesquisa Datafolha publicou horas depois uma estimativa mais conservadora: 210 mil no total, 188 mil no auge dos protestos. Nessa altura, para percorrer 10 metros no centro da avenida, os manifestantes demoravam cerca de 15 minutos. Pessoas entravam e saíam, ininterruptamente, apesar da chuva que começou miudinha e foi engrossando. A esmagadora maioria vestia as cores nacionais.

A enchente foi de tal maneira que forçou Dilma responder. A Presidente do Brasil enviou o seu ministro da Justiça à televisão para anunciar que o Governo está a preparar um pacote de medidas anticorrupção. Enquanto José Eduardo Cardozo falava, vários pontos do país protestavam com um novo "panelaço", uma repetição do que acontecera dia 8, quando Dilma falava ao Brasil. A Presidente esteve reunida com a sua cúpula desde o meio da tarde, num improvisado "gabinete de crise".

Verde, azul e amarelo por todo o lado. Homens, mulheres, jovens, velhos, crianças, grávidas, recém-nascidos, estropiados, hipsters e mesmo cães envergam camisolas da selecção brasileira, esvoaçam bandeiras – muitas, tantas bandeiras –, recorrem a vuvuzelas, relas e apitos para fazer barulho, usam narizes de palhaço e riem e tiram fotografias. O ambiente é familiar, de estádio. Se não soubéssemos, diríamos que a Copa voltou e que os “canarinhos” estão na final.

Os únicos que destoam são os militaristas, que trouxerem os seus camuflados e caquis para debitar uma cartilha difusa de extrema-direita e enquadrar os seus estampados de “orgulho” paulista e brasileiro. Há pouco quem lhes ligue. A única forma que encontram de suplantar os sistemas de som vizinhos é ensaiar o hino nacional. Aí são todos irmãos e a multidão exulta. E canta. E canta de novo. E grita bem alto no final: “Pátria amada, Brasil!”

O único bordão que consegue semelhante harmonia da multidão é o “Fora, Dilma” que ninguém se cansa de repetir. Numa das pontas da avenida, no cruzamento com a Rua da Consolação, por onde não pára de chegar gente, ouve-se pelos respiradouros do metropolitano o rumor que vem do subsolo: “Fora, PT! Fora, PT!” A corrupção é omnipresente nos cartazes. “Golpe é o que fizeram com a Petrobras”, lê-se num deles, em resposta à marcha “vermelha” de sexta-feira.

Na cabeça, os manifestantes levam fitas que exigem “impeachment já”. “A Dilma saindo, os outros políticos vão aprender a trabalhar para o povo e não para os próprios bolsos”, diz ao PÚBLICO Aparecida Correa, 59 anos, agente de viagens formada em economia. Diz que não está ali em resposta a um apelo partidário. Manifesta-se “por um Brasil melhor, independentemente do partido”.

Como? “O Brasil é um país onde tudo o que se planta colhe, não precisa ir lá fora”, sugere Sérgio Hubner. Em conversa com o PÚBLICO, este vendedor de 44 anos mostra-se preocupado com a auto-suficiência alimentar do país, a importação de bens de consumo e a “alta inflação”. Concorda: Dilma tem de abandonar o cargo.

O trânsito corre na avenida 9 de Julho. É a única artéria aberta nas imediações da Paulista, cortada pela segunda vez em três dias para acomodar as manifestações pró e anti-Governo. Os carros passam pelo túnel, dezenas de metros abaixo dos manifestantes, que começaram por se posicionar de ambos os lados, como guardas. Dividiam-se em dois grupos: o movimento Vem Pra Rua, organizado por empresários que vêem nas políticas “petistas” um entrave ao desenvolvimento do Brasil; e o Movimento Brasil Livre, dinamizado por jovens liberais.

O que os separava era apenas o pedido de exoneração (impeachment), que o segundo exige e o primeiro não. Mas um outro grupo, os radicais de direita Revoltados Online, aproveitando a mobilização naquele local trocou de lugar e posicionou-se entre ambos. Logo ao lado, os anti-políticos SOS Forças Armadas – que apelam a uma acção militar no preciso dia em que passam 30 anos sobre a tomada de posse do primeiro civil como Presidente da República, José Sarney, após a ditadura militar –, e depois duas carrinhas do partido Solidariedade, de centro-esquerda, que apoiou Aécio Neves nas últimas presidenciais.

Os maiores partidos da oposição, o PSDB e o DEM, aprovaram a manifestação, mas não estiveram formalmente presentes (apesar de alguns militantes com cargos de relevo se terem juntado ao protesto). O próprio senador Aécio Neves anunciou, na sexta-feira, um “dia histórico” e, domingo, num vídeo publicado nas redes sociais, comprovou: “15 de Março vai ficar lembrado para sempre como o Dia da Democracia”. No sábado, Dilma Rousseff pediu que se evitasse qualquer tipo de violência. “Espero que o Brasil prove a sua maturidade democrática”, escreveu a Presidente no Facebook.

Não era dramatização da “petista”: os receios de que o “quebra-pau” marcasse o dia eram verbalizados por quem comentava o assunto durante a semana. A polarização crescente e a irascibilidade do debate político – que teve ponto alto na segunda volta das eleições – exigiam à partida muitas cautelas. Mas tanto Aécio como Dilma conseguiram o que pretendiam deste “15 de Março”. O principal distúrbio deu-se já por volta das 21h em Portugal (menos três no Brasil) frente ao Congresso Nacional, em Brasília. A PM lançou bombas de gás lacrimogénio e deteve três pessoas.  

Com manifestações previstas para 65 cidades (a maioria no Sul, onde o PSDB venceu as eleições, mas também no mar vermelho do Norte e Nordeste), em São Paulo os protestos começaram antes da hora (14h). Um grupo de motociclistas deu início ao “acto” de manhã, espalhando ruído pelos Jardins, região de bairros nobres, onde as pessoas começaram a acorrer às varandas em apoio: “Fora, Dilma!”

A quantidade de manifestantes que protestou em todo o país inviabiliza a ideia de que esta era uma acção circunscrita às classes de privilegiados (embora não afaste a tese do desgaste do Governo promovido pelos media). A Polícia Militar estima que foram 1 milhão e 400 mil em 23 cidades do país. As maiores depois de São Paulo foram em Curitiba (100 mil), Brasília (45 mil), Ribeirão Preto (40 mil), Belo Horizonte e Porto Alegre (30 mil), Goiânia (20 mil) e Rio de Janeiro (25 mil). A novidade foram os protestos no Norte e Nordeste, redutos eleitorais do Governo. Houve manifestações nas principais capitais como Manaus (10 mil), Maceió (10 mil) e Recife (8 mil).

“Não sou elite. Não tenho varanda gourmet”, informava em São Paulo uma manifestante no colete estampado. Uma das surpresas foi a adesão de camionistas, que fecharam o trânsito nas imediações da Paulista. Outra característica notória: as caras pintadas de verde e amarelo de muitos milhares de manifestantes, algo que remete para as manifestações pró-impeachment de Fernando Collor de Mello, em 1992.

Algo que os manifestantes têm em comum com os “adversários” que na sexta-feira em menor número marcharam sobre esta mesma avenida é a defesa do combate à corrupção e da punição de corruptores e corrompidos na Petrobras. No inquérito levado a cabo pela Datafolha na sexta (que tem uma margem de erro de seis pontos), 71% dos que saíram à rua diziam ter votado no PT, mas só 4% afirmavam ali estar em defesa de Dilma. No topo das preocupações, o destino da petrolífera estatal, a reforma do sistema político e a luta contra a austeridade do “Ajuste Fiscal”.

O índice de popularidade de Dilma Rousseff está a aproximar-se dos mínimos históricos de Fernando Henrique Cardoso, que um mês após a reeleição de 1998 era avaliado com 43 pontos negativos no barómetro da Datafolha. Reeleita em Novembro, a Presidente contabiliza 21 pontos negativos no índice.