"Borgen": os dramas da política na Dinamarca são um sucesso

Produção sobre a ascensão política de Birgitte Nyborg e as relações com a comunicação social tem feito sucesso em vários mercados. RTP2 assegura “a reposição semanal da série para breve”

No primeiro episódio deste drama político, Birgitte Nyborg chega a primeira-ministra do reino da Dinamarca. Quando a primeira temporada de “Borgen” vai para o ar, em 2010, Birgitte (interpretada por Sidse Babett Knudsen) transforma-se na primeira mulher a ocupar tal posição na hierarquia política dinamarquesa. Um ano mais tarde, em 2011, a realidade acaba por imitar a ficção e Helle Thorning-Schmidt alcança o Palácio de Christiansborg, sede dos poderes legislativo, executivo e judicial daquele país — tornando-se, precisamente, na primeira mulher a consegui-lo. Esta é uma das razões por que “Borgen”, da estação pública "DR", se tornou tão popular na Dinamarca e um pouco por todo o mundo: os espectadores sentem que existe uma proximidade entre o que acontece no ecrã e aquilo que, graças à comunicação social, vão sabendo ou não sobre a política contemporânea.

Borgen” — que, em dinamarquês, significa “castelo” — segue a líder do Partido Moderado, Birgitte Nyborg, a partir do momento em que esta chega a chefe do Governo depois de um processo de negociação de coligações. Parte importante do enredo são as relações entre políticos, média (e televisão em particular) e os chamados “spin doctors”, profissionais de relações públicas ligados à comunicação política. Ainda no primeiro episódio há uma morte inesperada e os limites éticos de jornalistas e políticos são postos à prova, com Birgitte a ganhar pontos por se recusar a fazer “jogo sujo”.

A Portugal, a produção dinamarquesa chegou nas primeiras semanas de 2015. A "RTP2" exibiu as três temporadas de seguida, em horário nobre. A média diária de espectadores foi de 70 a 75 mil, revela o director de programas do canal, Elísio Oliveira, ao P3. O impacto da série nas “opiniões pública e publicada”, sugere, foi maior do que aquele sentido nas audiências. “Não correspondeu, de alguma maneira, àquilo que gostaríamos”, diz, salientando duas atenuantes: nem os episódios vistos na aplicação RTP Play nem as gravações automáticas dos serviços de televisão por cabo entram nesta contabilidade, que apenas enquadra “a audimetria do momento de exibição”.

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Helle Thorning-Schmidt, primeira-ministra da Dinamarca desde 2011 Mads Nissen/Reuters

As comparações entre “Borgen” (com um BAFTA e um Emmy no currículo) e outras séries são inevitáveis: da mais recente “House of Cards”, de Beau Willimon — uma produção para o Netflix protagonizada por Kevin Spacey —, até à mais antiga “Homens do Presidente”, de Aaron Sorkin. Mesmo que estas duas referências tenham figuras masculinas como protagonistas — e este é outro ponto no qual "Borgen" se distancia do que tem sido feito. Apesar de fã de ambas, Adam Price, o criador de “Borgen”, rejeita as comparações, admitindo que o sucesso internacional de Birgitte Nyborg e companhia o surpreendeu. “Foi-nos dito para baixarmos as nossas expectativas quando chegámos a uma audiência internacional”, disse Price ao “Guardian”. Suécia e a Noruega afiguravam-se como os países que talvez aceitassem melhor a série. Ninguém esperava que se tornasse tão bem sucedida no Reino Unido e nos Estados Unidos, dois grandes mercados da produção audiovisual.

Diálogos de qualidade e "muito bom gosto"

Elísio Oliveira, que se cruzou com esta série durante “trabalhos de pesquisa e conversa interna” na "RTP2", juntamente com a gestora do canal Teresa Paixão, decidiu exibi-la para arrancar um ano (2015) que se quer fértil em produções europeias. “Uma das missões da 2 é poder oferecer conteúdos que não sejam vistos no cabo, para que se possa diferenciar”, justifica. O “ambiente identitário e de matriz europeia”, ainda que “falado numa língua que não nos é comum”, acaba por se reflectir na identificação do próprio público, que é “bastante transversal”.

“Enquanto profissional, atraiu-me a qualidade dos diálogos e dos guiões, as interpretações, a selecção e a caracterização dos actores para os papéis”, aponta o director da "RTP2" que também já foi presidente do Instituto de Cinema, destacando ainda “toda a envolvente produtiva de grande qualidade e muito bom gosto”. Além da “trica entre políticos” — que o atraiu enquanto espectador —, também o retrato da vida familiar de Birgitte contribui para a tal identificação. Se no início as dificuldades de tempo são secundarizadas pelo papel solidário de um marido compreensivo, quando a trama avança a primeira-ministra vê-se a braços com problemas na relação de vários anos.

O último episódio de “Borgen” foi para o ar a 13 de Fevereiro e, desde então, a "RTP2" tem emitido uma outra série europeia, “Príncipe” — que, até agora, está a bater a primeira nas audiências. A esta produção ibérica, cujo último episódio foi visto em Espanha por mais de seis milhões de pessoas, segue-se uma francesa. Elísio Oliveira revela que a "RTP2" vai passar “Os Influentes”, “que também aborda o papel dos ‘spin doctors’ no poder. “Legacy”, igualmente da Dinamarca e “farta de receber prémios”, é outra das estreias agendada para o canal público.

Segundo um artigo da revista “Time” de Dezembro de 2013, os direitos americanos de “Borgen” foram comprados pela "NBC" — ainda que a adaptação nunca tenha sido feita —, e a HBO também estaria interessada. A acontecer, “Borgen” não seria a primeira produção dinamarquesa a ser exportada para o mercado dos Estados Unidos: “The Killing”, que estreou neste país europeu em 2007, já foi adaptada pelo canal norte-americano "AMC", onde é um sucesso de audiências.

Muito se tem especulado sobre se uma quarta temporada de “Borgen” será produzida mas, segundo uma outra entrevista de Adam Price ao jornal britânico “Guardian”, a continuação da série não está em cima da mesa. Para quem perdeu a exibição das três temporadas no segundo canal da RTP, Elísio Oliveira assegura estar prevista “a reposição semanal da série para breve”.

Artigo actualizado às 11h36 de 24 de Fevereiro de 2015: Birgitte Nyborg é líder do Partido Moderado e não do Partido Popular