Se eu morrer, geres o meu perfil no Facebook?

A rede social passou a aceitar a indicação de “contactos de legado”, utilizadores que terão acesso parcial às páginas de quem morre.

O Facebook chegou aos 901 milhões de utilizadores em Março
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Ainda não se conhece a data para o lançamento da funcionalidade em Portugal Rainier Ehrhardt/Getty Images/AFP

O que acontece aos nossos dados e contas de utilizador depois de morrermos? Muitos perdem-se na enxurrada, outros permanecem intocados por tempo indefinido. O Facebook, líder incontestado no segmento das redes sociais, onde revelamos muita da nossa vida, tendia até agora para a segunda opção: quando tomava conhecimento do desaparecimento de um utilizador, fossilizava-lhe a conta – ou apagava-a. Agora, começou a mudar de estratégia.

O destino da pegada digital de quem já não existe é uma questão debatida há muito. Continua a não estar integralmente resolvida, mas o Facebook decidiu dar um passo em frente, aproximando-se da posição de quem reclama a possibilidade de manter viva – e online – a memória de familiares e amigos. Nesta quinta-feira, começou a permitir que os utilizadores nomeiem outros utilizadores da rede como “contactos de legado”, para o caso de morrerem.

O assunto é delicado e o Facebook trata-o com muita cautela, sublinhando à partida que a privacidade dos mortos é respeitada no processo. Ao “contacto de legado” será permitido alterar as fotografias de perfil e de capa, destacar posts, aceitar novos pedidos de amizade e descarregar o arquivo de publicações e fotografias. Contudo, ser-lhe-ão vedadas as mensagens privadas e não poderá apagar ou mudar as definições de privacidade das publicações.

Também não pode apagar a conta. “Pensámos muito nisto, e acabámos por decidir não o permitir nesta primeira versão”, disse Jodi Seth ao Wall Street Journal. Esta porta-voz do Facebook explicou ao jornal norte-americano que a empresa temia em particular que essa possibilidade, assim como a hipótese de o novo gestor da página fazer a sua curadoria do conteúdo, fizesse acrescer carga emocional a um processo já de si sensível.

A “primeira versão” está apenas disponível nos EUA, não sendo público o calendário para os restantes países. A introdução controlada permitirá à empresa liderada por Mark Zuckerberg identificar eventuais debilidades da ferramenta e perceber qual o impacto das novas “contas memorial”, que serão assim identificadas por cima do nome de utilizador. “Tipicamente, as pessoas não pensam demasiado sobre isto até vivenciarem uma perda”, frisa Vanessa Callison-Burch, product manager do Facebook, à Mashable.

Quando os utilizadores não indicam qualquer “contacto de legado”, aplica-se o método até agora em vigência: a conta é congelada ou apagada. De qualquer modo, o resultado final acabará por ser esse, mesmo para quem o faça: o Facebook só permite um único “contacto de legado” por conta, estatuto não transmissível. Ainda que, por exemplo, a pessoa designada morra ao mesmo tempo que o proprietário da página. Após a morte do zelador, a conta fica inacessível.

A única forma de contornar esta restrição é ser designado legalmente, em testamento, como o herdeiro digital do dono do perfil. Nesse caso, o Facebook é obrigado a dar acesso. O que a rede social passa agora permitir é a designação informal de um herdeiro, algo que o Google aceita desde 2013 – foi a primeira grande empresa tecnológica a fazê-lo, para serviços como o e-mail (Gmail) e a “nuvem” de armazenamento de dados online.