A cabeça a fugir do corpo

Por vezes, quer acender a luz das escadas e toca na campainha alheia. Envelheceu anos mal ouviu a médica pronunciar o nome da doença de Alzheimer. Um dia, perguntei-lhe se queria dar-me uma entrevista, deixar um registo do que é enquanto é, mostrar aos outros o que pode ser a cabeça a fugir do corpo.

Quando soube da doença, entristeceu, mingou. Tanto que sonhou com uma velhice serena, no apartamento comprado a custo, na companhia do homem por quem esperou perto de 40 anos. Pendurou logo a morada ao pescoço. Deixou de pintar os cabelos curtos, escorridos. Passou a policiar-se. Sai cada vez menos de casa. Resiste. Enquanto conseguir cuidar-se, estará ali, no último andar do prédio.

Queres um chá? Eu faço-te um chá. Não tenho comido nada. Nem da cama queria sair. Obriguei-me: “Sai da cama! Se não sais da cama, morres aqui dentro.” Caí… Tenho de mudar os óculos. Já não vejo bem com estas lentes. Esta armação também já não serve. Dói-me atrás das orelhas. Olha, sou uma chatinha. Sou uma chatinha, pronto. Queres saber a verdade? Não tinha dinheiro em casa. Fui ao banco. Eu e a dona… Isabel. É Isabel o nome da mulher que vem aqui, não é? Chateei a mulher que lá estava. Então, ela estava para me dar o dinheiro e perguntou-me:

— Só vai levar este?
— Olhe, eu levo o que eu quiser, que ele é meu! — disse-lhe eu. Falei alto.
— Não pode levar o que quiser. Temos um regulamento. Por pessoa, damos 500 euros por dia — disse ela.
— Então venho cá todos os dias, até arrastá-lo todo!
— Para quê?

Realmente… Ela tem razão. Sabes que eu não sei onde meti o dinheiro? Sei que o escondi, mas onde? Cheguei aí com a dona Isabel e escondi-o. Nem da saca eu sei. Mas a saca está para aqui, nunca a levo para a cama… A dona Isabel fez-me a cama de lavado. Já não estou para dar a ferro. Ainda sei dar a ferro, mas não estou para gastar tanta luz. Calha bem, sabes? É dobrar os lençóis e meter na cama! Ela é que me fez a sopa. Está boinha, mas não consigo… De manhã, fritei uns chicharros pequeninos que o senhor Fernando me trouxe. [Tosse]

Eu queria dar um dinheirinho ao senhor Fernando, ele tem andado comigo de um lado para o outro, mas eu não sei onde escondi o dinheiro. Só tenho estes 50 euros que estão a dançar em cima da mesa. Isto não é nada.

Ai! Sentei-me e nem te fiz o chá! Que chá é que tu queres? Tenho aqui um que limpa por dentro. Eu desligo as coisas, não te preocupes. Vês alguma coisa aqui ligada? Não vês, pois não? Olha, o que eu quero é não matar ninguém. Se eu morrer, morri. Eu tenho de ir. Não vou ficar para semente. Tenho 73 anos. Ninguém quer ir, mas ninguém fica! Eu vou morrer e vocês vão dar comigo aqui dentro!

Tantos medicamentos! Já viste o que é tomar medicamentos de manhã, à tarde e à noite? Para muito tem de dar o dinheiro e o dinheiro é poucochinho… Vem aí uma enfermeira ver os medicamentos para eu tomar a semana toda. Ela põe tudo numa caixinha. Ela vai chegar aí e vai dizer: “Não tomou os medicamentos todos.” Não, não tomei! Quero lá saber! O que é que eu ando aqui a fazer? Estou para aqui, sozinha… A minha irmã parece que tem medo que eu lhe apareça. O meu telefone está com pouco gasto. Não sei fazer chamadas. O que queres? Andei na escola, mas não aprendi! A minha irmã aprendeu alguma coisa em França. Ela telefonava-me, mas não me tem telefonado…

Aos anos que ela está na França! Os filhos dela já se casaram, os netos dela já se casaram, o homem dela já morreu. Podia vir para aqui, não era? Ela não está para me aturar! Ela quer é que eu morra depressa! Nem que se foda! Hei-de andar aqui! E depois de estar enterrada venho cá vê-la! Onde é que eu meti o coador?

Quero ser cremada. Os meus pais estão enterrados e eu nem posso lá ir. Caio nos pedregulhos do cemitério. Vieram da aldeia, coitadinhos. A minha mãe já veio acamadinha. Morreu passados três meses… O meu pai ainda durou. Ele tinha Alzheimer, como eu. Foi a doutora Cândida que me disse: “O seu pai tem Alzheimer.” Isto estava dentro de casa. Foi a doutora Cândida ou outra? Olha, sei lá!

Vais beber o chá nesta chávena grande. A chávena que está na cozinha é a chávena da casa. As outras estão na sala. Não vou para lá agora. Queres comer alguma coisa? Eu comi sopa ontem à noite. Tenho sopa para mais dois diinhas. Hoje, não quero. Hoje, botei três grelinhos num tachico e uma batatinha. Comi isso e os chicharros pequeninos que o senhor Fernando me trouxe. Chegou para mim. Eu disse: “À noite vou comer a sopa que comi ontem.” Não quero. Não encaro muito sopa de coração, mas fui ao senhor António e, olha, o coração era tão bonito! Agora, tenho aí sopa para dois diinhas e não quero. Eu pedi à dona Isabel para me botar a mão a fazer uma sopa. Lá apanhou um bocado de frango que estava no frigorífico. Deve ter sido para não se estragar, não sei. Ah! Não gosto de carne na sopa! Queres levá-la? [Tosse]

Já não sei dos 50 euros outra vez. Deixa encontrar os 50 euros enquanto estás aqui, se não digo que foste tu que os levaste. Fui ao banco com a dona Isabel. Levantei 500 euros. Queria dar algum ao senhor Fernando. Ele tem andado comigo de um lado para outro. O carro dele não anda a água! Onde é que eu escondi o dinheiro? [Tosse]

Meu Deus, como eu estou! Acho que nunca estive tão abatida. Por isso eu obriguei-me: “Sai da cama, sai da cama rapariga; se não sais da cama, vais morrer aí.” E estou aqui. Estou aqui sozinha…Nunca quis ter filhos. Engravidei uma vez e desfiz. Os filhos não dão nada a ninguém. Mas teria alguém, não era?

Tive rapazinhos lá na aldeia. Nunca os deixei ir-me ao pito! A vida fez-me ficar experientola. Comecei a namorar com os meus 17 anos. Era de ir a uma festa e vir com um homem para casa. No domingo seguinte, ele vinha a minha porta e eu desaparecia pelo outro lado. Era muito esquisita, eu. Sempre fui muito esquisita. Se me casasse, era para pôr o homem a dormir noutro quarto. Aqui estava bem. Aqui tem outro quarto. Ele podia dormir noutro quarto, mas não podia ressonar muito. Não posso dormir com um mosquitinho! Os homens ressonam quase todos…

O Alfredo ressonava… O Alfredo foi o homem que eu amei. Deus o tenha no céu! Mais nenhum me serve. Também agora estou velha…. O que ia fazer com um homem? Só se viesse para comer o que eu tenho! Ando tão baralhadinha… Às vezes, penso que o Alfredo mora ali em cima. Depois lembro-me que mora lá para baixo. Nem sei se já morreu… Ele disse: “Ó, estou tão cansado.” E eu disse: “Ó Alfredo, não venhas mais, descansa.” Eu pensava que ele voltava. Eu juro-te que eu pensava que ele voltava. Olha, ficou ofendido. Fui má com ele?! Então ele disse-me: “Sabes, vejo-me para tirar o dinheiro para o passe!” O quê que ele queria? Que eu lhe pagasse o passe?!

Ele apareceu-me tarde na vida. Ai, eu já tinha mais de 30 anos. Começámos a falar. Sabia lá que ele era casado! A mulher dele chegou a ir à minha porta. Ao tempo que isso foi! Eu não morava nesta casa. Eu ainda andava a servir. Ela foi lá dizer que me matava se eu não o deixasse ficar. Ele disse-me: “Não pode ser! A minha mulher não é assim!” Ele era amigo da mulher dele. Não queria dar cabo do casamento. Tão doentinha que ela era e, olha, nunca morreu! Ficámos juntos mais de 30 anos. Perto de 40! Eu era tolinha por ele. Era uma paixão… abraçadora. Como é que se diz? Não é abraçadora, pois não? Ó, não interessa. Eu pus o homem a andar e arrependi-me. Aqui há atrasado eu vi-o à noite. Ele não me falou. Ele tinha chave. Entrou e sentou-se no outro quarto a olhar. Aquilo devia ser para me ver, mas se fosse para me ver vinha de dia. Ele não costumava vir aqui durante a noite. Ai! Será que era o espírito dele?! Não me digas que era o espírito dele que eu vendo já a puta da casa e vou já para um lar! [Tosse]

Não o acarinhei como ele merecia. Agora para o fim ele dizia-me: “Ai, faz-me umas festinhas.” Eu dizia-lhe: “Vai vender sabonetes, sei lá onde é que isso andou!” Eu já nem olhava para lá. Estava murcha! A gente ia ali para dentro, tirava a roupinha, deitava-se na cama, mas só dava beijinhos. Ele é oito anos mais velho. Olha, devia estar como eu estou agora! Ele vinha por aí acima, agarrado ao corrimão. Todos os domingos, depois do almoço, ele estava aí. Já não conduzia. Vinha de autocarro. Uma ocasião, ele disse-me: “Já me custa vir.” Eu disse-lhe: “Queres que vá a tua casa? Põe a tua mulher de lá para fora!” Ele era muito boa pessoa. Era e é, se ainda não morreu, mas talvez ele tenha morrido… Eu não sei... Já fui procurá-lo ao cemitério. Eu nem o telefone dele tenho, já viste? Também não sei telefonar…

Ó filha, queres alguma coisa para comer com isso? Nem te ofereci umas bolachinhas. Só tenho meio pacote de água e sal. Ontem, fui à Zira e só comprei chocolates. Ela não me disse nada. Que lhe importa que eu seja diabética? Tomara ela que eu comprasse muitos! Tenho-os aí. Quando me apetecer, como! [Tosse]

Não me fales num lar! Eles matam-nos de repente! Trabalhei tanto na vida… Ó filha, trabalhava as duas horas de almoço. E à noite, quando saía do meu trabalho, ainda ia a outras senhoras. Trabalhava 15 horas por dia! Desgastei-me. Para quê? Diz-me? Para quê? Para a minha irmã ficar com tudo? Já nem me lembrava que lhe tinha deixado tudo. A dona Fernanda é que me disse. Abençoada dona Fernanda… Ela disse-me: “Ainda vai a tempo.” Ainda vou a tempo…

Já viste quanto custa esta casa? E elas estão pelo barato! Tinha tanta ganância para ter uma casa… Isto custou-me muito. Um tostãozinho de cada vez. Não tive quem me desse nada. Trabalhei muito e poupei muito. É por isso que Deus havia de me dar mais um tempo de saúde para eu poder gozar a minha vida.

O que me havia de dar! O que havia de dar a uma pessoa…

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