Hipódromo do Campo Grande, Lisboa

A aldeia dos cavalos

No meio de Lisboa, junto à Segunda Circular mas escondido dos olhares de quem passa pelo Campo Grande, está o hipódromo. Um mundo à parte na cidade.

Há uma menina que passa por nós montada num cavalo. Mais à frente, uma mulher estende roupa a uma janela. Dentro de um picadeiro coberto, duas outras jovens seguem as instruções do professor, dominando os cavalos em mais uma volta a trote. É Inverno e chove, por isso o Hipódromo do Campo Grande está bastante vazio. Mesmo assim, o restaurante começa a encher-se. É já hora do almoço.

O Hipódromo, que pertence à Sociedade Hípica Portuguesa, é uma espécie de aldeia dentro da cidade, com os carros da Segunda Circular a assobiar ali mesmo ao lado. Nas casinhas baixas e brancas, com vasos de flores às janelas, moram várias dezenas de pessoas, funcionários da instituição, tratadores de cavalos. Quem tiver um animal pode deixá-lo aqui instalado, vir montá-lo sempre que quiser e ter um tratador que olhe por ele.

Na secretaria, há fotografias antigas nas paredes, cavaleiros, homens e mulheres, em pleno salto, segurando as rédeas, o corpo inclinado para a frente, o cavalo no ar, voando sobre o obstáculo. Mostram-nos um livro com a história da Sociedade, as famílias que, geração após geração, mantêm viva a paixão pelo hipismo. E também imagens das competições, entre as quais o Concurso de Saltos Internacional Oficial de Lisboa, que se realiza geralmente no final de Maio (este ano será de 28 a 31) e que se destaca por ser “o mais antigo do mundo realizado no mesmo local”. Já se fizeram 94 edições.

Vem de trás a relação deste espaço da cidade com os cavalos. Numa das suas crónicas, Ramalho Ortigão descrevia assim, com ironia, o ambiente no século XIX: “As corridas do Campo Grande — Extraordinário sucesso de dandysmo! Não assistimos, mas lemos que esteve o high-life, com o qual temos sempre o infortúnio de nos desencontrar! Estamos todavia daqui a vê-lo, a imaginá-lo, rico, elegante, belo, no Campo Grande, em volta o lago — o high-life…”

Um livro que conta a já longa história da Sociedade Hípica, fundada em 1910 por um grupo de cavaleiros, recorda que, ainda antes de ela se instalar aqui, havia o Jockey Club e “os sportmen começaram aos domingos a fazer corridas de cavalos no Campo Grande, na alameda ocidental, ao pé do jardim, e toda a gente elegante da capital começou a frequentar o Campo Grande aos domingos”. E cita, a propósito, um relato de Vilhena Barbosa, historiador e jornalista do século XIX: “No primeiro quartel deste século foi por vezes teatro este campo do divertimento predilecto dos inglezes — as corridas de cavalos. Foram introduzidas por eles e faziam-se com todo o aparato ao uso de Inglaterra, de onde se mandavam vir os cavallos mais corredores, e os pagens (jockey) mais ágeis e mais leves, apostando-se somas consideráveis.”

O primeiro hipódromo de Lisboa foi o de Belém, que depois passou para a Palhavã, a seguir para Sete Rios e, finalmente, já nos anos 30, para o Campo Grande. No blogue Bairro da Quinta da Calçada encontro fotografias antigas, algumas da altura em que estava a ser construída a bancada que ainda hoje existe. Datam de 1933 e mostram uma Festa da Cavalaria organizada pelo jornal O Século, bancada cheia, homens de chapéu, poucas mulheres, à volta um enorme descampado porque a cidade ainda não tinha crescido para este lado (fotos posteriores mostram já o estádio do Sporting ao fundo). O blogue recupera ainda anúncios do Diário de Notícias dos anos 50, promovendo as “Corridas de Cavalos — trote e galope. Aposta mútua”.

Entretanto, as corridas caíram em desuso e hoje o que traz gente de fora ao hipódromo são as provas e os campeonatos (abertos a toda a gente, mesmo que não seja sócio). Durante o resto do tempo, esta aldeia na cidade vive mais pacatamente. O centro das atenções são, naturalmente, os 300 a 350 cavalos, que têm de ser diariamente tratados, alimentados, escovados.

Percorremos as boxes, lemos os nomes e admiramos os possantes animais, mas para os vermos em acção será preciso voltarmos quando começar a época desportiva. Dizem-nos que na altura do concurso internacional chegam camiões cheios de outros cavalos, que é uma festa que não se pode perder, e que no ano passado até Bruce Springsteen por aqui passou para ver a filha, Jessica, saltar. 

Quando não há provas, há aulas — até os muito pequenos podem começar, nos pacíficos póneis. E existe ainda a escola de hipoterapia, resultado de um protocolo com a Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa, que tem aqui os seus terapeutas, orientando cerca de 70 alunos nessa relação especial com os cavalos.

Vejo no blogue uma foto de Joshua Benoliel de uma menina, montada à amazona, numa aula de equitação no hipódromo em 1913, lembro-me da menina que vi de manhã, as mãos nas rédeas, o olhar atento ao cavalo e a essa relação com um animal que só se constrói com o tempo, e penso que, se calhar, Lisboa mudou muito mais rapidamente lá fora do que aqui dentro, nesta aldeia dos cavalos.