Os católicos não procriam “como coelhos” porque sabem “ponderar”

Papa diz que os católicos não devem procriar "como coelhos”. Teólogos defendem que a novidade das afirmações está na linguagem de Francisco que dispensa qualquer “dicionário de teologia”.

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Rita Líbano Monteiro diz que todos os filhos foram planeados Nuno Ferreira Santos

O Papa Francisco disse que os católicos “não devem procriar como coelhos”. As declarações não surpreendem Rita Líbano Monteiro. Apesar de católica e mãe de seis filhos, faz questão de acentuar: “Não se é melhor católico por se ter muitos filhos.”

Para Francisco, os bons católicos “não devem procriar como coelhos”. Numa conferência de imprensa no avião que o transportou das Filipinas para Roma, o líder da Igreja Católica recusou a ideia de que os casais católicos devem ter o maior número de filhos possível, mas sublinhou que é contra a contracepção artificial.

Noel e Rute Asseiceiro, católicos e pais de cinco filhos, não vêem na mensagem de Francisco nada “contra as famílias numerosas e muito menos contra os métodos naturais”. Aliás, concordam: “Somos humanos e não somos coelhos. Os coelhos não conseguem ponderar.”

Rita Líbano Monteiro, 46 anos, administrativa e financeira de uma comunidade terapêutica, em Lisboa, também não podia estar mais de acordo. “Os meus filhos foram tão planeados que o último até é adoptado.” Usa os métodos naturais - pratica a abstinência sexual com o marido, durante os períodos férteis. “Quando isto é feito com generosidade, não é um peso para a vida do casal. Os períodos de abstinência até ajudam a que os outros se vivam mais intensamente.”

Para esta católica, as afirmações do Papa não são alheias à viagem às Filipinas, que reúne metade dos católicos da Ásia e onde o Papa foi confrontado com a realidade de milhares de crianças abandonadas nas ruas por pais que não as conseguem sustentar. As declarações do líder da Igreja Católica surgem depois de um jornalista lhe perguntar o que diria a uma família católica que tem mais filhos do que economicamente lhe é possível, mas a quem a Igreja proíbe de fazer contracepção.

O que o Papa disse é que “a abertura à vida é uma condição do sacramento do matrimónio, mas isso não significa que os católicos devam fazer crianças em série”: “Falei com uma mulher, grávida do seu oitavo filho, depois de sete cesarianas, e disse-lhe: ‘Você quer deixar órfãs sete crianças’”. A mulher respondeu que confiava em Deus. “Deus deu-te os meios para seres responsável”, disse-lhe o Papa.

Para Rita Líbano Monteiro, “o que está em causa é a paternidade responsável”, de que é “completa defensora”: “Os nossos filhos nunca foram fruto de azares ou acidentes.” Para esta católica, “não há contradição entre uma família numerosa e uma paternidade responsável”, desde que cada casal avalie as condições e seja “generoso”: “Se calhar, tendo os mesmos rendimentos base, com seis filhos não se tem o mesmo nível de vida do que só com um.”

Há, porém, casais católicos que tomam outras opções. É o caso de Ana e Diogo Alarcão. “Como casal nunca nos sentimos menos católicos por termos optado sempre por métodos de contracepção artificial, apesar de sabermos que não é essa a orientação da Igreja Católica. Aliás, também nunca nos sentimos discriminados por termos tido relações sexuais antes do casamento ou por termos vivido em comunhão de facto antes de termos decidido casar pela Igreja.” E acrescenta: “Achamos que a Igreja não devia estar preocupada em discutir se os católicos devem usar meios naturais ou artificiais de contracepção, mas sim como é que vivem a sexualidade.” O casal tem dois filhos, com 14 e 18 anos, e aborda com eles, “de forma aberta”, as questões da educação sexual, conta Diogo Alarcão, 48 anos, que trabalha numa multinacional de consultoria.

“Comicidade da expressão”
O que tem, afinal, de original a declaração do Papa? O padre, teólogo e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, Anselmo Borges, destaca a “comicidade da expressão”: “Lembro-me de ter usado essa expressão numa aula: ‘Se pensam que os católicos são obrigados a reproduzir-se como coelhos, estão muito enganados’.”

Também para a teóloga e professora universitária, Teresa Toldy, a novidade não é teológica: “O que é novidade é a forma como diz, a linguagem. Dito de forma clara. Outros papas nunca disseram isto assim, [Francisco] utiliza uma linguagem que faz toda a diferença. As pessoas percebem o que ele diz. Não precisam de um dicionário de teologia.”

São declarações “importantes”: “A Igreja nunca disse para as pessoas se reproduzirem como coelhos. Mas isso entrou muito na mentalidade das pessoas. Há católicos que pensam que é mesmo ‘crescei e multiplicai-vos’. E até ao Concílio Vaticano II eram os filhos que deus quisesse. A sexualidade justificava-se em função da procriação. O Papa sabe que há pessoas que continuam a defender esta ideia. Há grupos que devem ter ficado perplexos com estas declarações. Ele sabe que tem de dizer as coisas assim”, diz Toldy.

Tanto Anselmo Borges como Teresa Toldy acreditam que, mais do que relacionadas com o contexto das Filipinas ou até com o próprio Sínodo da Família, as declarações do Papa reflectem sobretudo o que ele pensa. “Não é o facto de ter muitos ou poucos filhos que é indicativo de se ser ou não bom católico, enquanto pai e mãe, é qualidade”, reitera Toldy.

Mas admite que as afirmações possam reforçar o pensamento no Papa no seio do Sínodo. “Há ali três posições. Os conservadores, que querem manter tudo como está, não questionar. Os progressistas, para quem é preciso mudar e é preciso que as mudanças sejam claras. E os intermédios, que querem conciliar o que a Igreja tem dito com a avaliação da viabilidade de isso poder continuar a fazer sentido e ser vivido pelas pessoas ou não. Penso que o Papa se situa no intermédio.”

Para Anselmo Borges, com estas declarações, o Papa “não está senão a retomar a dinâmica do Concílio Vaticano II”: Até ao Concílio Vaticano II (1962-1965), o único fim da actividade sexual era ter filhos. A união do casal era um fim secundário. A ideia dominante era a de que os católicos deviam ter muitos filhos.” O Concílio Vaticano II “integra a actividade sexual na vida do casal, que deve ser aberto à vida, mas já não há distinção entre fim primário e secundário.”

Também para católica Mafalda Calvão, 45 anos, directora financeira de um colégio, “as declarações do Papa não têm nada contra o que a Igreja defende” que é a “paternidade responsável”. Tem sete filhos, com o marido, professor universitário João Calvão. Usam os métodos naturais, “de acordo com o que a Igreja propõe”: “Foi uma decisão tomada a cada ano que passa. À medida que os anos passam vamos percebendo que podíamos ter mais um filho e fomos tendo. Todos os nossos filhos foram planeados, o que não quer dizer que, se houvesse um acidente, não aceitássemos, com todo o amor dos pais pelos filhos”, diz Mafalda Calvão.

Esta é também a posição da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas ((APFN): “O nosso sentido vem na linha do que a Igreja sempre disse: a paternidade deve ser responsável e as decisões de ter muitos filhos devem pertencer ao casal”, diz o presidente, Luís Cabral.

“Interpretações evasivas”
Esta ideia está patente na Carta dos Direitos da Família, de 1983, onde se diz que o casal “tem o direito inalienável de constituir uma família e de determinar o intervalo entre os nascimentos e o número de filhos que desejam”. Anterior a este documento assinado pelo Papa João Paulo II está a encíclica Humanae Vitae, saída do Concílio Vaticano II, outorgada por Paulo VI, onde se fala da “paternidade responsável” como missão do casal. Francisco, durante a mesma conversa com os jornalistas, apelidou Paulo VI de "profeta", porque se preocupou com o "neomalthusianismo universal" que "procura controlar a humanidade". Francisco referiu, aos jornalistas, que os especialistas recomendam três filhos por casal.

"A ideia-chave que a Igreja defende é a paternidade responsável. Como é que esta se faz? Pelo diálogo. Este existe no seio da Igreja, nos grupos matrimoniais, nos especialistas, nos pastores", insistiu o Papa.

Maria José Vilaça, presidente da Associação de Psicólogos Católicos, confirma que esse apoio existe em grupos no interior das paróquias mas também é feito por associações e outras organizações. Um apoio que pode começar durante o namoro e que se estende às famílias. "O que [o Papa] faz é dizer às pessoas para usarem a razão. É dizer que Deus nos deu a razão não para procriarmos como animais mas para nos reproduzirmos como seres humanos."

Não existe nas declarações do Papa qualquer palavra contra as famílias numerosas, salvaguarda Hugo Oliveira, secretário-geral da Confederação Nacional das Associações de Família. "A Igreja deve acompanhar a evolução da sociedade e o Papa tem dado sinais claros de querer passar uma mensagem de protecção da família. Há uma mensagem de responsabilidade", afirma. Noel Asseiceiro acredita que “uma família numerosa cria dinamismos que a enriquecem muitíssimo a todos os níveis” e alerta: “Não nos deixemos enganar por interpretações evasivas. É fundamental para bem da Europa promover a natalidade, como sempre defendeu a Igreja Católica.”

No avião, o Papa denunciou ainda a "colonização ideológica" contra a família tradicional. A presidente do Movimento Defesa da Vida, Graça Mira Delgado, alerta para os países em desenvolvimento, onde as pessoas são "condicionadas a aceitar formas de controlo de natalidade que vão contra a sua cultura". "Isso é grave."