Um terço do território europeu tem pelo menos um grande carnívoro

A evolução dos grandes carnívoros na Europa merece um “optimismo cauteloso”, segundo um estudo que defende o modelo de conservação europeu onde os animais e as pessoas coexistem.

Uma família de ursos pardos com uma fêmea e três crias na Noruega
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Uma família de ursos pardos com uma fêmea e três crias na Noruega Kjell Isaksen

Na mesma semana em que os dois primeiros linces-ibéricos foram soltos num cercado de dois hectares em Mértola, um estudo publicado na revista científica Science mostra um “optimismo cauteloso” na evolução das populações de quatro grandes carnívoros no território europeu: o urso-pardo (Ursus arctos), o lince-euroasiático (Lynx lynx), o lobo (Canis lupus) e o glutão (Gulo gulo).

Um terço do território europeu (que, neste estudo, exclui a Rússia, a Ucrânia e a Bielorrússia) conta com populações reprodutoras de, pelo menos, uma das quatro espécies, conclui o trabalho. A Bélgica, a Dinamarca, a Holanda e o Luxemburgo são os quatro países da Europa continental sem nenhuma destas espécies, que também não existem no Reino Unido. Tanto Portugal como Espanha têm populações do lobo, mas em Espanha também há pequenas populações do urso-pardo.

Este sucesso, dizem os investigadores, deve-se ao modelo de conservação usado na Europa, que não contém os animais só dentro de zonas de protecção, mas permite que eles ocupem uma maior área territorial, tendo que para isso coexistir com as pessoas. Este modelo é diferente do modelo de separação usado em países como os Estados Unidos, onde os animais selvagens ficam retidos nas áreas protegidas.

“A Europa tem o dobro de lobos que os Estados Unidos (retirando o Alasca) apesar de ter metade do seu tamanho e ter o dobro da sua população. A nossa experiência mostra a incrível capacidade que estas espécies têm para sobreviver ao mundo moderno, dominado pelo homem”, diz Guillaume Chapron, um dos autores do estudo e investigador da Estação de Vida Selvagem de Grimsö, da Universidade de Ciências Agrícolas da Suécia, citado pelo site Science Daily. O estudo teve o contributo de 76 investigadores de 26 países europeus.

O trabalho permitiu obter a área de ocupação actual dos quatro mamíferos, estimar os números dos efectivos das populações e avaliar o estado delas.

Assim, das quatro espécies, é o urso-pardo que conta com mais animais: 17.000 indivíduos distribuídos por 22 países. Todas as populações do urso parecem estar relativamente estáveis ou a expandirem-se ligeiramente. Algumas, no entanto, mantêm-se muito pequenas.

Há 12.000 lobos na Europa com dez populações em 28 países, a maioria está a aumentar, mas uma população em Espanha está quase a extinguir-se. O lince vive em 23 países com 9000 indivíduos. Algumas das onze populações deste felino estão a decrescer.

Por outro lado, o glutão, que habita as zonas subpolares ou de grande altitude, conta com duas populações com 1250 indivíduos distribuídos só pela Suécia, pela Noruega e pela Finlândia.

“Este cenário permite ter um optimismo cauteloso para a ocorrência, a abundância e as tendências para os grandes carnívoros na Europa”, escrevem os autores no artigo. A equipa explica este sucesso devido à calma política que a Europa vive desde o pós-guerra, o aumento das populações de herbívoros, as políticas de conservação da União Europeia e os movimentos ambientalistas que nasceram nas décadas de 1960 e 1970.

“Se o modelo de separação tivesse sido aplicado à Europa, dificilmente haveria populações de grandes carnívoros, porque a maioria das áreas protegidas europeias são demasiado pequenas para terem até mesmo pequenas unidades reprodutivas de grandes carnívoros”, lê-se no artigo.

A densidade populacional das áreas onde os grandes mamíferos vivem vai de 36,7 habitantes por quilómetro quadrado para o lobo até 1,4 habitantes por quilómetro quadrado para o glutão. Para que a situação destes animais continue a evoluir da mesma forma e os grandes carnívoros possam coexistir com as populações humanas, os investigadores defendem algumas práticas como cercas eléctricas que defendam os animais de criação daqueles carnívoros.