Antoine Deltour tem 28 anos e é francês Renaud Lecadre/Libération
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Antoine Deltour tem 28 anos e é francês Renaud Lecadre/Libération

Aos 28 anos, Antoine revelou escândalo no Luxemburgo

Antoine Deltour é um dos responsáveis pela revelação do escândalo dos acordos fiscais secretos entre o Luxemburgo e 340 multinacionais. Francês de 28 anos diz ter agido “por convicção”

Depois de, em Novembro, um consórcio internacional de jornalistas ter revelado pormenores sobre acordos fiscais secretos entre o Governo luxemburguês e 340 multinacionais — num escândalo mais conhecido por LuxLeaks —, é agora conhecida a identidade de um dos autores da informação. Antoine Deltour, de apenas 28 anos, é acusado de roubo e violação de segredo comercial mas, em entrevista ao jornal francês “Libération”, alega ter agido por convicção.

Durante dois anos, entre 2008 e 2010, este jovem francês trabalhou na auditora PricewaterhouseCoopers (PWC), acusada de envolvimento nas negociações para os acordos fiscais em causa — que permitiriam às multinacionais em questão o não pagamento de impostos. Quando decidiu abandonar a empresa ,por “não se sentir em casa naquele ambiente” , Deltour terá copiado documentos que provam as fraudes fiscais.

“Na véspera de sairmos de uma empresa pretendemos capitalizar a experiência profissional”, começa por justificar ao “Libération”. “Copiei documentos de formação. Mas, ao pesquisar a base informática da PWC, cheguei a estes famosos ‘tax rulings’ [acordos fiscais vantajosos]”, explica-se. Garante não ter tido qualquer “intenção particular” ou “projecto concreto” quando os copiou. Apenas estava “estarrecido com o seu conteúdo”. A PWC diz que o antigo funcionário se apropriou de material confidencial, mas Deltour alega não ter encontrado qualquer barreira informática.

Do jovem contabilista pouco se sabe, além da idade e nacionalidade. Na entrevista ao jornal francês, Deltour afirmou que não entregou os documentos ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ), mas sim a um jornalista francês — isto em 2012, dois anos após se ter demitido da PWC. “Desde o início que agi por convicção, pelas minhas ideias e não pela atenção mediática. Sou apenas um elemento de um movimento mais geral”, reflecte, apontando o facto de não ser o único delator. Isto porque há documentos do LuxLeaks posteriores à sua saída da empresa, bem como referentes à actividade de três outras auditoras financeiras: Deloitte, KPMG e Ernst & Young. “A regulação chegará sempre atrasada em relação à engenharia fiscal”, conclui, pelo que será “injusto” que o grão-ducado seja o único país envolvido no escândalo.

Deltour, que entrou na PWC como estagiário no final do curso, enfrenta agora uma pena de prisão que pode chegar aos cinco anos, bem como uma multa de um milhão de euros por ter violado segredo comercial. “Sou cidadão, pago os meus impostos como você, e gostaria que as multinacionais pagassem também a parte delas ao mesmo título que eu pago os meus impostos sobre o rendimento”, defende-se o francês, citado por Rui Tavares na crónica “Se não eu, quem?”, publicada esta quarta-feira, 15 de Dezembro, no PÚBLICO.

Antoine Deltour junta-se aos também jovens norte-americanos Edward Snowden e Bradley Manning na lista de delatores acusados de crimes. Snowden, ex-analista informático da Agência Nacional de Segurança americana (NSA), revelou pormenores sobre como os EUA espiam os países aliados e inimigos. Já o antigo Bradley (agora Chelsea Manning) terá passado informação confidencial sobre as guerras no Iraque e Afeganistão à WikiLeaks.

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