Na imaginação de W. T. Vollmann

Romancista, desenhador, ensaísta, jornalista, faz da pesquisa uma perfomance para uma escrita demorada e delirante onde questiona o real. Estreia-se em português com o seu primeiro livro, sátira a que chamou cartoon. Uma conversa a partir de Sacramento com um cenário improvável

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Auto-retrato

“Pois é, as pessoas tendem a falar do escritor, em vez do que ele escreve. Para classificar a obra é preciso lê-la” e a obra e W. T. Vollmann, 55 anos, romancista, jornalista de guerra, autor de ensaios, aguarelista, desenhador, contista é longa.

Muitos títulos, milhares de páginas, livros extensos, quase sempre resultado de um jogo, que também é pacto, entre os que são “matéria” de pesquisa e quem escreve. Enquanto pesquisa, Vollmann gosta de vestir a pele de personagens possíveis. Mascara-se de mulher, torna-se cliente de prostitutas, esteve na frente de combate no Afeganistão do lado dos mujahideen na guerra contra a URSS, em 1982. Viajou ao Camboja e à Somália e escreveu depois um tratado sobre violência, Rising Up and Rising Down (2003), onde quis estabelecer o que chama de “cálculo moral” sobre esse tipo de comportamento. Foram 3.300 páginas em inglês que depois resumiu para pouco mais de 700. Para que fosse lido, mas porque precisava de vender. Vive da escrita. Esse é o seu desígnio pessoal desde que recusou estudar Direito ou Economia, o desejo dos pais. Mas talvez mesmo antes disso, quando um acidente lhe mudou a vida e o modo de estar nela. Fala do trauma no princípio do impulso. Culpa também serve. Tinha nove anos e os pais pediram-lhe que tomasse conta da irmã de seis enquanto iam nadar. Ela caiu na lagoa e afogou-se. “Nunca me livrei da culpa. O trauma pode afectar o que escrevo. Acho que não acontece com toda a gente. Há pessoas que podem ser magoadas de diferentes maneiras da que eu fui. É muito misteriosa e complicada a relação entre trauma e entendimento ou empatia para a arte”.

Mas a escrita não lhe é suficiente enquanto meio de expressão. Por isso viaja, desenha, encontra outras linguagens para ser um intermediário entre o mundo que testemunha e os outros, os que o lêem. Nesse processo, é quase sempre um solitário, obcecado, que recusa socializar através dos novos meios tecnológicos. Foi programador de computadores nos anos 80, mas não usa internet, não tem cartões de crédito nem telemóvel. Escreve cartas, “vou aos correios, imagine!”, conta a partir de Sacramento, Califórnia, onde vive com a mulher e a filha, e escreve num edifício de madeira, com janelas entaipadas, um antigo restaurante mexicano.

“É um edifício muito grande, um piso único com um parque de estacionamento enorme. As janelas estão fechadas. As cortinas corridas, não se pode ver para fora, e há uma vedação em arame farpado a rodear o conjunto”, descreve como um cenário de ficção. “Do exterior parece um edifício deprimente e abandonado e espero que isso desencoraje mirones.” No interior, pinta, quando lhe apetece, directamente nas paredes, e tem um longo banco, com os trabalhos que está a escrever, blocos, anotações, à mão, papéis dactilografados. Deixou de ser ele a teclar, um problema dos tendões que se agravou a partir dos 30 anos. Como refugio maior, há um quarto com uma cama e estantes até ao tecto. É dali que fala ao telefone, voz pausada em histórias sucessivas, entre a ironia e uma tagarelice muito semelhante à que se encontra nos seus livros, mas sempre a tentar a palavra certeira, atento ao efeito. Sabe que o olham como excêntrico, não faz por isso, mas também não deixa de fazer. “Faço o que acho necessário ao meu trabalho. Não sou um performer, mas gosto de estar nos cenários”, diz para falar desse pé na realidade que nunca abandona, mesmo nos textos mais delirantes como este da sua estreia em português, que é também o seu primeiro romance, pela primeira vez traduzido, Vós, Luminosos e Elevados Anjos.

Depois do Afeganistão
Publicado em 1987, chamou-lhe cartoon, uma sátira feita de personagens “planas”, sem a densidade e a diferença de perspectivas que caracteriza os seus trabalhos seguintes, mas revelador da hiper-actividade da imaginação deste escritor que venceu o National Book Award para ficção em 2005, como o romance Europe Central e que muitos comparam a David Foster Wallace também pela imaginação hiperbólica. Além do tal inconformismo estilístico e exploração exaustiva dos limites da mente humana. Faz-lhe sentido?

“Porque não? Éramos amigos e ambos escrevíamos livros muito grandes. Uma das poucas coisas que retirei da minha formação em Literatura Comparada [em Berkeley] é que podemos sempre juntar duas pessoas ou duas coisas. Haverá sempre aspectos comuns. Não é isso que estamos sempre a fazer enquanto seres humanos? Podem comprar-me a quem quiserem”.

Bug é o herói deste romance ilustrado pelo próprio Vollmann. “Ateu, espião, revolucionário, aliado dos insectos, fundador do movimento Kuzbuite; 44 anos no Ano 1 da Revolução; formação universitária”, como se lê na apresentação das personagens desta historia sobre o conflito entre um exército de insectos e as forças do mal, representadas pela revolução tecnológica. Uma alegoria que nasceu sob influência do tempo em que Vollmann esteve no Afeganistão. “É um livro muito diferente do que escrevo agora, mas diverti-me tanto nesse período, fechado na minha imaginação, a pensar em coisas muito loucas. Lembro-me desse tempo com felicidade”, conta agora sem ter mudado muito de opinião quando à simbologia contida nesse texto onde elabora, fantasiosamente, sobre alguns dos aspectos que considera mais perniciosos das transformações tecnológicas, numa altura em que não se sonhava com o que poderia ser este presente. Mesmo assim a distopia que agora chega continua a fazer sentido pela possibilidade que ensaia, e, claro, enquanto exercício literário de um escritor que nunca chegou a best-seller porque quase tudo o que faz não encaixa em parâmetros populares, influenciado por escritores como Lautréamont e o seu Maldoror. “Ó, meus luminosos e elevados anjos, vós estais nos vosso túmulos? Eu, o vosso autor, estou sozinho; não resta mais ninguém no mundo”, lê-se no início de um sub-capítulo, Cognições Sintéticas a Priori, que arranca com uma citação de Lautréamont. É uma paródia que nasceu em circunstâncias pouco vulgares.

Depois de regressar do Afeganistão, arranjou mais um dos seus empregos de subsistência. Foi programador de computadores. “Eu não consigo conduzir um carro. Vivia em S. Francisco e era programador em Silicon Valley e muitas vezes ficava dias seguidos no escritório. Os chefes não sabiam, mas eu não tinha para onde ir. Mantinha um saco-cama e quanto todos iam para casa, trabalhava no romance umas horas. Quando ficava cansado dormia debaixo da secretária e punha um caixote de papéis em frente de mim para que os vigilantes não me vissem a dormir. Acho que viam, mas tinham pena de mim. Não havia um lugar para tomar duche, vestia as mesmas roupas durante algum tempo e vivia de barras de cereais, a única comida que havia nas máquinas.” Ri. “Não queria nada ter de fazer isso agora e, de facto, não tinha de fazer isso a maior parte do tempo. Mas era muito divertido trabalhar no meu livro, à noite.”

O livro saiu discretamente. O trabalho de W. T. Vollmann destacava-se enquanto repórter de guerra. Publicava nas revistas e jornais meus prestigiados. A Harper’s, The New Yorker, Esquire, Granta. Enquanto escrevia contos, ensaios, pensava em transformar a realidade a que assistia em projectos de arte. Quase sempre ambiciosos. O ensaio sobre a violência levou-lhe mais de vinte anos de escrita. Seven Dreams, série de ficção onde recria a Historia da América, mais de dez. Se não for assim não lhe faz sentido. Mesmo nessa primeira experiência, alucinante, com sublinha, o ponto de partida é real. “O livro é em parte sobre liberdade e terrorismo. Os mujahideen foram uma das influências. Naquele tempo admirava-os muito e, olhando para trás, ainda admiro. Fizeram muitas coisas para libertar o seu país da agressão russa e foram muito corajosos”.

Mais do que implícita é a crítica, que será permanente na sua obra, à sociedade moderna e ao modo como dita uma existência virtual, pouco profunda. Escolheu ficar tanto à margem disso quanto lhe é possível. Contam-se historias sobe esse modo de estar. Virou quase mito. “Uma das razões pelas quais não gosto da internet é essa vigilância. Na altura não era assim, mas tinha uma intuição de que iria por esse caminho. Há algo de bastante odioso em redes de computadores, no tráfico, sob muitos aspectos da vida moderna. No FBI, o meu trabalho consta entre os anti-progresso. Nesse aspecto eles estão certos, sou contra esse tipo de progresso. Se alguém abate uma bela floresta e a transforma num parque de estacionamento, eu sou contra.”

Conhece o meio. Trabalhou nele ou não o estaria a criticar. “Gosto de saber sobre o que falo ou seria um tonto.” Mas como vive um jornalista e um escritor sem as ferramentas que os computadores e a internet oferecem? “Na minha pesquisa prefiro usar a biblioteca. Não é verdade que nunca use a internet, pode acontecer, mas não tenho contas de email, o meu computador não está ligado à rede. Se estiver com um amigo que me diz: ‘Bill, deixa-me mostrar-te isto na internet’, não digo ‘não, que horror!’. Tomei uma decisão e basta fazer alguns ajustes. Muitas das minhas comunicações são por telefone ou por correio tradicional. Vejo os meus amigos serem constantemente interrompidos pelos telemóveis, ou preocupados porque há uma hora que não consultam o email. Tenho pena deles. Se não me apetecer falar, se não estiver à espera de um telefonema, ponho o telefone no armário e não o consigo ouvir. Posso deixá-lo lá dias e posso sem ser interrompido.”

A verdade da ficção
Parece fácil, se não estiver de estar actualizado com o que se passa em jornais, se estiver fora e enviar material. Diz que é apenas um pseudo-jornalista. O que escreve não é o imediato. Mas não consegue pensar no que escreve sem essa identidade: jornalista. Volta-se à realidade e à ficção sem de facto nunca de lá ter saído, mesmo quando o acusam de viver no mundo da lua. Nada nele é catalogável.

“São sempre os factos, e os factos segundo a imaginação”, refere, dividindo a verdade em dois tipos: a verdade literal, requisito ético do jornalismo, que muitas vezes não é a melhor história, ou a mais concisa ou simples, e a verdade da ficção, onde há que pensar “que tipo de verdade artística ou moral estou a tentar retratar. Aí, cada detalhe deve reflectir uma intencionalidade. Na realidade há muitos detalhes que estão lá por razões que não vemos ou não somos capazes de ver, ou nenhuma razão relacionada com o assunto que nos interessa.

Por isso, no princípio de tudo, quando parte para a investigação – e ela tende a ser demorada – pensa em escrever enquanto jornalista. “Quando se parte para um lugar desconhecido, não se sabe o suficiente para criar ficção. Criar boa ficção é muito mais difícil do que fazer bom jornalismo”. E porquê? “Porque para ser bom jornalista, o primeiro passo é estar de mente aberta, atento, recolher material com a preocupação do que é uma boa história, o que é verdade em relação a tudo o que acontece. Depois, os factos que se recolhem podem ser analisados mais tarde, depois de sair do lugar. E se chegar à conclusão que se está diante de um padrão e que se pode escrever ficção sobre isso, então é um trabalho lento e difícil. Lembro de que a primeira vez que escrevi sobre prostitutas isso levou-me bastante tempo, antes de saber o suficiente para criar personagens que fossem prostitutas na ficção.” Tocou num dos pontos mais comentados, a pesquisa que esteve por trás de uma reportagem e de The Prostitution Trilogy (1991-2000). Foi cliente? “Quando me pergunta sobre isso respondo sempre da mesma maneira. Se disser que fiz isso talvez achem que sou uma má pessoa e se eu disser que fiz de modo diferente as pessoas ficam desiludidas. Pode escrever o que quiser sobre isso.”

O julgamento moral não se separa do que faz e do modo como faz. “Acha mal?” Fala de sair do conforto, procurar. “Crescer”. “Pode parecer lugar comum, não é? Mas quero crescer na escrita e também por isso tento nunca fazer nada igual. Sei que é arriscado, que não sou muito famoso.” Ganhou o National Book Award. Não mudou nada? A resposta não sai directa. “Quando estou a trabalhar num livro acho sempre que é o mais importante que já fiz. É a natureza humana. Como quando se está apaixonado e se pensa que aquela é a pessoa para nós.”

Quando se lê Vollmann sabe-se que esta contradição anda sempre lá: o mal é uma quase inocência. Um jornalista uma vez disse-lhe isso. Não comenta. Já viu o pior, mas não perde o entusiasmo. Quando é para escrever só faz isso. Se não vai fazendo o que lhe apetece. “Por exemplo, hoje antes de me ligar estava a retocar dois quadros e também a tirar algumas notas sobre o 11 de Setembro, mais tarde vou provavelmente mexer em dois ou três livros. Não tenho planos.” E o que gosta de ler? “Tudo.”