O MoMA discute o crescimento desigual das megacidades

O arquitecto português Pedro Gadanho é o curador da exposição Uneven Growth: Tactical Urbanisms for Expanding Megacities, que pode ser visitada até ao final de Maio no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

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O Morro do Alemão no Rio de Janeiro Jefferson Bernardes/AFP
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Estimativas apontam para que a população mundial atinja os 8 mil milhões de pessoas até 2030. Desse número, dois terços viverão em cidades, muitas em situação de pobreza, ou com recursos limitados. Com base nesta premissa, o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova Iorque, que assina uma série de exposições que se debruçam sobre questões contemporâneas da arquitectura, lança Uneven Growth, o terceiro projecto desta série, que culmina numa exposição que acima de tudo quer servir como plataforma de expressão.

Tanto a escolha das cidades Mumbai, Lagos, Hong Kong, Nova Iorque, Istambul e Rio de Janeiro, que serviram como case studies , como das equipas, que incluíram não só arquitectos, mas também urbanistas, activistas, historiadores de arte e teóricos, foram pensadas por Pedro Gadanho, o português curador de Arquitectura do MoMA.

Durante 14 meses, as equipas que juntaram 12 colectivos de arquitectos definiram novas soluções urbanas para responder ao crescimento desigual destas megacidades. O resultado é Uneven Growth: Tactical Urbanisms for Expanding Megacities, que estará nas galerias de Arquitectura do MoMA até ao final de Maio de 2015.

Mais do que oferecer soluções finais ou globais para problemas de planeamento urbano, esta é uma exposição que procura lançar a discussão para aspectos que podem, ou não, ser endereçados por arquitectos. "É importante começar a trabalhar para a cidade enquanto um todo e para outras camadas sociais que não os 5% de clientes que têm uma maior capacidade de a desenvolver”, avança Pedro Gadanho ao PÚBLICO.

Acima de tudo, o que interessa ao curador é perceber como se podem estabelecer colaborações de conhecimento local e global, e criar novas visões e soluções através da combinação inesperada de perspectivas à partida distantes. “É isso que dá origem ao conflito produtivo, à colaboração.”

A abordagem de Pedro Gadanho tem sempre um lado de provocação, seja pelas discussões que procura criar, seja pela forma como apresenta a sua visão. Neste caso, o risco estava na própria promoção de colaborações entre pessoas que normalmente surgem como autores singulares. Com a liberdade para apresentar respostas realistas ou criar uma realidade alternativa, o curador deu espaço às equipas que nalguns casos, como Lagos (Nigéria) e Mumbai (Índia), responderam mais directamente aos problemas das cidades; e noutros, como Hong Kong, avançaram num plano de ficção.

Das favelas de Mumbai aos canais de Lagos

Assim que se entra nas galerias de Arquitectura do MoMA, ouvem-se sons metálicos, ruídos da cidade, de um bairro de lata, de um prédio em construção. Fotografias e vídeos transportam-nos para Dharavi, bairro-favela de Mumbai; as imagens de um piso ilegal em construção num tecto rebaixado e o ambiente imersivo fazem-nos esquecer que estamos no museu de Nova Iorque.

“De certo modo, interessava-me a quebra de um ambiente típico de museu, possibilitar a entrada num mundo diferente”, confirma Gadanho. Para pensar Mumbai, o curador juntou os URBZ, um grupo local que trabalha activamente com a comunidade em projectos de extensão de edifícios privados, e os POP Lab (Madrid), equipa que se tem debruçado sobre as mega-estruturas ao nível das infra-estruturas. É das diferenças entre os dois grupos que surge uma solução nova para a cidade, que propõe o crescimento da zona “mas sem produzir a típica torre e sem expulsar as pessoas que vivem em Dharavi”.

Esta composição urbana, no fundo, não é assim tão diferente de outras que nascem da pequena estrutura da vila de ruelas apertadas. E Gadanho lembra Alfama, “que hoje se transformou em atracção turística, mas que tem um modelo de funcionamento que não é adequado à lógica moderna de transportes e de acesso, mas que faz parte da cidade”.

A apropriação do que existe, em vez da sua erradicação para criar novos espaços, é um dos pontos comuns às propostas apresentadas para as seis metrópoles. Mumbai é uma cidade de favelas e arranha-céus, quase bipolar, onde construções informais continuam a surgir de forma desproporcional. As casas são usadas como residências e espaços de trabalho, mostrando uma ocupação produtiva dos bairros.

Este mesmo cenário repete-se em Lagos, onde a maior parte dos habitantes constroem as suas próprias casas e lugares de negócio. “Esta é uma parte muito importante do ponto de vista produtivo, onde acontece muita da actividade económica da cidade. As construções têm avançado sobre a água e uma vez mais a tendência seria a de arrasar esta parte ilegal e construir de novo, mas aquilo que se está a propor é usar alguma da criatividade já existente nesta forma de fazer e melhorar, o que revela uma sensibilidade e entendimento diferentes do slum", nota  o arquitecto e curador português.

Focando-se nos três principais problemas resultantes do crescimento desigual de Lagos – a sustentabilidade energética, a interacção com a água e a questão dos transportes –, os Nlé (Lagos e Amesterdão) e os Inteligências Colectivas (Madrid) repensaram os desafios transformando-os em oportunidades. A proposta é que se comecem a utilizar as infra-estruturas da cidade para um maior aproveitamento da energia, criando canais e novas soluções de transporte.

Para Pedro Gadanho, a resposta também tem a ver com a natureza dos grupos que trabalharam esta cidade. Os Zoohaus/Inteligências Colectivas são um colectivo muito jovem, cuja estratégia de pesquisa tem sido ir a cidades com grande actividade informal e fazer um catálogo desses recursos, transformando-os em potenciais protótipos para o futuro. “Eles apropriam a criatividade emergente, que também é um dos temas da exposição, os tais urbanismos tácticos; aproveitam esse fenómeno bottom-up e tentam convertê-lo numa arma de redesenho dessa cidade.”

Essa capacidade de juntar duas tensões inversas – a do planeamento que vem de cima, com um conhecimento técnico e que determina quais são as prioridades; e a que vem da comunidade, do emergente, do que é inevitável e que tem os seus próprios mecanismos – foi o brief que o curador passou aos grupos. Como é que os arquitectos e urbanistas podem aprender e apreender algo das intervenções espontâneas na cidade?

 Da utopia de Hong Kong ao “puxadinho” carioca

Com a possibilidade de ver a sua população crescer de 7,2 milhões para o dobro em apenas 30 anos, e a consequente falta de recursos, a ideia que surgiu para Hong Kong foi testar ilhas artificiais. Os Map Office (Hong Kong) e os Network Architecture Lab (Nova Iorque) apresentam, num tom irónico, a utopia das ilhas (a da terra, a do mar, a do eu; a dos recursos e a do excesso). “Esta é a proposta mais radical porque é completamente fictícia. Havia uma equipa local, a dos Map Office, que está em Hong Kong há 20 anos, e que juntei com o Net Lab, da Columbia University em Nova Iorque, que faz pesquisa sobre novos padrões da vivência urbana e que estabelece que o uso dos social media, em Hong Kong, levado ao extremo, pode ser a criação de uma ilha feita de becos para esse tipo de forma de estar na cidade.”

Também numa linha de ironia surge a proposta do Rio de Janeiro. Os RUA Arquitectos (Rio de Janeiro) e os MAS Urban Design (Zurique) exploram a ideia de classe média e da sua capacidade de consumo. 60% das pessoas que vivem hoje na favela da cidade carioca pertencem à classe média emergente, que é hoje o maior segmento da população brasileira. “A razão porque escolhi o Rio foi exactamente porque é uma das cidades em que a favela está muito presente no centro, não é nada invisível, e foi das primeiras cidades do mundo a iniciar este tipo de acção de reabilitação da favela; portanto era a cidade perfeita.”

Os cariocas encontraram uma forma de apropriação do espaço a que chamam de “puxadinho”, ou seja puxar, avançar um bocadinho mais. “Esta é muito a cultura portuguesa também, a de conquistar mais espaço através de um terraço ou de uma marquise. O que eles fazem é criar uma série de produtos que apelam à classe média que tem vontade de consumir, e que lhes permite, por exemplo, criar sombra, ou conquistar um bocadinho mais de espaço”. A linha de produtos Varanda alimenta a ideia de que se as pessoas tiverem os instrumentos certos, podem fazer a sua própria cidade. E com isso qualificá-la, tornando-a mais viva e convidativa.

Nova Iorque: a crise do direito à habitação

Numa cidade em que a classe média tem vindo a decrescer, e onde a lei pouco protege os arrendatários, a crise do direito à habitação parece ter vindo para ficar. Os Situ Studio (Nova Iorque) e os Cohabitation Strategies (Nova Iorque e Roterdão) decidiram debruçar-se sobre uma das consequências dessa crise de acesso à habitação: a sub-divisão, adaptação e conversão ilegal de casas em diversos pontos da cidade. O mapa alerta para zonas onde a subdivisão de apartamentos e moradias leva a que o mesmo espaço seja partilhado por 20 pessoas. Esta é uma realidade que não se vê da rua, mas no interior é como se existisse um slum escondido. “Já no início do século XIX, Jacob Riis retratava esta mesma realidade no Lower East Side.” Para Pedro Gadanho, “há necessidade de continuar a discutir este problema, talvez a cidade tenha de ser mais activa ou estabelecer outras estratégias para se conseguir oferecer mais cidade sobre a cidade”.

Os SITU Studio propõem uma estratégia que parte da ideia de a comunidade poder usar os espaços disponíveis – terraços e quintais, por exemplo – e os Cohabitation Strategies desafiam o conceito tradicional de propriedade, sugerindo que os donos dos prédios passem a ser um colectivo, garantindo a acessibilidade para as gerações futuras.

Criar a discussão é o mais interessante, para o curador: “Estão aqui duas soluções, agora as pessoas podem tomar partido, ou propor outras ideias, mas basicamente há um problema enorme em Nova Iorque que tem de ser resolvido. O mayor Bill de Blasio tem vindo a dar grande destaque a este assunto e nós vimos contribuir para esse debate com uma perspectiva de conhecimento arquitectónico”. A proposta desta série de exposições do MoMA é explorar problemas importantes ao nível social e que os arquitectos só de forma muito relativa acabam por endereçar no seu trabalho. “O MoMa é uma plataforma que tem imensa visibilidade e o que se faz aqui que possa ser polémico provoca de facto uma discussão.”

Na Europa: de Istambul a Lisboa

Gadanho queria escolher uma cidade que não fosse tão próxima de Nova Iorque quanto Paris ou Londres. “Queria uma cidade da Europa que tivesse problemas diferentes; e Istambul tem esta substituição da malha da cidade tradicional por blocos suburbanos que me interessava explorar. Há uma repetição de um modelo habitacional, com os condomínios fechados, onde as pessoas podem realizar o sonho de ter a sua casa, a sua sala de estar, a sua televisão, ou seja, mais uma vez a aspiração da classe média em crescimento”. O curador juntou os Super Pool (Istambul), um grupo jovem que traz uma componente de social media à proposta; e o Atelier D’Architecture Autogérée (Paris), que investiga os problemas sociais e urbanos dos subúrbios da capital francesa. O que propõem é a criação de uma economia alternativa, em que através de uma aplicação para o telemóvel, os habitantes da comunidade podem trocar os seus recursos. “Em vez de dinheiro, trocam-se unidades de serviço. Estes são modelos económicos que têm estado a ser discutidos e este grupo torna o esquema mais complexo ao nível da proposta urbanística”, diz Gadanho. Ao mesmo tempo, estuda como é que as tecnologias podem ajudar a organizar a vida urbana.

Apesar de Lisboa não ter chegado ao MoMA, o curador considera que há trabalho a fazer: “Seria importante perceber que tipo de intervenções urbanas estão a ser pensadas para resolver problemas de desigualdade e pobreza, e também perceber como é que pode haver reabilitação de determinados espaços como os sótãos dos prédios, por exemplo”.

Pedro Gadanho relembra o project do Atelier Artéria (Lisboa), que desenvolveu uma plataforma web que permite a venda de sótãos (sem ocupação) de imóveis degradados, em frações autónomas. “A proposta é que se pudessem alugar ou vender esses sótãos, para que houvesse uma ocupação inovadora dos espaços e com esse dinheiro fazer a reabilitação do edifício, mas para isso é necessário que a lei mude e responda às novas necessidades”.