Há mais doentes com cancro operados, mas o tempo de espera aumentou

É na mortalidade por cancro do cólon nos homens que Portugal está pior na comparação com outros países europeus.

Os investigadores estudaram mais de 800 tumores Foto: Enric Vives-Rubio

As cirurgias em doentes com cancro aumentaram 6,1% no ano passado (foram mais de 44 mil) mas, mesmo assim, esta evolução não foi suficiente para dar uma resposta adequada a todo o aumento da procura e verificou-se um “discreto” agravamento do tempo de espera. Resultado? No ano passado, 15,3% das cirurgias a doentes com cancro ultrapassaram os tempos máximos previstos na lei, mais do que nos anos anteriores, e, nos casos prioritários, essa percentagem foi ainda superior (15,8% dos pacientes foram operados depois do prazo legal).

São dados que constam do relatório “Portugal – Doenças Oncológicas em Números – 2014” que esta sexta-feira é apresentado em Lisboa e que reconhece a necessidade de “reforço do carácter prioritário da cirurgia oncológica” e da monitorização mais frequente dos tempos de espera.

Ao contrário do que aconteceu em 2012, as cirurgias aumentaram no ano passado, “mas não aumentaram tanto quanto precisamos”, admitiu ao PÚBLICO Nuno Miranda, coordenador do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas.

Mas o relatório inclui várias boas notícias. “Para a maioria das neoplasias, tem havido um crescimento significativo da carga assistencial a doentes com cancro nos hospitais portugueses”, notam os autores do documento, que acentuam o facto de se verificar “uma pequena diminuição” na taxa de mortalidade padronizada por tumores malignos, tanto na população em geral como no grupo etário com menos de 65 anos. “Este resultado é muito positivo, pois reflecte ganhos líquidos em saúde”, sustentam.

Pela primeira vez, aliás, faz-se uma comparação. ao nível da mortalidade padronizada, com outros países europeus e Portugal fica bem na fotografia. Na generalidade dos tumores malignos, está melhor do que a média europeia ou perto da média, congratula-se Nuno Miranda. A excepção é o caso do cancro do cólon nos homens. “Aqui temos um problema", admite o responsável.

Lembrando que a  evolução do panorama da oncologia tem colocado “desafios crescentes aos sistemas de saúde”, devido ao aumento muito significativo de novos casos e à exigência de mais meios técnicos e humanos, os autores do relatório consideram, mesmo assim, que o Serviço Nacional de Saúde (SNS) “tem conseguido acomodar, em grande parte, as novas solicitações”.  Destacam, a propósito, o aumento progressivo e gradual dos tumores da mama, cólon e pulmão, sendo este último particularmente preocupante, atendendo "à letalidade associada". As doenças oncológicas representam, aliás, 10,38% da carga global de doença em Portugal.

Chamam também a atenção para a persistência de algumas variações regionais que carecem de explicações e de soluções. Exemplos? Tanto no sexo masculino como feminino, há altas taxas de mortalidade no cancro do estômago na Administração Regional de Saúde (ARS) do Norte, enquanto na região de Lisboa e Vale do Tejo sucede o mesmo com o cancro do cólon e, no Alentejo, com o do recto. No Algarve, destaca-se a alta taxa de mortalidade do cancro da traqueia, brônquios e pulmão, ao contrário do que acontece na região Centro.  Nos cancros de mama, as maiores taxas de mortalidade são observadas nas ARS de Lisboa e Vale do Tejo e no Algarve.

Em 2012, só em quatro tipos de cancro os portugueses perderam mais 45 mil anos de vida potencial, revela o relatório. No cancro do pulmão, o que mais anos de vida potencial perdidos representa, a boa notícia é a de que nos homens se assiste a uma diminuição, ainda que apenas na população com mais de 50 anos, mas nas mulheres  observa-se “um agravamento da situação”.

Mais rastreios, menos adesão
Quanto aos rastreios de base populacional, defendem que se deve avaliar “de forma crítica” o real impacto do rastreio do cancro da mama feminina e concretizar “um sistema eficaz e consequente” de rastreio do cancro colo-rectal, devendo ainda as assimetrias regionais ser “rapidamente eliminadas”.

A este nível, há um fenómeno contraditório que não é explicado no documento. Apesar de a cobertura geográfica ter aumentado nos rastreios do cancro de mama e do colo do útero, além do cólon e do recto, a taxa de adesão diminuiu em 2013. "As pessoas têm menos disponibilidade. Algumas, por exemplo, têm medo de faltar ao trabalho", explica Nuno Miranda.

De resto, os autores do documento voltam a defender que as instituições com menor número de cirurgias e tratamentos “devem ser integradas em modelos de colaboração com outras instituições com maior volume de intervenções”.  Lembram também que é necessário planear a actualização do parque de equipamento de radioterapia.

Num breve apanhado dos resultados dos cheques emitidos para a detecção de cancros orais, indica-se que, dos 1969 vales disponibilizados, apenas foram utilizados 508. Duzentos e cinquenta e uma pessoas foram aconselhadas a fazer biópsias e foram identificados 12 casos com resultado positivo.