Miguel Manso/Público
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Miguel Manso/Público

Megafone

Caro senhor empregador, pode dar-me uma resposta?

Desemprego: é que, por incrível que pareça, isto de estar em casa sem fazer nada até cansa bastante...

Desde o início do curso que me têm vindo a contar histórias do papão "desemprego". Sempre me avisaram que, mais cedo ou mais tarde, ia ser eu a estar nas filas do IEFP (ou centro de emprego, se quiserem). Por acaso, a minha inscrição até foi engraçada: a senhora fez-me todas as perguntas da praxe como se fosse uma amiga a tentar arranjar-me emprego. Talvez ela não tenha percebido que eu sou de Jornalismo e os jornais, rádios e televisões não vão ao centro de emprego procurar desempregados... E foi mesmo isso que eu lhe disse: "Sabe, não me vai arranjar emprego..." A resposta surpreendeu-me. "Nunca se sabe", disse a senhora, enquanto preenchia a minha ficha. Pronto, é oficial, faço parte das estatísticas.

Desde sempre acreditei que eu ia ser diferente, eu ia arranjar emprego. Dizem que a esperança é a última a morrer, mas eu nunca pensei que este sentimento pudesse ser tão prejudicial. Nas últimas semanas descobri que a esperança nasce em cada envio do currículo, revela-se de todas as vezes que vamos ao e-mail à procura de uma resposta, e mata-nos sempre que a resposta não chega. Por este prisma, já estaria morta e enterrada, pois respostas é coisa que raramente recebo.

Não consigo entender como é que as empresas podem ser de tal forma ocupadas que nem tempo para enviarem um e-mail tipo têm. Bastava dizerem "obrigada pelo contacto, de momento não precisamos". Creio que os empregadores não entendem como esta resposta é o ponto final que leva ao início de um novo parágrafo. Fica riscado da lista. Custa-me também ver que nós, os desempregados que ainda têm esperança, somos tão insignificantes que nem uma resposta merecemos. A minha mãe sempre me ensinou que devemos responder às pessoas, segundo as normas da boa educação. Se calhar a minha mãe devia dar formações de boa educação às empresas portuguesas.

As três fases

Este desprezo que existe por nós é o principal responsável pelo fim da nossa esperança. Para mim, existem três fases do desemprego. A primeira é "o sonho", onde ainda acreditamos que vamos conseguir um emprego na área que gostamos; que vamos conseguir ganhar o suficiente para governar a vida e deixar as saias da mãe. Nesta fase, somos otimistas, temos esperança e até acreditamos no Pai Natal, se for preciso.

A segunda fase já é mais complicada e dá-se pelo nome de "abrir horizontes". Entramos nesta fase quando aceitámos que o nosso trabalho de sonho não vai aparecer tão depressa e resolvemos experimentar novas áreas... "Responsável de publicidade? "Telemarketing"? Porque não? Aliás, ganho novos conhecimentos e depois posso sempre mudar, certo?"

Por fim, chega a terceira fase: "O desespero". É uma fase conturbada, quase sem esperança, em que já só queremos qualquer coisa que dê para ganhar algum dinheiro. Depois há a emigração, mas isso já é outro tema...

Nem toda a gente passa por estas três fases... Eu ainda estou na primeira e espero não chegar à última. É que, por incrível que pareça, isto de estar em casa sem fazer nada até cansa bastante...