João Peleteiro
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João Peleteiro

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Apologia do Lobo: a propósito do JWT

Esta é a hora de apoiar os nossos jogadores e o que representam em termos de processo, independentemente do resultado circunstancial

Nota prévia: não tenho escrito sobre outra coisa que não a vertente táctica e técnica do jogo, porque há neste espaço quem o faça bem melhor que eu. Farei aqui uma única excepção, porque os Lobos o merecem. E a magnitude do Junior World Trophy, que se aproxima, também.

 

O ensaio do Pedro Bettencourt na tremenda vitória contra a Namíbia - que vi apenas em repetição, no lobby de um hotel em Bruxelas, com recurso a um “streaming” soluçante – é absolutamente incrível. Refiro-me concretamente ao “offload” – ou passe em carga, como brilhantemente sugere João Paulo Bessa, na sua busca incessante pela elevação do râguebi luso, escrito em Português – do Gonçalo Foro, que há uns anos seria impossível de ver. É o exemplo último do trajecto deste cintilante Lobo, que sem surpresa é também uma das melhores pessoas que conheço. Apareceu no CDUL há quase 20 anos atrás; um pau de virar tripas que fazia da capacidade para atrair o riso, nem sempre construtivamente, a sua forma de sobrevivência. Durante anos, até os mais próximos desconfiaram da sua metamorfose em atleta de eleição, primeiro, e em homem de excelência, mais recentemente. É um dos mais relevantes Lobos da nossa história, e um jovem empresário de sucesso, apesar de quase todos, incluindo o escriba, lhe terem aconselhado outros caminhos. O Gonçalo, juntamente com o Pedro Cabral, outro Lobo, percorre o seu caminho de superação e triunfo no difícil mercado da restauração. Há 15 anos, não se vislumbrava nele a liderança de um negócio próspero, da mesma forma que não se adivinhava este “offload”, porque só o Gonçalo, os seus colegas e treinadores acreditam que um homem de 30 anos pode aprender a aproveitar vantagens e libertar apoios no espaço. Os Lobos são surpreendentes.

 

A mesma história é válida para o Francisco Pinto Magalhães, que há 10 anos tinha apenas a capacidade de passar a bola à velocidade de uma bala, amuado por ser suplente no seu primeiro ou segundo jogo sénior. É hoje um Lobo de corpo inteiro, comprometido com o treino e com as prioridades do colectivo, ao ponto de ter aprendido a ser um defensor generoso; o Nuno Penha e Costa, que era há quatro anos apenas o mais talentoso jogador nacional, e transforma-se hoje num Lobo criterioso na decisão, ciente do interesse dos que vestem a camisola comum. Escuto histórias semelhantes sobre o Diogo Mateus, o Vasco Uva, Pedro Bettencourt e todos os nomes que nos honram ao defender o escudo nacional. E conheço dezenas de Lobos sem camisola, como o João Sacadura, que foi no CDUL um dos mais talentosos jogadores que treinei, que não pensou um só dia nele antes dos demais. O exemplo do Lobo não se confina ao campo e não se esgota numa camisola.

 

Existe de facto algo de raro e superior na forma de existência desta gente. Tenho o prazer de ajudar, a espaços, os Lobos João Pedro Varela e Luis Pissara – muito bem coadjuvados pelo Nuno Damasceno, nos avançados – nos trabalhos da Selecção Nacional de Sub-19/Sub-20. Para tornar viável a loucura do triatlo, o “Lois” levanta-se de madrugada e corre meias-maratonas, nada em barragens ou mete meia centena de quilómetros na bicicleta. Tudo enquanto eu lavo os dentes, depois de comer um ovo cozido, orgulhoso porque reaprendi a comer de forma saudável. Fala sobre o prazer que sente em representar, em cada corrida, a mulher e filhos, os pais, todos aqueles que acreditam nele e depositam em si as esperanças de derrota dos limites percebidos da nossa existência. O Luis Pissara transformou o triatlo numa modalidade colectiva, porque é na consideração do bem colectivo que o desporto toca no Divino. Abomino as evocações e exemplos motivacionais fáceis tão típicos de Hollywood, mas nestes tempos de discurso dominado pelo trauma pós-troika, talvez os Lobos sejam a inspiração de que o país precisa.

 

Os Lobos são diferentes e vêm oportunidades onde seria mais fácil ver desculpas para o falhanço. Foi com este orgulho feroz que as nossas “crias de Lobo” venceram, nas meias-finais do Europeu de Sub-19, uma Espanha que teve 80% de território e 70% de posse de bola. Defenderam com a alma do País, recuperaram 12 bolas e fizeram duas placagens praticamente dentro da área de ensaio, que obrigaram o adversário a “cuspir” a bola. Um aperitivo para a participação no “Junior World Rugby Trophy”, segunda competição mundial no escalão Sub-20, e que Portugal organiza pela primeira vez. O país não pode desperdiçar a oportunidade de deixar o selo de qualidade na organização deste evento, do mesmo modo que os Portugueses não podem deixar de apoiar miúdos que correm, transpiram e placam por uma ideia nacional de inadmissibilidade da mediocridade, de espaço à superação e possibilidade de triunfo.

 

José Alberto Carvalho dizia recentemente à Sábado, a propósito da interacção com Manuel Forjaz, que os Portugueses têm uma opinião sobre tudo, “por culpa de uma rebeldia contida que vem do tempo do Viriato – somos o povo que não se governa nem se deixa governar”. Também eu tenho uma visão crítica sobre o estado do râguebi nacional, mas chegou a altura de termos a ousadia de não ter opinião – simplesmente porque nada construo em torno dessa opinião, que assim se torna irrelevante para a modalidade. Esta é a hora de apoiar os nossos Lobos e o que representam em termos de processo, independentemente do resultado circunstancial. Contamos com Portugal.

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