Construindo Samuel

Há um ano que Samuel anda a juntar as partes de um todo. Escolheu o seu novo nome, fez desaparecer o perfil de Natacha no Facebook, mudou de número de telemóvel, tem um novo cartão do cidadão. Mas essas são as mudanças mais fáceis. A mãe dele, que sempre quis ter uma menina, continua a enganar-se: “Ela agora é meu filho.”

Como é que tu estás?” “Eu estou bom, eu estou bom, eu estou bom”, tinha de parar de dizer “eu estou boa”. É como se tivesse um ginásio dentro da cabeça, era preciso treinar muito, repetir, repetir, fazer muitos exercícios para que as palavras lhe começassem a sair certas. Houve dias em que foi para a cama mentalmente exausto, “eram tantas as dores de cabeça. É um esforço enorme”. Conseguiu, agora raramente se engana. Mas Samuel mudou mais depressa do que o mundo à sua volta. Para a mãe, é mais difícil: ainda lhe saem frases misturadas, como “ela agora é o meu filho”. Ana precisa de mais tempo para se habituar à ideia de que deixou de ter uma filha.

Há quem prefira passar “pelo neutro”, o sem género, optando por responder com um “está tudo bem” ou um “hoje não me sinto bem”, em vez do “estou boa” ou “estou bom”. Samuel não quis passar por esta fase intermédia. Há tanto tempo que tinha a certeza de que nasceu para ser homem que não quis meias-tintas, quis passar directamente para o treino da concordância com masculino. E é preciso mudar desde adjectivos, a pronomes possessivos e substantivos, “tua” passa a “teu” — “sou o teu filho” — a artigos definidos e indefinidos, “a” passa a “o”, “uma” passa a “um”. “Eu sou um rapaz.” É todo um vocabulário que é preciso reaprender para que não haja falhas. Sobretudo nas conversas com quem o conhece agora, como Samuel, e nunca conheceu a Natacha. É Samuel quem usa o termo “personagem”. Foi preciso fazer “morrer a Natacha” para “criar” o Samuel, o nome que escolheu para si em Abril do ano passado, e depois caracterizá-lo. 

Nas pessoas transexuais, a sua identidade de género — a identificação psicológica como homem ou mulher — não corresponde ao sexo (biológico) com que nasceram. A socióloga Sandra Palma Saleiro, na sua tese de doutoramento Transgéneros: Uma Abordagem Sociológica da Diversidade de Género, chama-lhe “descoincidência entre sexo e género”. Samuel nasceu rapariga mas sempre se sentiu como um homem. “A identidade de género tem que ver com o que sentimos que somos, é uma identificação psicológica”, explica, já o género é uma construção social: é ensinado e aprendido em sociedade.

“No que toca ao género, somos uma página em branco”, explica o médico sexologista clínico Pedro Freitas, que acompanha há 11 anos casos clínicos de transexuais. Os comportamentos ditos femininos ou masculinos são adquiridos em sociedade e, por mais que não queira, Samuel foi educado como Natacha, por isso há muito que precisa de mudar. Não basta o nome. Tornar-se Samuel exige esforço, autocontrolo, é preciso estudar, imitar para construir Samuel. Há um ano que ele anda a juntar peças.

Samuel já conseguiu mudar o género às suas palavras, agora raramente se engana, só em situações de stress, em que “o hábito, que é traiçoeiro”, ganha ao treino, e pode sair-lhe um “estou chateada”. Mas para ele é mais fácil, ele continua a falar na primeira pessoa do singular, ele é um eu. “Sou simplesmente uma pessoa, com duas vidas.” Para os que durante 23 anos o conheceram como Natacha, é muito mais difícil. Ele sabe, por isso está a dar-lhes tempo, tem paciência quando se enganam. “Se isto é difícil para mim, imagine para os outros. A Natacha existiu, a Natacha foi importante na vida de muita gente.” Samuel sabe. “A minha mãe sempre quis a menina.”

Ana Pereira, a mãe de Samuel, ainda está a adaptar-se. Há expressões confortáveis, onde se refugia, porque já faziam parte da sua forma de falar com a filha: “Olá, meu amor”, diz ao telefone. É frase que tanto dá para Samuel, o seu filho, como para a Natacha, que era a sua filha. Aos outros e a si também explica que “é a mesma pessoa”. “Pessoa” também tanto dá para o Samuel como para a Natacha; “criança” também daria, mas tem sempre de escolher se diz “ela era uma criança” ou “ele era uma criança”. “Bebé” também dá para os dois lados, mas quando recua a esse tempo não tem dúvidas quanto ao género a usar. Quando um bebé nasce, há logo quem venha dizer à mãe, por defeito, “é um bebé lindo”, acontece que a ela diziam-lhe “olha que a tua é mesmo linda” e Ana concorda: “Não é por ser minha filha, mas era mesmo muito linda, linda, linda, carequinha, não vinha enrugada.” Pesava 2990kg, media 49 centímetros, a Natacha. Nasceu a 17 de Maio de 1991.

Ana, de 59 anos, é proprietária de duas lojas de roupa feminina, em 12 irmãos ela está mais ou menos a meio e durante a sua infância coube-lhe muitas vezes tomar conta das quatro irmãzinhas mais novas na aldeia onde nasceu, no Gerês. Gostava de cuidar das suas meninas, de as vestir, de as arranjar. Mais tarde, quando foi mãe, teve primeiro um rapaz. Depois, ficou muito feliz com o nascimento da sua “princesinha”, com “o casalinho”. “Fiz o gosto ao dedo”: encheu-a de vestidinhos e saias, bandoletes e laçarotes, inundou-a de cor-de-rosa — “adoro cor-de-rosa” —, de bonecas e peluches, ela e a sua enorme família feita de mais 11 irmãos. Na primeira foto do álbum de Natacha, surge uma bebé dentro de uma banheira rosa em cima de uma colcha rosa. “É a minha princesa, a Natachinha, foi sempre a minha princesa, foi e é. Só que agora chama-se Samuel.” 

Ela bem tentou contrariá-la, não a deixava levar bola para a escola, “podia magoar-se”, comprava-lhe cada vez mais bonecas — “ainda agora dei um saco cheio de barbies novas” — mas depois percebeu que não era possível continuar a dizer que não à Natacha. Foi cedendo, a comprar-lhe as bolas, as chuteiras, o Game Boy, a PlayStation, mais tarde a deixá-la usar perfume de homem, a comprar-lhe roupas do outro lado da loja. Quando o irmão saiu de casa, Natacha literalmente “fugiu” para o quarto dele, que era preto e branco. No dela, ficaram as bonecas, a cozinha, a tábua de engomar e a cor. “Tive de pôr o cor-de-rosa na arrecadação”, conta a mãe. É nas fotos de Carnaval que se vai notando a cedência de Ana: há uma em que Natacha está vestida de Minie, uma posterior já está de Pierrot e, uma grande conquista, quando conseguiu que a mãe a deixasse vestir-se de Ninja. “A minha mãe não sabia o que era um Ninja e eu aproveitei-me disso”, brinca Samuel. Ana deixou mesmo de “reclamar” quando a filha tinha uns 17-18 anos, mas não lhe conseguia responder que “sim” quando ela, vestida com roupas novas de homem, lhe perguntava: “Fica-me bem?” “Como é que queres que eu diga que te fica bem, Natacha?”

Nos casamentos e baptizados, cruzava-se esta vontade que a filha tinha de ser rapaz com o medo do olhar de censura dos outros, da família. Nessas ocasiões, lá a convencia a ir “mais feminina”, ao menos umas calças brancas e “um daqueles camiseiros que tanto dão para homem como para mulher”, que trazia de uma das suas lojas. “Era um compromisso, era eu que escolhia.” “Vou levar esta camisa por ti”, dizia-lhe sempre. “Fazia-me a vontade.” E às vezes lá surgia a pergunta: “Tens vergonha de mim?” “Não, meu amor, tenho muito orgulho em ti, mas gostava que te vestisses de forma diferente.”

Lembra-se bem do dia, um 16 de Fevereiro, quando a filha lhe disse algo como: “Olha mãe, ficas já a saber que eu não gosto de homens, só gosto de mulheres.” Andava Natacha pelos 12 anos. “Foi uma bomba, vi que estava em pânico”, lembra Samuel. “Ficou 24 horas no quarto fechada, deve ter passado o dia a chorar, depois saiu e continuou, como se a vida estivesse normal.” Samuel lembra-se de que a mãe ficou tão nervosa que atirou o telemóvel para o chão, que até se partiu. Ana não se lembra disso. Quando saiu do quarto, acalmada, foi ter com a filha e perguntou-lhe: “‘Se quiseres falar, podes vir falar comigo.’ Deu-me liberdade.” 

“Foi sempre assim a minha mãe.” Não quer dizer que conversem muito — “a nossa ligação é mais pelos olhares; se eu faço um determinado olhar, ela sabe quando eu preciso de um abraço, há outro em que ela sabe que eu preciso de falar”. A mãe, com o passar dos anos, conformou-se com aquela ideia de que tinha uma filha homossexual, já toda a gente sabia que “ela era uma maria-rapaz”, como lhe chamavam alguns, “há anos que era um rapazinho, via-se perfeitamente”. Conformou-se e quis acreditar que tudo ficaria por aí.

 “É possível uma rapariga virar rapaz?” Samuel sempre se lembra de querer ser rapaz. Também se lembra de sempre ter sido troçado por causa disso na escola. O grande medo eram os intervalos das aulas. “Passava o tempo a ver se os rapazes me deixavam jogar à bola e a fugir das raparigas, que passavam o tempo todo a gozar comigo.” Muitos transexuais só conseguem chegar ao gabinete do médico certo quando já tiveram um percurso pontuado de depressões, de problemas de escolaridade, de bullying, às vezes com tentativas de suicídio. “Andam perdidos. Até terem informação correcta, acham que não há mais ninguém assim, que são únicos no mundo”, explica Pedro Freitas, que é professor associado da American Academy of Clinical Sexologists. 

Não são únicos mas são poucos. Em Portugal, estima-se que haja cerca de 200 transexuais, números obtidos por extrapolação de estudos internacionais; 60% dos casos em Portugal são transições de mulher para homem, explica Pedro Freitas. O médico diz que a Internet veio diminuir muito o seu isolamento e facilitar a procura de informação.

Por volta dos 16 anos, não tinha a quem se dirigir para saber se era possível transformar-se, perguntou ao Google. Escreveu: “É possível uma rapariga virar rapaz?” O Google respondeu-lhe que sim e Samuel começou a acompanhar um caso real através da Internet, antes de se decidir a fazer a mesmo. O mais difícil foi a sua decisão de contar aos outros, sobretudo à mãe.

Foi há cerca de um ano que Samuel introduziu uma conversa à mesa, tentou dar-lhe um ar descontraído, começando por dar o cenário como hipotético. Era algo como “e se um filho teu quisesse mudar de sexo?”. A mãe respondeu: “Desde que fosse feliz”? “E se fosse o mano?” A mãe voltou a responder: “Desde que fosse feliz, quero é que os meus filhos sejam felizes, desde que não prejudiquem ninguém.” Era previsível a sequência — “E se fosse eu?” — e Ana manteve-se coerente na sua resposta, “desde que fosses feliz”, mesmo quando a hipótese passou a facto real e Samuel lhe começou a explicar o longo processo que tinha pela frente. Manteve-se assim até hoje. Por mais que isso lhe tenha custado, por mais que isso lhe custe todos os dias, vai-lhe perguntando: “Qual é o próximo passo?”, “tu estás bem?”, “precisas de alguma coisa?”.

Desde que o filho entrou no processo de transição que Ana ouviu falar de famílias que põem os filhos na rua. “Onde é que já se viu isso, abandonar um filho quando ele mais precisa? Agora porque a minha Natacha deixou de ser Natacha eu abandonava-a. Se [isso] tem alguma lógica. É a mesma pessoa.” No início, ainda pensou que a culpa pudesse ter sido dela, mas percebeu que ninguém tem culpa e que esta não é uma escolha, é um caminho tão difícil, o que passou e o que aí vem.

Existem algumas teorias sobre a origem da transexualidade, mas são especulativas, explica o sexologista Pedro Freitas. A ciência desconhece ao certo as origens da transexualidade. Mas há dados que apontam para o facto de nascer com as pessoas — senão, por que razão a maior parte tem memórias desse mal-estar com o seu sexo biológico desde a primeira infância?, refere Aos três anos, já há relatos de meninos que só querem fazer coisas de meninas e vice-versa, dando conta desta “desconformidade” entre “a identidade sexual” e o corpo com que nasceram. Como foi o caso de Samuel, diz o próprio e confirma a mãe. 

No Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais (DSM), o livro produzido pela Associação Americana de Psiquiatria que lista as perturbações psiquiátricas, a transexualidade já se chamou Perturbação da Identidade de Género, e na última versão (a quinta), de 2013, passou a chamar-se Disforia de Género. Não há análises nem exames que se peçam para fazer o diagnóstico, por isso ele é tão moroso e passa por tantos crivos, explica Pedro Freitas. Porque as cirurgias de “reatribuição sexual” são irreversíveis. “Como é impossível ‘mudar o cérebro’, resta-nos ajudá-los/as a mudar o corpo”, diz o médico. Mas “tem de haver dois diagnósticos positivos independentes de duas equipas multidisciplinares diferentes [de sexologia clínica].” O processo inclui avaliação psicoterapêutica, testes psicológicos, análise da história de vida, conversas com familiares e pessoas próximas. 

Considerar a transexualidade uma doença não é uma questão incontroversa. Desde 2012 que no movimento LGBT (de defesa das pessoas lésbicas, gay, bissexual e transgénero) nasceu uma campanha internacional pela “despatologização da transexualidade”, reivindicando que, tal como aconteceu com a homossexualidade, deixe de ser rotulada como doença. A GID (Gender Identity Reform) Advocates, movimento com sede nos Estados Unidos que agrega médicos, académicos, investigadores, defensores dos direitos humanos e membros da comunidade LGBT defendem que “é tempo de as profissões médicas afirmarem que a diferença não é doença, a não conformidade não é patologia e a singularidade não é enfermidade”. Em Portugal, o principal impulsionador deste princípio tem sido o movimento Panteras Rosa, refere a socióloga Sandra Palma Saleiro na sua investigação. 

Pedro Freitas responde que há casos de transexuais em todo o tipo de famílias, nas mais protectoras, mais liberais, nas famílias onde o pai foi mais ausente, como aconteceu com Samuel, ou onde sempre esteve presente. “Há casos de filhos expulsos de casa. Por norma, a família reage mal, mas a grande parte acaba por aceitar. Depois, tudo se compõe.” Mas o médico, que acompanha o caso de Samuel, diz que a mãe dele “é uma grande excepção”.

"É sempre filho, é igual, é filho à mesma"“Tem filhos?”, pergunta Ana. “O que é que todos os pais querem para os filhos? Que se orientem. É sempre filho, é igual, é filho à mesma. É o Samuel, o meu filho normal.” Não está a dizer que tem sido fácil tudo isto, desde a altura em que ele a começou a sondar sobre a escolha do novo nome, até à altura em que Natacha, já depois de ter começado o processo de transição, lhe atender o telefone com a voz cada vez mais grossa, por causa das injecções de testosterona que começou a tomar em Março. De semana a semana, Ana notava que a voz da filha ia ficando mais grave. O próprio Samuel nem se apercebia bem, por isso foi aconselhado a gravar a sua voz, para perceber o tom de onde partiu. “Esta é a minha voz com dez doses de testosterona”, registou numa das gravações.

A voz cada vez mais grossa vinha de uma pessoa com um corpo que também estava a mudar. Com a testosterona, começou a ter cada vez mais pêlos em cada vez mais sítios, que deixou de depilar, deixou de ter menstruação. Mas não era só a sua aparência que estava a mudar: “Nos primeiros quatro dias depois da toma da testosterona, fico insuportável, mais conflituoso” e, mesmo querendo ser rapaz, “a Natacha nunca andou à porrada”, graceja.

A filha de Ana sempre foi saudável, ela nunca tinha estado naquela situação de estar à porta de um bloco operatório. Foi longa a espera, quatro horas, na operação para lhe tirarem o peito. Depois veio o dia em que ela lhe chegou a casa com o cartão do cidadão com o novo nome. Ana propôs um brinde, sabia que era um dia importante, ela tinha um copo de vinho, o filho tinha sumo. “Estava feliz”, e é isso que ela quer, “que a minha filha, que agora é filho, seja feliz”. Feliz dá para os dois géneros.

Ana prometeu à filha que, depois dessa primeira operação, e depois de ter o cartão do cidadão com o novo nome, ia fazer todos os esforços para começar a tratá-la por Samuel e usar o masculino. Os seus dois filhos sabem que Ana cumpre o que promete. No dia do brinde, começou então a sua “guerra interior”. “Comecei a educar-me.” Já lá vão três meses e ainda continua a enganar-se. O que faz é repetir a frase que lhe sai mal, no feminino, tantas vezes quando for preciso até lhe sair bem, no masculino. Mas quando em casa o começou a chamar por “filho”, havia vezes que lhe respondia o outro filho. Então decidiu adoptar outro tratamento, “anda cá filho mais novo”. Foi desta expressão transitória que partiu para começar “a gerar o Samuel” dentro de si para conseguir chamar esse nome à filha Natacha. 

Mas quando o Samuel lhe disse uma vez “tens de enterrar a Natacha” Ana levou a mal. Ela não vai enterrar a filha, que continuará numa moldura do seu quarto ainda de cabelo comprido, ao pé de outra do Samuel, de cabelo curto e a barba que lhe está a começar a aparecer. “Estou é a receber de braços abertos o Samuel.” De resto, tenta brincar. Diz que não garante que, quando se zangar, não lhe vá sair um daqueles raspanetes de nome completo típico dos pais, um “Natacha Filipa, anda cá imediatamente”. 

Eles os dois até já conseguem fazer humor com a situação. Depois existem todos os outros, a sociedade. O ser humano precisa de catalogar, as pessoas ficam ansiosas se não sabem o que têm à frente. “Não consegue lidar com a incerteza. As pessoas precisam de dar nomes às coisas.” Samuel sempre sentiu isso, há um erguer de sobrolhos específico que ele aprendeu a identificar. Têm a dúvida escrita na cara, estão a estudá-lo, como quando entrava num café e as pessoas não sabiam se lhe haviam de perguntar “o que é que a menina quer?” Ou seria o menino? 

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Para Ana, Natacha era a sua "princesinha". Forrou-lhe o quarto de cor-de-rosa mas Natacha preferiu o do irmão, "a preto e branco". No Carnaval, conseguiu vestir-se de Ninja
Quando tirou o peito, tudo mudouNão bastava vestir-se à rapaz desde os seus 15 anos, ou usar roupa larga para esconder o peito, ou deixar-se engordar para esconder o peito que, foi descobrindo, aumentou na mesma proporção do seu peso. Mesmo depois de ter decidido ser Samuel, continuava a carregar o peito grande que é comum às mulheres da sua família. Para o mundo, o facto de a sua camisa de homem agora cair direita no tronco mudou muito, conta. Foi mais uma parte do todo, mas socialmente talvez tenha sido a peça mais importante, explica Samuel. Porque havia quem lhe olhasse para a cara e não soubesse o que pensar; na dúvida, ia à procura de mais dados e encontrava o peito, e decidia que ele era uma mulher. 

Quando tirou o peito, tudo mudou. A sua primeira ida à casa de banho de homens foi um marco. Dessa vez, ninguém lhe fez perguntas. Ao entrar não conseguiu evitar sorrir, não sabe se algum dos outros homens reparou e se se perguntou porque sorria aquele rapaz. Talvez achassem que se estava a lembrar de alguma piada. Não, era mesmo da sensação de completude, de satisfação intensa, de entrada no mundo ao qual sempre quis pertencer mas que sempre lhe tinha estado vedado. Há autores que falam neste processo de transição como “uma migração”. Ao mesmo tempo, era como se os tivesse conseguido enganar, “nem sabem o que aqui está”. Os quatro soutiens comprados com a ajuda da mãe, nunca quis ter mais, estavam prontos para ser atirados ao lixo.

Nunca tinha ousado entrar numa casa de banho de homens. Antes da operação ao peito, tinha de ir à das mulheres mas havia vezes em que senhoras partiam do pressuposto de que era um homem porque usa o cabelo curto e se veste à rapaz, e lhe diziam “olhe que o senhor está enganado. Está na casa de banho das mulheres” e ele, contrafeito, lá moldava a camisa para provar que tinha peito e que podia estar ali, embora não quisesse. Sentia-se humilhado nesse mundo do meio em que “ainda não era ninguém”. 

E continuava a ter um cartão do cidadão onde se chamava Natacha. Não podia sequer tentar arranjar emprego. “Enviava o currículo com a fotografia e ia o nome Natacha e não me chamavam; se enviasse o currículo sem foto, ia à entrevista e nunca mais me diziam nada, seja o que for, mesmo para trabalhar em call centers”, em que nem se vê o corpo de quem está a atender o telefone. Esteve com a vida parada, neste impasse, de onde tentou e conseguiu sair. Pedro Freitas explica que “as pessoas têm medo do desconhecido”, quando lhes é explicado o que é a transexualidade muitos mudam de comportamento. Como médico, já fez sessões de esclarecimento sobre o que é a transexualidade para família, amigos e entidades patronais.

Foi depois da sua operação que pôde finalmente arranjar o seu primeiro trabalho como homem. Foi um biscate, dinheiro na mão, até porque no seu cartão do cidadão ainda era Natacha. Era um serviço duro, para homens, era preciso forrar uma sala de espectáculos para um concerto, acartar com rolos de dois metros de relva sintética, montar bancadas. Todos eles devem ter ficado doridos com o esforço, mas Samuel deve ter ficado mais, adivinha. A testosterona deu-lhe mais força do que tinha, mas o seu corpo ainda é mais frágil, como o de uma mulher. “Não tenho força como eles.”

Nesse primeiro trabalho, teve um vislumbre do que é uma conversa dita de homens, a sua primeira ‘conversa de gajos’. Bem, não foi bem uma conversa, ele não comentou, ficou quase calado, não disse nada para não se desmascarar, mas não podia ficar de fora, acompanhava as graçolas com riso. “Foi cómico e constrangedor. Foi importante.” “Foi a primeira vez que me trataram como um homem, foi a primeira vez que eu me senti como um homem”, como se estivessem a dizer “tu já entraste mesmo nesta parte do mundo”. Confirma-se o estereótipo, eles só pensam em sexo, ou pelo menos, estes foi muito disso de que falaram, das suas façanhas e capacidades nesta área, o eu posso e aconteço. Percebeu naquele momento que será sempre “um homem diferente, um homem que foi uma mulher”. É como se pudesse reunir “o melhor de dois mundos”. É como se fosse um agente duplo. Ele quer pertencer ao mundo da testosterona, mas Natacha será sempre parte de Samuel. E isso, mais nenhum daqueles homens alguma vez terá, “essa sensibilidade”, diz.

Muitos transexuais destroem tudo o que os liga ao passado do sexo que querem deixar para trás, roupas, fotografias, documentos antigos. São menos os que “guardam porque percebem que faz parte deles”. “São mais os que querem renascer e fazer um corte inicial”, diz o médico Pedro Freitas. 

“Gosto da pessoa que sou, tive uma infância diferente da dos outros homens. Muita gente quer esconder ter nascido em corpo feminino, eu tenho gosto no meu passado. Aquilo que eu sou deve-se ao que passei como Natacha. A Natacha deixou de existir para o mundo, para mim está cá.”Que opinião terá formado aquele grupo de homens acerca dele? Devem ter achado que é “um rapaz bastante calado”, mas nunca lhes terá passado pela cabeça que, até um ano atrás, era uma mulher e estava ali a ouvi-los gabarem-se das suas façanhas sexuais com o sexo oposto. Anda há muito tempo a estudá-los, aos homens, “quero entender como eles funcionam”. Aliás, se voltar atrás, acha que os dois namorados que chegou a ter — mais “por pressão social”, não porque gostasse deles — acabaram por se tornar objecto de estudo, aproveitou para lhes conhecer o corpo e a forma de pensar. 

Há muitas decisões que é preciso tomar para que Samuel não seja só nome de homem, mas também tenha comportamentos de homem. Foi educado como menina, mas aprendeu que para ser homem tinha de andar de determinada forma — arqueia ligeiramente os braços e as pernas, tem passos pesados. Sabe que “um homem não se senta de pernas juntinhas, não cruza as pernas”, como a Natacha foi ensinada. “Um homem senta-se de pernas abertas.” 

 “Regras silenciosas do género”A socióloga Sandra Palma Saleiro, na sua tese de doutoramento, convoca diversos autores para falar sobre este “trabalho” de “produção do género”, que exige esforço e atenção nas interacções do quotidiano e que é objecto de “estreita vigilância por parte dos outros”. “As pessoas transexuais têm de aprender modos de apresentar o seu corpo que vão além de aprenderem a vestir-se como homem ou mulher.” Há quem lhes chame “regras silenciosas do género”, cita esta investigadora do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa.

E nas sociedades há um modelo social do que é ser masculino e do que é ser feminino. Nos primeiros tempos da mudança, é disso que eles andam à procura, explica o sexologista Pedro Freitas. Mas são preciso muitas afinações para não se tornarem no estereótipo do que é ser homem ou mulher. “É um processo complexo, por isso é que dura dois anos [desde o diagnóstico].”

Será que Samuel, quando vai a conduzir e lhe saem comentários como “está-se mesmo a ver que é uma mulher a conduzir”, não estará a querer ser demasiado masculino? A encarnar o cliché? Ele diz que está a brincar, que está a dizer “o que é suposto os homens dizerem”.

Acontece mais nos processos de transformação de homem para mulher, diz o médico. Quando chega a hora de se vestirem e de se comportarem como mulheres, por vezes “exageram” — com excesso de maquilhagem, saias demasiado curtas, saltos demasiado altos. “Querem mostrar ao mundo que são mulheres e às vezes acabam mais femininos do que a mulher normal.” Às vezes, o médico tem de as ajudar, com conselhos: “Olhe à sua volta, quantas mulheres vê assim? Que tipo de mulher quer ser?” Às vezes, é preciso dosear esta feminilidade e masculinidade, diz o médico. “É preciso que eles sejam homens e mulheres o mais normal possível.” 

Há uma série de provas sociais que têm de ultrapassar, mas esta “credibilidade de género” é mais difícil de atingir nos homens que passam para mulheres, diz a socióloga Sandra Palma Saleiro. “As mulheres [que eram homens] lutam arduamente contra os pêlos, contra o tamanho dos seus pés e das suas mãos, contra a sua largura. Estão constantemente a ser traídas pela biologia.” “A estética corporal feminina é mais vigiada do que a masculina, é mais alvo de comentários.” Já as mulheres mais facilmente se transformam fisicamente em homens, nota. 

Samuel diz que sempre lhes imitou os gestos, “para ser como eles”, sabe que é suposto os homens se sentarem de pernas abertas, mas ele adapta este movimento. “Vejo e depois faço à minha maneira. Tenho um toquezinho que é meu.” “Há homens, há mulheres, mas há tantos tipos de personalidades diferentes.” É como se Samuel tivesse aprendido a lição da justa medida no ser masculino.

Mas há problemas que continuam a surgir todos os dias, do lado dele e dos outros. Quando tios e primos o vêem, têm de decidir como hão-de cumprimentá-lo: dão-lhe dois beijinhos, como faziam com a Natacha? Ou um aperto de mão, como se espera que façam com outro homem? Já os descansou. Podem continuar a beijá-lo como faziam com a sobrinha. Afinal, os pais não beijam os filhos? Os irmãos não se beijam entre si? “Não tenho problemas que um tio queira dar-me beijinhos para sempre.” Foi isso que a mãe lhe deu por conselho: “Não tenhas problemas, os homens dão beijos aos homens. As pessoas vão-se habituando.” Mas o processo é vagaroso. Há familiares que quando ligam lá para casa começam o telefonema com um bem-intencionado “olá Samuel”, esquecem-se a meio e terminam com um “adeus Natacha”. “Tenho de dar tempo às pessoas para se habituarem. Tem de ir aos poucos.”

Samuel tentou facilitar a vida à mãe, foi ele quem lhe apagou a Natacha da lista de contactos do telemóvel e a substituiu por “Samuel filho”. Juntou as duas palavras porque a mãe precisa de assimilar os dois conceitos ao mesmo tempo, que ele é o Samuel e que ele é seu filho. Também mudou de operador de telemóvel, Natacha era Vodafone, Samuel é NOS, o número dela começava em 91, o dele passou para 93. Os números seguintes são todos diferentes e às vezes Samuel atrapalha-se, mistura os dois e as pessoas acabam com um telemóvel que não existe porque é uma mistura de números das suas “duas vidas”. 

No início ainda mudava o cartão do telemóvel para ir ouvir as mensagens deixadas para a Natacha, de pessoas que não sabiam que já não existe, mas agora deixou de lá ir. “Quem é realmente importante na minha vida acompanhou a mudança e já tem o número de telefone do Samuel.” Quem liga para a Natacha continuará a ouvir: “O número que marcou não está disponível, por favor tente mais tarde.” 

A mãe e o pai baptizaram-no Natacha Filipa, Samuel manteve o Filipe “como uma forma de respeito” pelo nome que lhe escolheram à nascença. Se o seu nome feminino desse para masculinizar, talvez o tivesse mantido. 

Em comum, Natacha e Samuel têm apenas o “a”Mudar toda a sua documentação implicou ter de nascer de novo, teve de pedir um novo Assento de Nascimento para Samuel. Na Conservatória do Registo Civil da Amadora, há uma pessoa de 23 anos que surgiu a 9 de Setembro de 2014. O assento de nascimento de Natacha “foi cancelado”. 
A Natacha desapareceu do telemóvel da mãe, deixou de ter perfil no Facebook, ainda antes de ele “ter ido buscar o nome”, que é como ele fala do dia em que foi buscar o seu novo cartão do cidadão. Nesse dia, a 3 de Outubro deste ano, teve de desenhar no papel, ali no momento, uma assinatura que nunca foi a sua. O Samuel era dito mas agora tinha de o escrever. Em comum, Natacha e Samuel têm apenas o “a”. Parece que até a caligrafia dessa letra ficou diferente. O número de identificação é o mesmo, mas nenhum serviço público poderá ter acesso à sua anterior identidade, a não ser as autoridades judiciais ou policiais, mas apenas em situações de instrução ou investigação criminal, refere uma nota explicativa do Instituto dos Registos e do Notariado.

Mas mesmo sendo agora oficial, para o Registo Civil, Finanças, Segurança Social e Sistema Nacional de Saúde, que ele é Samuel, a vida da Natacha continua a cruzar-se com a sua. Quando teve de ir à sua antiga escola buscar um certificado de habilitações, encontrou-se com uma antiga professora, que o olhou, intrigada, e lhe perguntou: “Não tem uma irmã gémea? Tive uma aluna muito parecida consigo.” Ele respondeu que não tinha irmã, só um irmão mais velho, mas quando se despediu decidiu brincar com ela: “Adeus, professora Ana.” Não sabe como terá resolvido a professora aquele episódio, “não olhei para ver a reacção”. De vez em quando, aparecem-lhe cenas dessas, do “és muito parecido com alguém que eu conheci”. Vão continuar a acontecer-lhe todos os dias, acredita que cada vez menos. Afinal, “essa pessoa era eu”. Mas só se dá ao trabalho de explicar “se a pessoa foi importante para a Natacha”. Aos apenas conhecidos não vale a pena estar a revelar algo tão íntimo. 

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A sua mudança é algo que faz parte da sua intimidade, mas que é impossível manter em segredo. O que é se responde a alguém que, há umas semanas, perguntou a Ana, e que a conhece ainda antes de a filha nascer: “Como é que está a Natachinha, nunca mais a vi?” “‘A Natachinha está óptima, mas olhe que daqui em diante vai passar a chamar-lhe Samuelzinho.’ As pessoas não fazem mais perguntas.” Apresenta assim a mudança com naturalidade, como se todo aquele processo não a tivesse virado do avesso. “Se não levasse isto na desportiva, estava doida.” Foi sempre essa a sua estratégia, desdramatizar, tornar aquela mudança como algo de normal, que já passou ou que vai passar. 

Pedro Freitas diz que vai haver uma altura em que poucos se lembrarão da Natacha. “O peso do passado dilui-se. Chega a uma altura em que toda a gente já sabe, acabou a curiosidade dos vizinhos. Houve uma normalização do facto.” Ainda falta.

Quando Ana responde, como fez com aquela conhecida, que agora Natacha é Samuel, ou quando corrige os outros quando dizem “ela” em vez de “ele”, sabe que se geram com certeza comentários, chama-lhe “o teca-teca-teca”. Percebe às vezes esgares trocistas, mas tenta que não a afectem. Também já percebeu que a maioria das pessoas não consegue ir além do conceito de homossexualidade: pensam okay, a Natacha gosta de raparigas, é lésbica, mas porque é que tem de andar com aquelas coisas de mudar de nome e fazer a mãe gastar dinheiro com as operações? “As pessoas ficam por ali, só percebem a tendência, não conseguem distinguir entre uma coisa e outra e não tentam saber mais.” 

E Ana não está para lhes explicar que ele é transexual e que isso é uma coisa diferente. Que ela como mãe sempre “quis ter uma menina”, mas que “ela não nasceu para ser menina”, que uma coisa é a orientação sexual (que determina o que achamos sexualmente desejável) e outra é a identidade de género. Mas por mais que Ana esteja dentro desta vida não quer dizer que não seja tudo ainda estranho. Ela também não sabia que existiam transexuais. E o que é mais difícil em termos sociais, ser homossexual ou transexual? Ana não sabe.

O Estudo sobre a discriminação em função da orientação sexual e da identidade de género, realizado em 2010 para a Comissão para a Cidadania e a Igualdade Género, demonstrou que, em Portugal, as pessoas transexuais são percebidas como as mais discriminadas de entre uma listagem de mais de 20 grupos sociais vulneráveis à discriminação, refere a socióloga Sandra Palma Saleiro na sua tese de doutoramento. A seguir surgem os ciganos e os gays, muito acima de pessoas negras ou estrangeiras. 

“Era mais fácil ser a Natacha para o resto da vida”, reconhece Samuel. “Há pessoas que pensam ‘eu não vou estragar a minha vida, deixam andar, pensam ‘na próxima vida pode ser que venha certo’.” Mas também são conhecidos casos de pessoas que se suicidaram ou de pessoas que esperam demasiado tempo para mudar, quando já têm a sua família, como um caso de que ouviu falar de uma pessoa de 40 anos, que “já tem uma filha”. Samuel disse à mãe que se fosse ela a mudar de sexo, ele também a ia respeitar, mas Ana desconfia da bondade dessa afirmação. Estava-se mesmo a ver, um filho aceitar que uma mãe passava a ser pai.

Ana preferia “que tivesse sido tudo normal”, não tanto por si, mas pelo que o filho está a passar e pelo que ainda vai ter de passar em termos de discriminação e de “sofrimento físico”. É angustiante saber que vai ter de ser operado pelo menos mais 13 vezes, com igual número de anestesias gerais, que ainda vai ter de fazer tanto para aproximar ao máximo o seu corpo de mulher ao de um homem, que vai ter de tirar útero e ovários. Pensa no mal que faz à saúde da sua filha que agora é seu filho passar uma vida a tomar hormonas para continuar a ser quem se sente. Às pessoas que lhe oferecem compaixão como mãe, “não queres ir almoçar para falar da tua filha?”, diz a todas que não. Até já lhe indicaram uma associação que apoia pais que estão a passar pelo mesmo que ela, a AMPLOS (Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual). “Eu aguento. Penso sobretudo na minha filha, que agora é meu filho”, corrige-se Ana, como lhe acontece tantas vezes. 

Ana gostava de conseguir mudar o mundo que o vai receber. À noite, quando às vezes não consegue dormir, visualiza-se numa grande festa de celebração “à chegada do Samuel”. Em todas as vezes ela está a fazer “um discurso muito bonito” em que faz ver a todos os presentes “que só temos uma família, que não interessa o nome, que os filhos são sempre os mesmos. Que ele não teve culpa de nascer assim, desde que ele seja feliz e que não sofra”. Que o seu filho tem saúde e que “há coisas piores na vida”. Este seu sonho é como um daqueles filmes de Hollywood em que acabam todos rendidos, como se Ana conseguisse, de uma assentada, que o seu discurso muito bonito mudasse mentalidades e impedisse a sua filha, que agora é o seu filho, de sofrer.

De resto, em sua casa, “já se fala pouco na Natacha, só quando é para falar do passado”, diz Ana. Agora, ela é uma mãe que tem dois filhos mas “o mais novo” vai ser sempre um filho com quem tem uma cumplicidade especial. Vai continuar a ser a ele que pede para lhe pintar as unhas, para lhe esfregar as costas no banho, com quem vai continuar a não sentir qualquer embaraço de andar nua. Com ele, vai continuar a falar de coisas íntimas, de ser mulher, como foram as duas durante 23 anos.

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