O estilista que levou a China para as passerelles de Paris

Yang Li acredita que cada costura e cada ornamento “são um estudo sobre o comportamento humano”, com todas as suas falhas e defeitos. A paciência para conquistar um universo em que um par de jeans pode custar mil euros e em que ele quer ver destacada a sua marca, ganhou-a na China, onde nasceu há 26 anos.

Foto

Yang Li está à porta do seu showroom relativamente acéptico, numa rua estreita em pedra, no meio da arquitectura elegante da capital mundial da moda. Faz uma pausa na monótona tarefa de olhar para roupa, vender roupa, falar de roupa, para fumar um cigarro. O seu cabelo negro de risco ao meio dá-lhe pelos ombros e cai-lhe pelas costas. Tem várias argolas de prata nas orelhas e usa a camisa preta apertada até ao pescoço. Está quieto. Calmo. Tranquilo.

A sua cara nesta tarde soalheira de início de Outono, enquanto o mundo da moda gira a um ritmo frenético, é a de alguém que se recusa a ser apressado ou assoberbado. Não quer saber se todo e qualquer detalhe da indústria que escolheu imane impaciência acima de qualquer outra coisa. Mesmo a sua voz de contralto é apaziguadora, com um sotaque que é uma mistura de Oriente e Ocidente. As suas inflecções são a soma da sua experiência — nasceu na China, viveu em Perth, na Austrália, estudou em Londres. Trabalha em Paris.

Quem é este tipo? Se dissermos o nome dele, a maioria das pessoas vai perguntar: Yang quê? Bom, ele é um novato. É um designer de moda que está agora a começar a sua carreira. A sua empresa modesta é autofinanciada; por cada retalhista que ganha, é como se tivesse marcado um golo. É um jovem com um ponto de vista atraente, um foco preciso e um passado que reflecte a crescente influência da China no comércio do luxo.

A China é o maior consumidor mundial de artigos de luxo — a paisagem rapidamente se encheu de boutiques de designers e estas continuam a aumentar. Mas não oferece nem por sombras tanto quanto recebe. Poucos dos estilistas chineses conseguiram ir além do mercado local. Li faz parte de uma nova geração de designers chineses que está empenhada em internacionalizar-se. E ele quer chegar ao topo.

Li tem a audácia de trabalhar no ar rarefeito da moda, onde um par de calças pode custar mil dólares. Tem uma criatividade audaz — colaborando com o performer Genesis Breyer P-Orridge, disponível para erradicar, fundir e apagar os sinais de género através de modificações no seu corpo. Incorporou a poesia de P-Orridge na sua colecção de Primavera 2015: “Por isso destrói o expectável.” Foi o que Li fez. E, em troca, está a ter êxito.

A sua sensibilidade e metodologia são extraí-das da sua vida errante. (“Se eu ainda estivesse na China, estaria a fazer imitações ou roupas tradicionais”, diz). De cada vez que se mudou, teve de começar do zero. E nesses momentos de silêncio solitário, “sem amigos”, explorava, escutava, estudava. Mas não romantiza o sentimento de ser um forasteiro. Prefere o lado edificante da comunidade.

“Não se trata de permanecer um outsider”, diz. “Quando o ambiente te aceita, tu aprendes”. As roupas dele recebem informação sobre a costura ocidental, a cultura skater australiana, a subversão punk e o romance sonhador. Mas a sua ética de trabalho, a sua crença no impossível, atribui-a ao tempo que passou na China. Deu-lhe paciência, afirma, e a capacidade de ver a longo prazo — basicamente, porque não tinha outra alternativa.

O estilista, de 26 anos, criou a sua colecção homónima em 2011 e fez a sua primeira apresentação de passerelle em Paris no ano passado. Passou de uma start-up a uma marca completa num aparente piscar de olhos. A sua marca inclui roupa de homem e mulher, para além de sapatos. Mas por enquanto são as roupas de mulher o centro das atenções. Colocou-as na passerelle no Jeu de Paume — um museu de arte contemporânea e um dos locais mais majestosos para um desfile de moda.

Afinal, ele não veio implodir o sistema ou subjugá-lo à sua vontade, mas apenas destacar-se nele. As suas roupas conseguem fazer a ponte entre o polido e o rude, a perfeição fria e a humanidade da imperfeição. Acredita que cada costura e cada ornamento “são um estudo sobre o comportamento humano”, com todas as suas falhas e defeitos.

É um músico frustrado e usa a diferença entre uma música gravada e uma actuação ao vivo como analogia. “Quando se ouve um CD, tudo é perfeito”, afirma. “Depois, vamos ver a banda ao vivo. Há calor, suor, pessoas a ir contra nós. Está talvez um pouco desafinada. A imperfeição arrasta-nos para a vivência.” “Se uma coisa é muito perfeita, torna-se quase vazia de emoção.”

As roupas de Li não apontam para a nostalgia nem prestam homenagem a um pedaço perdido da história, ou tentam reinventar outra era. São o aqui e o agora, reflectindo um mundo que ainda usa a costura como uma marca de formalidade, casacos de motard como sinal de rebeldia e a fluidez como característica da feminidade.

Foto
Laura Stevens/Washington Post

“Comprámos a sua primeira colecção”, diz Dominic Marcheschi, co-proprietário da influente boutique Blake, em Chicago. “Ao início, era quase do tipo farda. Mas evoluiu a partir daí... Agora, tem um toque feminino. Mas não se trata de roupas bonitas, nem de vestidos bonitos e de menina.” Estas roupas são duras.

Nasceu em Pequim em 1987, e até aos dez anos vivia sem acesso à cultura pop, às comunicações modernas e à comunidade global. Estava isolado pela Revolução Cultural chinesa, pela lei e pela política. Foram precisos dez anos para conhecer a mãe. “Ela deu à luz e partiu ao fim de três meses. Teve a oportunidade de sair e ser tradutora”, conta Li. “Durante a década de 1980, na China, não era fácil sair.” Por isso, ela aproveitou a oportunidade e foi para Perth, na Austrália.

O lado paterno da família era comunista. O pai era jogador de pingue-pongue e trabalhava no Governo. “Vivi em Pequim os meus anos de formação”, diz Li. “Começa-se a criar uma ética de trabalho; começa-se a criar paciência.” O tempo sem a mãe deu-lhe “uma maturidade precoce”, explica. “O que aprendi nesse período foi: nada de valor se consegue sem o merecermos.”

Em 1997, Li juntou-se à mãe, em Perth, onde passou por um novo tipo de isolamento, imposto pela língua e cultura. “A Austrália só se importa com a natureza e com desportos radicais”, afirma. Fez amizade com um grupo de skaters e ficou encantado com a possibilidade de se destacar como indíviduo ao mesmo tempo que fazia parte de uma comunidade.

“Temos o nosso grupo ou tribo. Todos queremos sentir que pertencemos ali, mas que somos diferentes”, diz. “Existem todas aquelas nuances: [com o tipo de] jeans que se veste, podemos dizer que género de coisas se fazem.” “Foi assim que fui parar às roupas: eu pensava, ‘se usar este tipo de calças, isso vai mudar a minha forma de andar’”, afirma. “Foi assim que descobri o poder do vestuário.”

Em 2007, mudou-se para Londres e inscreveu-se num curso de moda em Central Saint Martins, que conta com designers como Alexander McQueen, Stella McCartney e John Galliano entre os seus antigos alunos. Deixou a escola mais cedo para trabalhar para Raf Simons, cuja mistura de cultura de rua com um estilo elaborado Li admirava. Pouco depois, estabeleceu-se por conta própria. “Quando comecei, tinha 23 anos”, conta. “A ingenuidade da juventude dá-nos uma sensação de bravura.”

Com o tempo, internacionalizou-se. Perguntem-lhe em que local se sente em casa e ele levará alguns minutos a responder, antes de dizer Londres. Avançou para o sítio onde a indústria chinesa da moda se está a dirigir.

“Os últimos anos têm sido os de crescimento mais rápido”, comenta Angelica Cheung, editora da Vogue China. “Quando lancei a Vogue, há dez anos, queríamos publicar uma coluna regular sobre os estilistas chineses. Era difícil encontrar designers suficientemente bons para aparecerem ao lado das marcas internacionais. Agora, há demasiados.”

Muitos desses estilistas — que são agora dezenas — estudaram no estrangeiro, tal como na China. Têm ateliers em Paris ou Londres. Estão ligados às redes sociais, são fluentes em inglês e adeptos da autopromoção.

Mesmo com o recente abrandamento das vendas de roupa e acessórios caros, a China continua a ser um mercado onde a moda é consumida vorazmente e despudoradamente fetichizada como sinal de sucesso.

Cada vez mais, são vedetas chinesas como Li Bingbing, Fan Bingbing e Shu Qi que criam turbulência na semana da moda, com toda a imprensa e promotores a seguir na sua direcção. Enquanto os convidados americanos se sentam a questionar quem é quem, os fotógrafos concorrem para ver quem consegue captar aquelas jovens impecavelmente vestidas.

O país está a tentar acabar com as conotações negativas do “made in China”, sinónimo de má qualidade, enquanto marcas caras como a Prada, Michael Kors e Coach estabeleceram ali a sua linha de produção. E o Council of Fashion Designers of America criou um programa de troca que tem enviado estilistas de Nova Iorque à China e trazido a Nova Ioque estilistas chineses, como Uma Wang e Masha Ma.

“Nos primeiros anos, as pessoas só queriam usar aqueles ‘logos’ e marcas óbvios... Essa geração de consumidores evoluiu”, afirma Cheung. “Agora têm muitas roupas no armário... Dizem ‘sim, posso comprar uma mala Louis Vuitton, mas posso vestir roupa de um estilista chinês porque gosto dela’. Tudo vem com a confiança e a experiência.”

O alcance mundial dos designers chineses só agora começou, adianta Cheung. A escala ainda é pequena. Mas Yang Li sobressai. “Ele é muito sério naquilo que faz”, diz Marcheschi, da Blake. “Acho que vai conseguir chegar a outro patamar.”

Quando era miúdo, se alguém lhe tivesse perguntado alguma coisa sobre moda, Li teria respondido que não passava de uma indústria de vestidos de noite. Chegou a estudar Direito por uns tempos, só para agradar aos pais. Experimentou música. “Não tenho talento musical. Já tentei tocar”, mas sem a coragem de chegar a um palco e actuar para uma data de gente. E “a luz não incide suficientemente bem na minha cara para eu poder ser actor”.

A moda tornou-se a sua expressão criativa — e a passerelle o seu palco. A moda chamou-o, e ele foi.

“Durante dez minutos, de seis em seis meses, digo ou faço coisas que se fossem verdade não conseguia”, afirma. “Escrevo uma carta de amor.”

 

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post