E se num caderno em branco um viajante...

O segundo volume de Diários de Viagem leva-nos numa volta ao mundo dos viajantes.

O segundo volume de Diários de Viagem leva-nos numa volta ao mundo dos viajantes. Há quem fale na inutilidade dos seus desenhos, há quem diga como são sobretudo importantes para os seus autores. A nós, observadores, cabe-nos contemplar. O que não é pouco

Há um momento em que o viajante se imobiliza, observa e capta. Pode pegar num bloco de notas, sacar da máquina fotográfica, esforçar-se por fixar o momento na memória. Ou agarrar nos seus lápis e no seu caderno.

De Janeiro a Outubro de 2013, Eduardo Salavisa percorreu a América Latina. Começou na Cidade do México e terminou em São Paulo, passou por 15 países, dormiu em 50 cidades, fez cerca de 900 desenhos em 18 cadernos e escreveu duas dezenas de cartas ilustradas. A viagem terminou num livro, mas não no livro que se poderia pensar. Diários de Viagem 2- Desenhadores Viajantes (Quimera) não é a súmula dos seus desenhos, é uma volta ao mundo em 30 viagens feitas por 32 ilustradores diferentes.

Cada um terá os seus métodos, os seus blocos preferidos, os seus lápis especiais. Salavisa andou sempre com um caderno Laloran de capa dura A6 no bolso das calças e uma caneta à prova de água. À noite, quando chegava ao hotel, coloria, fazia anotações, colava coisas, revivia o dia. “Em viagem, em dez minutos faço um desenho. Gosto de pintar em pé. É como tirar notas, como se estivesse a escrever para não me esquecer de alguma coisa”, conta à Revista 2.

É esse tempo, o tempo de um desenho, “que fica na memória, porque se está muito mais atento”. E por haver essa concentração brutal, estes desenhos trazem mais tarde uma multiplicidade de leituras — o que aconteceu naquele momento e está no desenho, o que aconteceu e não está no desenho, como se foi ali parar, para onde se foi a seguir… Os desenhos dos diários de viagem “são muito mais importantes para os próprios [autores] do que para o observador”, diz Salavisa.

E são de tal forma importantes que quando desaparecem seis cadernos — “toda a América Central” — o desalento é tão grande que se colam cartazes pelas ruas da cidade de Pasto, na Colômbia, a oferecer recompensa, se dá entrevistas a rádios e jornais a pedir ajuda, se pensa até em contratar um detective. De nada serviu. “Um terço da viagem foi-se”, conta Salavisa.

No regresso, achou que não fazia sentido fazer um livro que estaria necessariamente amputado. Já tinha publicado em 2008 o primeiro Diários de ViagemDesenhos do quotidiano, de ilustradores que tivessem por hábito andar sempre com um caderno na mão. Agora, pediu a artistas portugueses e espanhóis (ou franceses a viver em Espanha, como Lapin) que dessem o seu contributo com dez desenhos de viagens que tivessem feito (elaborados sem a intenção de serem publicados) e um texto até mil palavras (“gosto sempre de ter qualquer coisa teórica para além do desenho”).

Duas das respostas positivas surpreenderam-no: a do arquitecto Álvaro Siza (que ao contrário de todos os outros não pôde enviar os desenhos com o rebordo do caderno porque desenha em folhas A4) e a do pintor espanhol Miquel Barceló (que também ao contrário de todos os outros não enviou texto). É assim que vamos dos Himalaias (António José Coelho) à Patagónia (o próprio Salavisa), passamos por Londres (Marta Teives), espreitamos o Vietname (José María Sanchéz) ou quedamo-nos no Alentejo (Luis Ançã), numa viagem pelos viajantes.

Salavisa escreve no início do livro que “as viagens servem para o que nós quisermos que sirvam”. E os desenhos? Para que servem os desenhos? A resposta de António Jorge Gonçalves no texto que acompanha a sua ida ao Cairo: “Se há uma coisa libertadora nas páginas do meu caderno, é a sua inutilidade.”