Passos escolhe figura distante da Administração Interna para evitar riscos

PS e PCP lamentam que só um ministro deste executivo seja substituído.

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Anabela Rodrigues vai suceder a Miguel Macedo no Ministério da Administração Interna Carlos Lopes (arquivo)

Ao escolher a académica Anabela Miranda Rodrigues para a pasta da Administração Interna, Pedro Passos Coelho apontou intencionalmente para uma figura com algum distanciamento do sector, apurou o PÚBLICO.

Trata-se de uma pessoa que é estranha a “interesses instalados” e que está completamente “arredada” deste escândalo que abalou o Governo nos últimos dias, de forma a evitar que fosse um “risco e uma debilidade” para o executivo, segundo uma fonte próxima do processo.

Apesar de Anabela Rodrigues nunca ter passado pela área da segurança interna, a mesma fonte lembra que os focos de tensão com as forças de segurança já passaram (a propósito de questões como o estatuto remuneratório) e que agora há trabalho jurídico para fazer, o que se adequa ao perfil da ex-directora do Centro de Estudos Judiciários.

Na oposição, as reacções públicas foram de crítica à opção de Passos Coelho substituir apenas o ministro da Administração Interna.

O PS lamenta que continue a agonia do Governo e considera insuficiente a substituição de Miguel Macedo. “Em vez de fazer uma remodelação mais alargada, o primeiro-ministro decidiu substituir um só ministro, mantendo assim o seu Governo ligado à máquina. Logo após a demissão de Miguel Macedo da pasta da Administração Interna, dissemos que outros ministros poderiam ter tido a mesma lucidez, abandonando o Governo”, afirmou aos jornalistas, no Parlamento, Ana Catarina Mendes, vice-presidente da bancada socialista.

Relativamente a Anabela Rodrigues, a deputada disse que o PS a “conhece bem” e deseja-lhe as “maiores felicidades”. "Não está aqui em causa o perfil – está em causa a opção do Governo em ficar numa agonia até ao final do mandato, em vez de fazer uma remodelação profunda", acrescentou a deputada socialista. A nova ministra foi reconduzida na direcção do CEJ por José Sócrates, em 2007, depois de ter sido nomeada em 2004 por José Pedro Aguiar-Branco.

Para o líder da bancada comunista, a substituição de um ministro soube a pouco, tendo em conta o escândalo dos últimos dias. “Perante uma investigação criminal que envolve altas figuras do Estado, que envolve pessoas dos serviços de informações que são da tutela do primeiro-ministro, e que visa os vistos gold criados pelo vice-primeiro-ministro, o que entendemos é que a nomeação de uma ministra não é medida suficiente para resolver o problema”, afirmou João Oliveira, líder da bancada comunista.

João Oliveira reitera a necessidade de demissão do Governo: “Só se pode resolver a situação grave criada com a demissão do Governo e a convocação de eleições.”

O nome de Anabela Miranda Rodrigues foi apresentado esta terça-feira pelo primeiro-ministro ao Presidente da República, que o aceitou e que dará posse à nova ministra da Administração Interna nesta quarta-feira, pelas 12h. A penalista é docente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, da qual já foi directora, colaborou com diversos governos em reformas de legislação penal, foi directora do CEJ durante cinco anos, integrou o Conselho Superior da Magistratura e integra diversas entidades internacionais ligadas ao direito penal.

O Bloco de Esquerda também pretendia uma “remodelação mais alargada de um governo que está a desfazer-se e que tem a sua credibilidade em causa”, segundo a deputada Cecília Honório. A bloquista assinala, contudo, que  a ministra indigitada “tem um curriculum notável” e saudou a escolha de uma mulher.

Nas bancadas da maioria, a escolha mereceu elogios. O PSD aplaudiu, desde logo por ser uma mulher e depois pelo seu currículo. “É uma pessoa que tem recursos cívicos e académicos de grande relevância na sociedade portuguesa”, afirmou Matos Correia, vice-presidente do partido, acrescentando que Anabela Rodrigues “reúne todas as condições para exercer o cargo”. O dirigente social-democrata aproveitou para lamentar as reacções da oposição, em particular a do PS. “O que estava ligado à máquina era Portugal quando o Governo socialista abandonou o país em 2011”, respondeu.

O currículo de Anabela Rodrigues foi salientado por Nuno Magalhães, líder da bancada do CDS. “É uma pessoa credível, com um currículo sólido e vida académica que fala por si”, afirmou Nuno Magalhães. O dirigente centrista sublinhou a importância da política de segurança para o CDS e referiu que são esperados “desafios nos próximos tempos” no sector.