“Mar de Sophia”, uma homenagem de Ana Seara à poetisa

A compositora portuguesa vai estrear pela primeira vez uma peça dedicada à escritora Sophia de Mello Breyner este sábado, dia 15 de Novembro, na Casa da Música

Nascida em Coimbra em 1985, Ana Seara actualmente é compositora, embora isso nem sempre tenha sido o seu principal sonho. O seu caminho começou com a sua vontade de aprender piano, que na altura conciliou com aulas de ballet. Quando ingressou no Conservatório de Música Calouste Gulbenkian em Braga as suas ambições começaram-se a inclinar para outros caminhos. “Tive uma disciplina de nome ‘Introdução às Técnicas de Composição’. Essa disciplina e o seu professor, Paulo Bastos, fizeram-me deixar por completo a ideia de seguir piano. Aí a composição passou a ser a minha prioridade”. 

Ana teve o privilégio de crescer num meio familiar bastante apreciador de música. Ouvia vários estilos com os pais, avós e tios. No entanto confessou-nos que o jazz foi aquele com o qual teve mais contacto. O seu gosto por música de tradição erudita foi crescendo à medida que progredia nos seus estudos no Conservatório. Actualmente é esse o estilo que Ana usa mais vezes no seu trabalho. “Acho que todos os músicos são influenciados por vários tipos de música. Somos músicos, estamos alerta para tudo o que se passa, embora tenhamos os nossos próprios gostos”.

A primeira peça aos 15 anos

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Apesar da prioridade dada à composição ainda manteve o hábito de tocar piano Tiago Dias dos Santos

Quando compôs a sua primeira peça, Ana tinha cerca de 15 anos de idade. Durante o seu curso no Conservatório foram sendo estreadas mais algumas. Ao ingressar no ensino superior, entrou na Licenciatura em Composição da Escola Superior de Música de Lisboa, as suas ambições solidificaram.

Quando perguntamos por compositores cujo trabalho aprecia, Ana preferiu falar-nos de alguns compositores portugueses. Estes foram seus professores e tiveram também uma grande influência no seu percurso académico. Entre esses nomes estão Luís Tinoco, Carlos Caires, António Pinho Vargas e João Madureira. Contudo, Ana está grata, em particular, ao seu primeiro professor de composição, o professor Paulo Bastos. “Foi ele que me mostrou o reportório do século XX, foi ele que me mostrou que podia brincar com os sons e com isso fazer música e foi a pessoa que mais força me deu no início para que eu seguisse esta carreira”.

Desta licenciatura Ana guarda boas recordações. “O que retiro de mais positivo da minha licenciatura foi o facto de ter contactado com professores, todos eles muito diferentes e de uma generosidade enorme, tanto enquanto artistas como enquanto professores. Mostraram-nos tudo o que sabiam, tudo o que faziam, mas nunca nos tentaram guiar para um determinado caminho. Tentaram sempre ajudar-nos a encontrar a nossa própria linguagem e o nosso próprio caminho”.

Ana concluiu este percurso académico em 2007 com 19 valores. Apesar de na altura ter sido um motivo de orgulho, actualmente admite achar que “foi uma coisa que passou rapidamente”, dando mais ênfase ao seu percurso profissional depois disso. “O que importa é o que se faz depois disso e o que se consegue atingir depois disso: ter trabalho, reconhecimento dos músicos que tocam as nossas peças e ter o reconhecimento das instituições que depois nos possam fazer encomendas. Não tanto o facto de eu ter um diploma em que diz que terminei a licenciatura com 19 valores”.

A seguir à licenciatura, no que toca a estudos, para Ana seguiu-se um mestrado em Composição na Universidade de Évora no qual esteve sobre a orientação do compositor Christhopher Bochmann e co-orientação de Carlos Caires. Este também foi concluído com sucesso.

Além da composição

Após a licenciatura Ana lançou-se na composição embora isso nem sempre seja um emprego estável. “Não temos propriamente contratos de trabalho em que tenhamos todos os anos muitas encomendas”. Como tal, Ana resolveu investir também no ensino. Já deu aulas no Conservatório de Cascais, actualmente está na Academia de Música de Lisboa onde também trabalha na sua direcção pedagógica.

Ana revelou ao P3 que o ensino não foi para ela uma opção de “último recurso”, mas sim uma outra escolha que fez e que consegue conciliar. “Acho que em música devemos partilhar com os outros aquilo que sabemos, que vamos aprendendo e descobrindo. O ensino nunca foi uma segunda opção; foi sempre uma coisa assumida”. Na área do ensino, Ana já trabalhou e trabalha com grupos de coro infantis e juvenis, dá aulas de formação musical entre outras modalidades.

O que procura Ana transmitir aos seus alunos? “O meu gosto pela música. Tento que eles descubram ao máximo aquilo que a música lhes pode trazer de benéfico para a vida deles. No entanto essencialmente é o gosto que eu tenho pela música e o gosto que gostava que eles adquirissem pela música”.

Apesar da prioridade dada à composição ainda manteve o hábito de tocar piano, algo que revelou ser “uma prática diária”. No entanto não dá a esta actividade o mesmo tipo de dedicação que dá à composição. “Acho que teria de ter tido um outro tipo de vida e dedicação ao piano. Teria que ter estudado muito mais. Uma coisa é ser compositora, outra é ser pianista. Há quem consiga conciliar as duas coisas, no entanto são escolhas, e eu não fiz essa escolha”.

Residente da Casa da Música

Ana neste momento é compositora em residência na Casa da Música, Porto. No âmbito desta iniciativa está a estreia mundial, no sábado às 18h, da sua nova peça “Mar de Sophia”, uma forma de homenagem à célebre poetisa e escritora portuguesa Sophia de Mello Breyner.

A seguir a esta estreia e à sua temporada de residência na Casa da Música, Ana confessou pretender fazer uma pausa na composição. “Os últimos dois anos foram muito intensos e cheios de trabalhos. Estou a precisar de serenidade e descanso, porque a criatividade também precisa, acho eu”. Ana admitiu também estar interessada em ópera embora isso seja ainda uma hipótese que “está no segredo dos deuses”.

No que toca a uma antevisão da sua vida profissional Ana admitiu não saber o que a espera. “O mundo está em constante mudança, não faço ideia; mas se até agora consegui fazer coisas interessantes e ter um percurso sinuoso, mas bom. Espero continuar a poder escrever e que as pessoas me deêm um voto de confiança. Espero que mais gente queira ouvir a minha música e que mais gente queira que eu escreva para as suas orquestras e grupos”.

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