Entrevista

Will Oldham declara vitória

Will Oldham (ou Bonnie "Prince" Billy, como a personagem que criou por achar que "ninguém deve ser condenado a viver as suas histórias com o nome que os pais lhe deram") está de regresso a Portugal para dois concertos, amanhã em Braga e domingo em Lisboa. Antes disso, e a propósito do novo álbum que acaba de editar, A Singer's Grave – Sea of Tongues, falámos com ele sobre ganhar e perder: "Neste ponto da minha vida, já não tenho nenhuma boa razão para falhar"...

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Will Oldham, também conhecido por Bonnie "Prince" Billy, ou vice-versa, tem um disco novo, A Singer's Grave – Sea of Tongues, e toca amanhã em Braga, no GNRation, e domingo em Lisboa, no São Luiz, no domingo dia 16. O disco é óptimo, talvez o melhor dele em bastantes anos, e traz Will/Bonnie no exercício de uma das suas actividades preferidas, a perseguição e a releitura da sua própria obra – nove das 11 canções são novos "ataques" às canções de um album anterior, Wolfroy Goes to Town, agora em registo de "americana" clássica e opulenta. Ao telefone, falou-se de música nova e antiga e de vários aspectos interiores à obra e ao percurso do songwriter. No momento de transcrever a entrevista, havia a dúvida de como identificá-lo no corpo do texto. Optámos por Will Oldham porque sentimos sempre que estávamos a falar não com a personagem-Bonnie, mas com o autor dessa personagem.

Gostava de começar por dizer-lhe que não sou crítico musical. Sou crítico de cinema e a única coisa que me qualifica para esta entrevista é ouvir os seus discos há 20 anos e gostar muito das suas canções.

Oh, isso parece-me óptimo. Os críticos de cinema normalmente dizem-me coisas interessantes, porque são sensíveis à dimensão visual das minhas canções, que é importante para mim.

Por falar nisso, você também tem uma pequena carreira como actor de cinema, temo-lo visto muito nos filmes da Kelly Reichardt, por exemplo. Há não muito tempo vi finalmente o filme em que se estreou, Matewan (John Sayles, 1997), e o seu papel é fantástico. Tinha que idade, 16, 17 anos?

16, e um pé partido...

Um pé partido?

Tinha acabado de tirar a carta de condução e de ter o meu primeiro acidente de automóvel... Parti um pé, e foi nesse estado que filmei. O maior sucesso da minha interpretação em Matewan é não se perceber que tenho um pé partido.

Já estava metido na música, nessa altura?

Não, ainda não. Quer dizer, foi nessa altura que começaram a tentar atrair-me para esse mundo. Uns amigos queriam formar uma banda e andavam a convidar-me para entrar nela, mandavam-me cassetes com canções e tal. Basicamente era o grupo que veio a dar origem aos Slint.

Foi a partir desse impulso que começou a fazer música?

Não, na verdade foi um pouco mais tarde, por volta dos 19 anos.

E houve algum estímulo directo?

Sim, uma coisa bastante casual. Foi uma altura em que não tinha nada para fazer e estava a viver em casa de um amigo meu, praticamente no armário dele. Ele tinha intrumentos musicais em casa e um dia desafiou-me: "Porque é que em vez de passares os dias a olhar para o ar não tentas compor uma canção?". E foi assim...

Muito bem. Flash forward: tem um album novo, A Singer's Grave – Sea of Tongues...

Sim!

que à excepção de duas canções é como um remake de um disco de 2011, Wolfroy Goes to Town...

Gosto mais de dizer que é "outro make", não um remake. Fiz o disco outra vez, atirei-me às canções como se nunca as tivesse gravado, não as gravei por cima das versões de 2011.

Não é a primeira vez que baseia um disco em canções já conhecidas, mas é a primeira vez que faz isso com...

... com um album inteiro, sim.

E porquê, então?

Por várias razões, na verdade. Havia um tipo em Nashville, um produtor, que andava a insistir comigo para fazer alguma coisa com ele. E Wolfroy Goes to Town foi um disco que me deixou bastante frieza e desconforto. Para o dizer simplesmente, foi um disco que não ficou como eu queria que tivesse ficado. E portanto isto andava a chatear-me, era uma pedra no sapato. Neste ponto da minha vida já não tenho nenhuma boa razão para falhar. Voltar a estas canções foi como renovar um sentido das possibilidades. O disco é um ataque, que se conclui desta vez com uma declaração de vitória. A derrota é uma coisa valiosa, se a soubermos transformar em triunfo.

Você gosta de cinema, sabe que os "derrotados" sempre ficaram melhor nos filmes do que os "vencedores"...

Sim... E como é que se respeita os losers? Não é abandonando-os, é abraçando-os. Foi o que fiz com estas canções.

O disco é bastante clássico e bastante rico nos arranjos e nas orquestrações, cheio de corpo e até com alguma opulência. Na sua obra você flutua entre isto e discos muito mais despidos, com canções acompanhadas só por um ou dois instrumentos. Entre as duas aproximações, qual é que realmente prefere? Ou não consegue escolher?

Não, não consigo escolher... A vantagem de uma aproximação mais despida é que por norma resulta também em algo de mais contido, mais solitário. E acaba por reflectir outras coisas, como por exemplo o facto de na maior parte do tempo estarmos sozinhos.

Como é que nasce uma canção sua?

Hmmm... é um fenómeno muito parecido com uma sessão de espiritismo. Fecho os olhos, tento não pensar em nada, e deixar-me invadir pelo universo em que vivemos. Imagens, palavras...

E como é que dá uma canção por concluida? Pergunto isto porque, como este disco mostra bem, é frequente tratar as suas canções como um work in progress...

Sim. Para mim o momento de gravar uma canção é sobretudo o momento de lhe encontrar uma forma, uma forma fixa e, naquele instante, definitiva. Mas essa forma pode ser também um ponto de partida, um novo princípio ou o princípio de qualquer outra coisa. Sobretudo em actuações ao vivo, exploro bastante essas possibilidades. Mas tem de haver essa base, essa forma em torno da qual girar. Foi exactamente isso que não consegui em Wolfroy Goes to Town com estas canções. Foi uma gravação demasiado caótica, não senti que as canções tivessem encontrado estabilidade.

Você tem um sentido de humor bestial. Às vezes está a cantar coisas que parecem profundamente graves, até desesperadas, mas depois vistas com atenção são na verdade bastante divertidas...

Ah, ah... Sabe que uma vez, era miudo, estava sozinho por aí num motel de beira da estrada e não tinha nada para fazer a não ser ler a Bíblia, que aqui na América se encontra em todos os quartos de hotel. Li o Eclesiastes, foi o princípio da minha relação com a Bíblia. E percebi que, basicamente, a grande comédia diz o mesmo que a Bíblia: tudo é vaidade, tudo será castigado, essas coisas...

Mas não é só isso. Outro dia ocorreu-me que para se escrever uma canção como I see a darkness é preciso um enorme sentido de humor...

Bem, fico-lhe muito grato por essa observação porque acho que é exactamente isso. Não é saudável mergulhar-se no negrume e no desespero se não se tiver a certeza de que se consegue voltar de lá. E para isso é como diz, o sentido de humor é essencial.

Gosta de se ir rodeando de músicos diferentes, algo que parece obviamente importante para si.

Sobretudo gosto de estar aberto ao mundo. Há tanta coisa a tirar do mundo. Pessoas novas trazem coisas novas, energias diferentes. Por acaso agora estou muito entusiasmado por partir em digressão com os meus velhos amigos Matt Sweeney e Emmett Kelly. Partimos para Lisboa sexta-feira de manhã, estou ansioso.

E acabou de participar no disco de comeback de Cat Stevens, ou Yusuf Islam, como se chama agora. Já tinha feito backing vocals com Johnny Cash, quando ele gravou uma canção sua. Presumo que seja o tipo de coisas que tem para si um significado especial.

Muitíssimo especial, claro. É importante perceber que pessoas como Johnny Cash ou Cat Stevens-barra-Yusuf Islam estão a prestar atenção. Porque são pessoas que fizeram parte do meu próprio processo de aprendizagem, de crescimento, como lhe quiser chamar. É como ser reconhecido pelos meus pares, mas neste caso são pares de fantasia, é como eu os vejo.

E Dylan?... Não consigo perceber até que ponto Dylan é uma referência importante para si ou não.

Não sei se as conhece, mas gravei duas covers de Dylan, Going to Acapulco e Dark Eyes, a pedido do supervisor musical daquele filme do Todd Haynes, I'm Not There. Mas havia ali uma má vibração qualquer, não gostei do tipo e no fim resolvi não lhe dar as canções. Acabei por editá-las em lados B de singles. Mas tenho uma certa ambivalência em relação a Dylan. Não sei quem ele é, acho que ninguém sabe mesmo quem ele é, nem onde é que está a sinceridade dele. Percebo o jogo que ele quis jogar, mas também acho que ele não o jogou a fundo, e que sempre se conduziu com um calculismo, até em termos comerciais, que me é um pouco desagradável.

Conhece um crítico francês chamado Louis Skorecki?

Não, acho que não.

Bom, ele é sobretudo crítico de cinema, um grande crítico de cinema. Mas também é um dylanófilo radical e há um par de anos editou um livro sobre Dylan. Vou-lhe ler aqui uma passagem do prefácio: "O único cantor vivo que tem alguma coisa a ver com a loucura-Dylan é Will Oldham".

...whoa!

Ele depois continua e fundamenta a comparação, mas aonde eu queria chegar é que sempre que me pareceu que na sua propria teatralidade, na questão das identidades, etc., havia aí uma espécie de rasto do percurso de Dylan...

Bom, eu acho que ninguém deve ser condenado a viver as suas histórias com o nome que os pais lhe deram... Penso que com Robert Zimmerman [nome real de Bob Dylan] aconteceu isso, é um bom exemplo de alguém que quis inventar o seu próprio nome, mas no caso dele acho que não foi suficiente. Comigo a questão é complicada... Quer dizer, no teatro existe o dramaturgo, o actor e a personagem, e estes papéis são relativamente claros. Mas eu faço tudo, escrevo, toco, canto... O nome Bonnie "Prince" Billy nasceu daí, é uma tentativa de introduzir uma diferenciação entre autor, personagem, representação. Era menos complicado se só escrevesse, ou só cantasse. Se fosse, por exemplo, a Billie Holiday.